O primeiro volume da tetralogia napolitana de Elena Ferrante, publicado em 2011, tornou-se tão popular que deu início a um fenómeno chamado “Febre Ferrante”. Treze anos depois, o New York Times escolheu-o como o melhor livro do século XXI. Afinal, o que torna este livro tão especial?
Quem é Elena Ferrante?
Foi a pergunta que deu início a todo o burburinho em volta de A Amiga Genial. Embora o nome de Elena Ferrante tenha dado a volta ao mundo, trata-se de um pseudónimo literário, assumido pela vontade de direcionar o foco da crítica e dos leitores para a escrita em vez do autor. Enquanto alguns respeitaram essa decisão, outros, como o jornalista Claudio Gatti, deram início a uma investigação que haveria de apontar para dois nomes: a tradutora Anita Raja e o escritor Domenico Starnone, seu marido.
Embora nunca tenha sido oficialmente confirmada, a possibilidade de a verdadeira identidade de Ferrante pertencer a Anita Raja parece ser a mais aceite; no entanto, se isso satisfez a curiosidade de alguns leitores, também indignou outros tantos que defendem o direito da autora ao anonimato. Nicola Lagiola, vencedor do Prémio Strega em 2015, e autor de uma das poucas entrevistas por e-mail concedidas pela autora de A Amiga Genial foi um dos que defendeu esta posição: “Um escritor tem o direito de dizer coisas que não são verdade, não é um político. Italo Calvino contava uma mentira sobre sua vida em cada entrevista que concedia, porque se divertia. A literatura é ficção.”
Uma ode à amizade feminina
Com a quantidade de sagas populares de livros passadas em universos fantásticos, chega a ser surpreendente que a tetralogia aclamada como uma das melhores deste século seja, afinal, a história de uma amizade. A Amiga Genial (2011), História do Novo Nome (2012), História de Quem Vai e de Quem Fica (2013) e História da Menina Perdida (2014), que ficaram conhecidos como os Romances Napolitanos, acompanham as vidas de Elena Greco, a menina pacata e estudiosa a quem chamam de Lenù ou Lenuccia, e de Raffaella Cerullo, a sua amiga bravia e de uma inteligência feroz, também conhecida como Lina ou Lila.
Passado na década de 1950 num bairro pobre da perigosa cidade de Nápoles, A Amiga Genial foca-se nos primeiros anos — infância e adolescência — da vida destas duas personagens. Narrado por Elena já adulta, depois de saber que a sua amiga de há quase 60 anos está desaparecida, o seu relato resgata do esquecimento as memórias partilhadas de uma vida marcada por obstáculos, intriga e violência. Apesar dos altos e baixos, das diferenças que as separam e dos percursos nem sempre lineares (por vezes, até opostos) de ambas, persiste o laço que as une — a amizade complexa e, ao mesmo tempo, bonita — e que, contra todas as adversidades, resiste à passagem do tempo.
“Por ela faria qualquer coisa, naquela manhã de reaproximação: fugir de casa, abandonar o bairro, dormir em estábulos, alimentar-me de raízes, descer aos esgotos através das sarjetas, nunca mais voltar para casa, mesmo se fizesse frio, mesmo se chovesse.”
Os 100 melhores livros do século XXI
No passado dia 16 de julho, o jornal New York Times anunciou uma lista de 100 melhores livros do século XXI, na qual elegeram A Amiga Genial como o melhor livro deste século. O júri composto por 503 romancistas, escritores de não ficção, poetas, críticos e outros amantes de livros descreve o romance de Ferrante como intransigente, inesquecível e corajoso — “um dos mais importantes exemplos da chamada autoficção”. A este, seguem-se The Warmth of Other Suns de Isabel Wilkerson (ainda sem edição em Portugal), no segundo lugar do ranking, e Wolf Hall, de Hilary Mantel, no terceiro.
Depois de convidarem os leitores a votarem nos seus livros favoritos do século, o NY Times partilhou ainda uma segunda lista de 100 melhores livros do século XXI com as suas escolhas. Embora ambas as listas partilhem 39 livros, o top 3 desta é composto, por sua vez, por Demon Copperhead, de Barbara Kingsolver, Toda a Luz que Não Podemos Ver, de Anthony Doerr, e Um Gentleman em Moscovo, de Amor Towles, por ordem decrescente. Apesar disso, A Amiga Genial mantém-se no top 10, ocupando a 8ª posição do ranking e confirmando mais uma vez o seu mérito como um dos mais importantes fenómenos literários do século XXI.
E para si? Qual é o melhor livro do século XXI? Diga-nos nos comentários!