O spleen baudelairiano, um mal do século XXI?

Por: Beatriz Sertório a 2021-07-27 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire

Baudelaire nasceu em Paris a 9 de abril de 1821, filho de François Baudelaire e da jovem Caroline. Após a morte do marido em 1827, esta desposou o comandante Aupick, mais tarde general e embaixador francês em Espanha, com quem Baudelaire cedo se incompatibilizaria. Ao atingir a maioridade reivindica a herança paterna, que irá desbaratar, consome ópio e haxixe (experiência que está na origem de Os Paraísos Artificiais, de 1860) e relaciona-se com a atriz Jeanne Duval. Conhecido principalmente pela sua poesia, Baudelaire também fez crítica literária e artística, ensaio, novelas e traduções, das quais se destaca uma parte substancial da obra de Edgar Alan Poe. Ficaram para as posteridade os seus livros O Pintor da Vida Moderna (1863), a obra póstuma O Spleen de Paris (1869) ou As Flores do Mal (1857), obra-prima da poesia moderna que escandalizou a sociedade francesa da época e condenou o autor ao banco dos réus. Com uma saúde já fragilizada pela sífilis, Baudelaire ficará paralisado após uma queda na igreja de St. Loup, acabando por morrer anos mais tarde, a 31 de agosto de 1867.

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Spleen, énui, ou, nas palavras de Fernando Pessoa, um "supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo ..." Todas estas expressões foram utilizadas por poetas do século XIX para expressar, mais do que uma angústia individual, o que sentiam ser o verdadeiro "mal do século" ("mal du siècle", como também ficou conhecido). Diagnosticado em primeiro lugar por escritores românticos como René de Chateaubriand e Alfred de Musset, foi adotado como estandarte da poesia decadentista e dos chamados poetas malditos, reagindo a um tempo que consideravam "doente" (o surgimento do jornal Le Décadent, a filosofia de Schopenhaeur e Nietzsche, ou a música de Wagner são outros exemplos de expressão deste "mal-estar"). Mais do que tédio, este conceito ilustra uma sensação de desencantamento perante a vida e os movimentos artísticos que tinham vigorado até então - um sentimento avassalador de déjà vu (já visto), déjà vécu (já vivido), que se traduz na figura do "poeta errante", que vagueia pela cidade, sendo arrancado desse torpor apenas pelos breves instantes em que a Beleza transcende as fissuras da realidade. 

Dois séculos mais tarde, a pandemia de covid-19 veio inaugurar um novo mal do século - o chamado "cansaço pandémico", isto é, a fadiga associada ao confinamento e o desgaste psicológico consequente. Mas quão longe estará este cansaço daquele que Charles Baudelaire manifestou da seguinte forma: "o que eu sinto é um imenso desânimo, uma sensação de isolamento insuportável,/ o medo permanente de uma vaga infelicidade, uma total falta de confiança nas minhas forças, uma absoluta ausência de desejo,/ uma incapacidade de encontrar qualquer divertimento que seja" (carta escrita por Baudelaire à sua mãe a 30 de dezembro de 1859)?


As Flores do Mal, retrato de um século

Talvez seja pelas parecenças existentes entre o sentimento ilustrado na poesia de Baudelaire e o que se tem vivido nos últimos tempos (seja pela pandemia ou pelas crescentes preocupações com as alterações climáticas e a ameaça da extrema-direita no Ocidente), que a obra poética do autor continua a cativar novos leitores. Da herança que nos deixou, o maior expoente é As Flores do Malpublicado em 1857, perante o ultraje da imprensa francesa. Os poemas sobre decadência, amor, erotismo e morte contidos neste livro valeram ao autor não só a censura do popular jornal Le Figaro, que o considerou um verdadeiro insulto aos bons costumes, mas também uma multa (inicialmente, de 300 francos e depois reduzida a 50) e a supressão de seis poemas, condição obrigatória para que a obra pudesse voltar a ser publicada.

Dividido em seis grupos de poemas, ao qual foi, posteriormente, acrescentado um (Tédio e Ideal, Quadros Parisienses, O Vinho, As Flores do Mal, Revolta e A Morte), teve uma enorme influência em autores como Paul VerlaineArthur Rimbaud, e Stéphane Mallarmé, os chamados poetas malditos.

 

Primeira edição de "Les fleurs du mal" com anotações do autor.

 

Sobre este, escreveu o autor: "Neste livro atroz, pus todo o meu pensamento, todo o meu coração, toda a minha religião (travestida), todo o meu ódio." Para Paul Valéry, que escreveu um prefácio à obra, o que a define é "uma combinação de carne e de espírito, uma mistura de solenidade, de calor e de amargura, de eternidade e de intimidade", e "uma raríssima aliança da vontade com a harmonia". É, até hoje, considerado um verdadeiro marco da poesia simbolista, e apontado por alguns críticos como uma das obras fundadoras da poesia dita moderna.
 

"Mas de entre os chacais, as panteras e as hienas,
Macacos, escorpiões, abutres, serpentes,
Monstros que ganem, uivam, grunham e rastejam,
No bestiário infame dos nossos vícios,

Um há, de todos o mais feio, mau e imundo!
Mesmo que não esbraceje nem solte gritos,
Sem esforço desfaria a terra em fanicos
E num bocejo engoliria inteiro o mundo;

É o Tédio! - Dado ao choro involuntário,
Ergue patíbulos no fumo do cachimbo.
Conheces, leitor, esse monstro delicado,
— Hipócrita leitor —, meu igual —, meu irmão!"

Ao leitor, in As Flores do Mal

 

A escolha dos livreiros

Recentemente, a edição de As Flores do Mal publicada pela Relógio d'Água (com tradução de João Moita e prefácio de Paul Valéry) foi eleita pelos livreiros Bertrand como Melhor reedição de poesia, categoria inaugurada na 5ª edição do Prémio Livro do Ano Bertrand, o primeiro prémio literário atribuído por leitores e livreiros. Para Francisco Vale, editor da Relógio d'Água, foi um prazer ver atribuído este reconhecimento, tanto a Flores do Mal, como à mais recente edição de Mulherzinhas, que foi a escolha dos leitores Bertrand como Melhor reedição de prosa, tanto porque, nas suas palavras, "se trata de uma escolha feita por um elevado número de leitores da mais antiga livraria do mundo".

Em segundo lugar nas escolhas dos livreiros, nesta mesma categoria, ficou Eneida (Bertrand Editora), o poema épico da autoria de Vergílio e, em terceiro lugar, Apresentação do Rosto (Porto Editora), de Herberto Helder, livro apreendido pela PIDE no momento da sua publicação e só agora reeditado. 

Quer a natureza desta escolha se tenha prendido com uma sensação de ressonância da obra baudelairiana com os tempos modernos ou não, como James Baldwin acreditamos que, através dos livros, podemos compreender que "as coisas que mais nos atormentam, são as mesmas que nos fazem sentir ligados a todas as pessoas que já viveram"; e que o mal que se julgava exclusivo de um tempo passado pode encontrar paralelos em muitas gerações seguintes.“Pensamos que a nossa dor e o nosso desgosto não conhecem precedentes na História do mundo, mas depois lemos.”

 

"Melancolia", de Edgar Degas (c. 1874).

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