Retrato Huaco, de Gabriela Wiener – não ser de lugar nenhum

Por: Marta Martins Silva a 2025-04-04

Gabriela Wiener

Gabriela Wiener

Gabriela Wiener (Lima, 1975) é uma jornalista e escritora peruana residente em Madrid. Ativista irreverente e provocadora, escreve regularmente para a imprensa espanhola, e distingue-se pela sua «abordagem kamikaze à escrita», derrubando fronteiras, quebrando tabus e falando abertamente sobre a sua intimidade. Ganhou um prémio nacional de jornalismo no Peru pelo seu trabalho de investigação sobre a violência contra as mulheres. Em Espanha, faz parte da Sudakasa, uma comunidade de artistas migrantes da América Latina. Escreveu Nueve lunas (2009), Retrato Huaco (2021), finalista do Booker Prize e publicado na Antígona, e o romance Atusparia (2024), vencedor do Prémio Ciutat de Barcelona.

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Retrato Huaco (Antígona, 2024) situa Gabriela Wiener, uma jornalista e escritora peruana residente em Madrid, no Museu do Quai Branly, em Paris, frente a peças arqueológicas trazidas do Peru pelo tetravô, Charles Wiener, um explorador austríaco que se tornou francês, e nas quais a protagonista desta autoficção se reconhece. Neste "sofrido artesanato do eu" começa a ser tecida uma história "sem ficção aparente" que, ao longo de 162 páginas, leva o leitor a uma viagem à identidade da autora, às peças de um puzzle que nem sempre encaixam. "O meu rosto é muito parecido ao de um retrato huaco. (...) Um huaco pode ser qualquer peça de cerâmica pré-hispânica feita à mão, de formas e estilos diversos, pintada com delicadeza. Pode ser um elemento decorativo, parte de um ritual ou uma oferenda num túmulo (...) A imagem de um rosto indígena é tão realista que, para muitos, olhar para eles equivale a observar um espelho partido há séculos".

Enquanto olha para estas peças de cerâmica que, dizia-se, representavam os rostos indígenas ao mesmo tempo que capturavam as suas almas, Gabriela Wiener (Lima, 1975) também se olha ao espelho, ficando cativa de uma herança familiar que deixou um rasto de violência e pilhagem colonial ao longo dos séculos. Embrenhada nesta narrativa, a autora navega pela história colonial da América do Sul, mas também pela sua própria história pessoal, numa odisseia a que juntam questões de identidade que vão além da terra onde se nasce. Numa linguagem muito própria a que já habituara os leitores em Sexografías (2008) e Nueve lunas (2009), Gabriela Wiener também "descolonializa" a sexualidade, o amor e o conceito tradicional de família numa arena em que surge como colonizador e colonizado em simultâneo, filha legítima e filha bastarda de todas as curvas da sua história, numa necessidade de posicionamento constante entre o dever e o haver, como quem vive entre dois mundos e em nenhum deles se encontra inteira.

"Todos temos um pai branco. Quero dizer, Deus é branco. Ou assim nos fizeram crer. O colono é branco. A história é branca e masculina. A minha avó, mãe da minha mãe, chamava ao meu pai, ao marido da sua filha, ‘don’, porque ela não era branca, mas, sim, chola. Para mim, era estranhíssimo ouvir a minha avozinha tratar o meu pai com esse excessivo e imerecido respeito. Na época em que os miúdos da escola me gritavam a palavra negra como insulto, encontrava refúgio dando-lhe a mão, para que todas as pessoas soubessem que aquele senhor só um pouco branco era meu pai, e isso tornava-me menos negra, menos insultável. Suponho que, agora que morreu, o pouco de branco que há em mim partiu com ele". São dois lutos: a perda do progenitor e da pele branca que morre com ele, como se, daqui para a frente ela já só fosse "chola", o termo depreciativo peruano para designar descendentes de indígenas.
 

Ser migrante é também viver uma vida dupla.
É viver com uma pala no olho. É suspender uma delas para ser funcional na outra.


