Da censura ao cânone: 7 curiosidades sobre "O Retrato de Dorian Gray"

Por: Beatriz Sertório a 2021-08-12 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Oscar Wilde

Oscar Wilde

Oscar Wilde nasceu a 10 de outubro de 1854. Foi o segundo filho de um casal irlandês residente em Dublin.
Em 1871 recebeu uma bolsa para frequentar o Trinity College de Dublin, onde começou a construir a sua persona, com o culto dos pré-rafaelitas, as roupas de dandy e o desafio às convenções.
É neste período que Wilde conhece as obras de Keats, Flaubert e Pater, embora, como disse mais tarde, já houvesse percorrido mais de metade do caminho quando os encontrou. Três anos depois está a frequentar Estudos Clássicos em Oxford.
É influenciado por dois professores de Belas-Artes, John Ruskin e Walter Pater.
Em 1879 já está a residir em Londres, onde se tornará conhecido pelo brilho das conversas e a frequência dos teatros. Escreve Vera ou os Niilistas, que não chega a ser representada, e em 1881 publica Poems.
Em 1884, casa com Constance Lloyd, uma herdeira inteligente e culta, interessada em literatura infantil e de quem teve dois filhos. A partir de 1886, Wilde assume abertamente a sua homossexualidade.
Colabora com a Pall Mall Gazette, publica O Retrato do Sr. W. H., contos como O Príncipe Feliz, e ataca o realismo no ensaio O Declínio da Mentira.
Em 1891 surge O Retrato de Dorian Gray. O romance celebra o esteticismo, critica os seus riscos e aborda pela primeira vez a homossexualidade na literatura inglesa. No mesmo ano publica A Alma do Homem e o Socialismo.
Em 1892, edita O Leque de Lady Windermere, o seu primeiro êxito teatral. Regressa a Paris, onde conhece Mallarmé, Schwob, e tem longas conversas com André Gide.
Mas Uma Mulher sem Importância faz que até alguns dos mais renitentes lhe reconheçam o talento. E é então, no auge da sua glória, que conhece Lord Alfred Douglas, Bosie para os íntimos, vinte anos mais novo do que ele, de gostos vulgares, caprichoso e manipulador. Em apenas dois anos, Wilde é levado à falência com presentes caros, jantares requintados e viagens.
É o começo do fim. Embora escreva ainda Um Marido Ideal, Uma Tragédia Florentina e A Importância de Ser Earnest, a vida criativa de Wilde começa a estiolar-se.
O autor de O Declínio da Mentira vai deixar-se instrumentalizar pelo seu amante no conflito que o opõe ao pai, John Sholto Douglas, marquês de Queensberry.
Em 1895, por instigação de Alfred, Wilde toma a iniciativa de um processo judicial contra Sholto. Ganha o primeiro processo, de que sai, no entanto, relacionado com «atos de grave indecência». O desfecho de um terceiro julgamento é a sua condenação a dois anos de trabalhos forçados.
É na prisão que escreve De Profundis.
Libertado, abandona imediatamente Inglaterra, adota o nome de Sebastian Melmoth e instala-se num modesto hotel de Paris.
Wilde morreu em novembro de 1900, após dois meses de doença. Diz-se que, tal como Tchékhov, de quem quase tudo o separava, pediu champanhe pouco antes de expirar, comentando: «Estou a morrer acima das minhas possibilidades.»

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Considerada a obra-prima de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray é, na verdade, o seu único romance. Através do olhar hedonista do protagonista, Dorian Gray, o autor irlandês teceu uma brilhante crítica à sociedade da sua época que ainda hoje encontra reflexos naquela que o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han cunhou como "sociedade paliativa" - uma sociedade movida pelas aparências e anestesiada pelo poder do "like". Odiado por uns e amado por outros, tornou-se, desde a sua publicação, em 1890, um verdadeiro clássico da literatura, tendo sido adaptado inúmeras vezes a diversas formas de arte.

Recentemente, a sua edição não censurada, publicada pela editora Relógio d'Água em novembro de 2020, foi escolhida pelos livreiros Bertrand como Melhor Reedição de Obras Essenciais em prosa, na 5ª edição do Prémio Livro do Ano Bertrand. Na mesma categoria, os leitores Bertrand escolheram Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, numa edição igualmente publicada pela Relógio d'Água. Para Francisco Vale, representante da editora, foi um prazer ver três obras da sua casa (para além das duas já mencionadas, também As Flores do Mal conquistou o prémio de Melhor reedição de poesia) serem reconhecidas por este que é o primeiro prémio literário atribuído por leitores e livreiros; tanto porque, nas suas palavras, "se trata de uma escolha feita por um elevado número de leitores da mais antiga livraria do mundo".

Para que fique a conhecer melhor esta obra incontornável da literatura mundial, quer já a tenha lido ou não, partilhamos consigo sete curiosidades sobre O Retrato de Dorian Gray.


"Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos.— Oscar Wilde

 

1. A CENSURA E A AUTO-CENSURA

É possível que a versão de O Retrato de Dorian Gray que conhece não seja a que Oscar Wilde escreveu originalmente. Tendo sido publicado pela primeira vez na revista Lippincott's Monthly Magazine, o texto foi, desde logo, censurado pelo editor desta publicação, sem o conhecimento (ou permissão) de Wilde. Por receio de ofender as suscetibilidades dos seus leitores, com conteúdo de teor homossexual, algo que considerava ofensivo e indecente, eliminou cerca de 500 palavras do manuscrito original, alterando e encurtando o romance significativamente.

Posteriormente, embora Wilde acreditasse que não existe tal coisa como um livro imoral, foi o próprio autor que editou a primeira publicação do seu romance em livro que, apesar de ter ficado mais longo, viu também atenuado muito do conteúdo sexual que havia sido criticado e censurado na edição anterior. A edição da Relógio d'Água, eleita pelos livreiros Bertrand como Melhor Reedição de Obras Essenciais em prosa, recupera o texto original, tal como Oscar Wilde o enviou para a revista de J. M. Stoddart em março-abril de 1890.

 

A primeira edição de O Retrato de Dorian Gray, publicada na Lippincott's Monthly Magazine.

 

2. O JULGAMENTO E A PRISÃO

Na altura em que Oscar Wilde publicou a sua obra, eram comuns em Inglaterra os processos judiciais por obscenidade. Devido ao conteúdo sexual de O Retrato de Dorian Gray, havia quem defendesse que o escritor deveria ser julgado; tendo a atenção negativa à volta do mesmo sido tão grande que muitas pessoas deixaram de falar com Wilde e a sua esposa. No entanto, foi pela orientação sexual, que sempre tentou esconder, que acabou por ir a julgamento e, consequentemente, preso, numa altura em que a homossexualidade era um crime punido por lei.

Depois da sua condenação, a sua obra deixou de ser impressa em Inglaterra durante 20 anos. Por sua vez, Wilde cumpriu dois anos de prisão, tendo passado os restantes três anos da sua vida em exílio. 

 

Ilustração do julgamento de Oscar Wilde, 1895.

 

3. O ROMANCE COM UM LEITOR

Um dos atos pelos quais Oscar Wilde foi condenado foi pelo romance que manteve com um dos seus mais devotos leitores. O sobrinho de Lionel Johnson, poeta e amigo íntimo de Wilde, tornou-se tão absorvido pela leitura de O Retrato de Dorian Gray, que lhe fora emprestado pelo tio, que o leu catorze vezes até, finalmente ser apresentado ao seu autor. Deslumbrado pela  beleza do jovem de vinte anos, Wilde (dezasseis anos mais velho) ofereceu-se para o ajudar com os exames da universidade, o que acabou por levar à origem do seu romance e consequente escândalo sexual que resultou na sua prisão.

 

Oscar Wilde com Lord Alfred Douglas, o jovem sobrinho de Lionel Johnson.

 

 

4. UM LIVRO DENTRO DE UM LIVRO

No romance, o protagonista Dorian Gray lê um livro francês, do qual não é revelado o título, e que, segundo o narrador, o corrompe e conduz a uma vida de pecado e hedonismo. No seu julgamento, Wilde revelou, finalmente, que este livro foi largamente inspirado na obra de Joris-Karl Huysmans, intitulada À Rebours. Este romance, pautado pelos mesmos temas de decadência, hedonismo, esteticismo e prazer homossexual, que Wilde explora em O Retrato de Dorian Gray, era, para o escritor irlandês, uma das melhores obras literárias que leu na sua vida.

 

Edição inglesa de À rebours, de 1926, em cujo frontispício se pode ler: "O livro que Dorian Gray amava e que inspirou Oscar Wilde".

 

5. UMA OBRA AUTO-REFLEXIVA

Numa carta que escreveu, Oscar Wilde confessou que as três personagens principais de O Retrato de Dorian Gray são reflexões de si mesmo. Escreveu o autor: "Basil Hallward representa aquilo que eu penso que sou; Lord Henry representa o que o mundo pensa de mim; e Dorian é aquilo que eu gostaria de ser - noutra época, talvez."

 

6. UM DISTÚRBIO LITERÁRIO

O Retrato de Dorian Gray alcançou uma popularidade tal que, em 2001, um distúrbio mental foi designado a partir do nome da sua personagem principal. A Síndrome de Dorian Gray é, desde então, o termo médico utilizado para uma perturbação mental marcada por uma preocupação excessiva com a aparência física e a juventude eterna.

 

7. O DUELO ATÉ À MORTE COM UM PAPEL DE PAREDE

Um traço bem conhecido da personalidade de Oscar Wilde era o seu sentido de humor. Depois de ter ido viver para França, em exílio, nos últimos três anos de vida que lhe restaram após a estadia na prisão, adoeceu gravemente com meningite. No hotel onde se encontrava, em Paris, alega-se que pronunciou as seguintes últimas palavras: "Eu e este papel de parede estamos num duelo até à morte. Ou ele morre ou morro eu." Acabou por morrer nesse mesmo dia, 30 de novembro de 1900, antes de ver o papel de parede removido. Contudo, cem anos depois da sua morte, o hotel concretizou o seu desejo, tendo substituído o infame papel de parede - tarefa levada a cabo por Aubrey Beardsley, ilustrador, escritor e amigo de Wilde.

 

"Toda a arte é completamente inútil.— Oscar Wilde

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