José Saramago | “Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia”

Por: Marisa Sousa a 2021-06-18

José Saramago

José Saramago

Prémio Nobel de Literatura, 1998

Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário.
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou postumamente, a 16 de novembro de 2021, José Saramago com o grande-colar da Ordem de Camões, pelos "serviços únicos prestados à cultura e à língua portuguesas", no arranque das comemorações do centenário do nascimento do escritor.

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Saramago deixou-nos há 11 anos.
Acreditamos, no entanto, que ele (tal como cada um de nós) viverá até que desapareça a última pessoa que dele se recorde.
 
 
 

 

Ilustração de Alexandra Silva.

 

O ponto de partida desta ilustração foi uma citação do autor: “Eu não invento nada. Limito-me a pôr à vista. Levanto as pedras e mostro o que está por baixo. Nós somos o outro do outro”.

O resultado foi a representação do autor, mostrando o que está por baixo, com o rosto parcialmente ilustrado com excertos de três das suas obras, Memorial do Convento, Levantado do Chão O Evangelho Segundo Jesus Cristo, acompanhado pela oliveira onde foram depositadas as suas cinzas, que se funde com o próprio autor e, na retaguarda da imagem, a Fundação José Saramago.

 

18 de junho de 2011, um ano depois da sua morte, à hora a que morreu (11:30h), foi na Fundação José Saramago, debaixo de uma oliveira, transplantada do olival centenário que ficava perto da casa dos avós de José Saramago, na sua aldeia natal, Azinhaga do Ribatejo, que as suas cinzas foram depositadas.

Aos tambores da orquestra de percussão Tocá Rufar seguiram-se as palavras do professor e cantor lírico Jorge Vaz de Carvalho, que leu Palavras para Uma Cidade, um texto escrito por Saramago sobre a cidade de Lisboa. Pilar segurava nas mãos rosas brancas e a multidão, que assistia, segurava os livros Memorial do Convento, que haviam trazido de casa. Seguiram-se as Palavras para Ti, uma mensagem emocionada, da escritora Lídia Jorge: “Tu não serás as cinzas que Pilar vai depositar sob a oliveira (…), serás os milhares de páginas que escreveste (…) De resto, nós queremos que este momento seja alegre, que sejas seiva desta cidade”.

 

"Quanto a nós, enquanto formos vivos, recordar-te-emos sempre. Não temos outra eternidade para te dar".

 

Por fim, Pilar del Río depositou as cinzas junto às raízes da oliveira, escolhida, pelo presidente da junta de freguesia da Azinhaga do Ribatejo, por ser aquela onde ele imaginava que pudesse estar o lagarto verde que Saramago descreve no seu livro As Pequenas Memórias. As cinzas foram cobertas por terra de Lanzarote, colocada pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa. A Violante, filha de José Saramago, coube a deposição da obra Palavras para José Saramago, textos que foram escritos sobre o escritor português, nos dias que se seguiram à sua morte.

A oliveira terá como companhia duas placas de pedra: “José Saramago 1922-2010”, lê-se numa delas; na outra, a última frase do romance Memorial do Convento: “Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia”.

 

in revista Somos Livros, Especial Saramago (junho 2018)

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