O luto também terá ajudado a esta viagem mais emocional do que geográfica, talvez porque, com a morte do progenitor, tenha sentido que perdeu uma das faces da moeda que lhe segurava a identidade. "Já em criança eu sabia que vinha de dois mundos muito distintos, o dos Wieners e o dos Bravos, apesar de serem apelidos que, forçando um pouco a ideia, convocavam ambos o triunfo e o aplauso. As duas famílias tinham origens relativamente humildes, mas em Lima é muito diferente ser-se um pobre descendente de ancashinos e ou monsefuanos do que um pobre descendente de europeus". Gabriela sentiu cedo que a pele alva do pai era menos propícia a frustrações e preconceito, ao mesmo tempo que o cruzamento genético entre os progenitores a deixava numa espécie de terra de ninguém. "Durante muito tempo, em criança e adolescente, quis sentir-me mais Wiener do que Bravo, porque já pressentia que isso me traria mais privilégio ou menos sofrimento, mas os meus traços físicos evidentes, a cor castanha que faz de mim índia em Espanha e ‘cor de porta’ no Peru, tornaram-me mais uma Bravo (...) em Lima, ouvira muitas vezes associar a minha cor de pele à cor da bosta".

Por outro lado, os avós paternos "eram tão brancos que eu não me sentia confortável com eles", e é fácil imaginar a dificuldade que sentiu em se posicionar, em escolher um lado, mesmo sem ter de o fazer. E como ser uma ‘chola’ a persegue até na idade adulta, quando a avó da namorada, espanhola e branca, lhe pergunta quantas casas limpa, imaginando-a empregada doméstica, para confrangimento de todos. Ou quando ela própria precisa que a lembrem de que a branquitude não é representante universal da beleza, envolvendo-se com uma mulher negra.

Em todas as situações, Gabriela faz da escrita catarse contra o eterno preconceito e a transparência com que, aparentemente, pelo menos, o consegue, transporta o leitor para o seu lado, porque facilmente calça os sapatos que a autora põe à disposição, quando nos serve de bandeja os seus fantasmas.

"Ser migrante é também viver uma vida dupla. É viver com uma pala no olho. É suspender uma delas para ser funcional na outra. Superar o luto, é isso que tenho de fazer, meter-me num avião e sair do luto. Para enfrentar outro luto e acorrentar esta dor ao desnorte". Ou: "Oiço um político espanhol dizer que o melhor que pode acontecer a um emigrante da América do Sul é a sua filha casar-se com um espanhol". Gabriela, a índia que veio estudar para a Europa e não aprendeu nada questiona-se permanentemente: "O que é uma cara peruana? O rosto das mulheres que encontramos no metro. O rosto que aparece na National Geographic. A cara de María [a indígena] que Charles [o explorador] viu".

E, ao mesmo tempo que rejeita o tetravô explorador, Gabriela também o aceita e humaniza, até porque se revê em camadas que partilham: "A irritação perante as passagens coloniais, racistas e cruéis dos livros de Wiener sobre a minha própria cultura dá lugar a uma súbita empatia pela sua postura involuntariamente antiacadémica e egomaníaca. Há algum tempo que tento demarcar-me, desligar-me da sua herança, que está além do sangue, e acontece que o meu laço mais forte, e talvez o único, seja este. Como se de repente compreendesse os meus traumas, as minhas animosidades, percorro as suas páginas como um labirinto de espelhos em Versalhes. Revela-se assim entre nós uma ponte até agora invisível, que atravessa a história, o que somos e não fomos um para o outro, o que não nos atrevemos a ser, algo a que chamamos impostura." Comovente é sempre a busca, mesmo que dolorosa: "de ter sido, de continuar a ser, de chegar sem chegar, de ficar a meio caminho, de ter medo, de não poder, de não querer, de ser perseguida mesmo quando não fiz nada, de deixar muitas vidas para trás, de perder tudo, de começar de novo, do zero, de baixo, das filas, da lei (...) reproduzi-me como uma flor de cacto/ neste território alheio que vou tornando meu (...) nunca deixamos de procurar o que fomos/para começar a ser o que sonhamos".

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