Um amigo a tinta da china

Por: João Morales a 2024-12-05

10%

Jim
20,90€ 18,81€
PORTES GRÁTIS

10%

A Teoria do Grão de Areia
19,90€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

Quando o cão do desenhador François Shuiten chegou ao fim da vida, este soube imediatamente que só havia uma forma de perpetuá-lo, homenageá-lo, mantê-lo próximo de si. E assim, Jim tornou-se num tocante álbum, onde grande parte das (possíveis) palavras são substituídas por imagens, gerando emoção incondicional.

Um livro que é, simultaneamente, uma homenagem, uma declaração de amor disposta a ultrapassar as fronteiras da morte, mas também uma catarse que permita ao seu autor prosseguir, cristalizando as boas memórias e encontrando nelas o alimento espiritual tão necessário no momento da perda. Jim, de François Shuiten, publicado pelas Edições Asa, com tradução de Maria Rita Furtado, é muito mais do que possa parecer. O título evoca o cão de Shuiten e a forma poética e comovente como se desenvolve esta homenagem — que tem tanto de artístico como de humanista — espelha de forma inequívoca, não só a relação entre este animal e o humano que o acolheu, como a possibilidade de partilhar afetos, memórias, consequência da vida, entre seres de diferentes espécies. Seres vivos, entenda-se.
 
“No dia 24 de janeiro de 2023, por volta das onze horas, o Jim partiu serenamente. Ao ser confrontado com o seu desaparecimento, nas horas que se seguiram, tive apenas um desejo: desenhá-lo… talvez para o manter por perto durante mais um bocadinho”, confessa François Schuiten, logo a abrir esta obra, tão tocante e original como demonstrativa do enorme talento a que o grande desenhador belga há muito nos habituou. 

Se o nome lhe parece familiar, não se admire, este autor (n. 1956) é o responsável pela série As Cidades Obscuras, incontornável conjunto de álbuns de banda desenhada, cujo primeiro volume, As Muralhas de Samaris, data de 1983, sempre com os argumentos do francês Benoît Peeters, e na qual pontuam títulos emblemáticos, como O Arquivista, A Menina Inclinada ou A Teoria do Grão de Areia

Contudo, este é um livro muito diferente da série que trouxe a consagração ao seu autor. Trata-se de um volume intimista, explorando uma dimensão necessária e pessoal, psicanalítica, até, e que nos faz, forçosamente, refletir sobre a forma como a relação que estabelecemos com os nossos animais de estimação não cria apenas hábitos e contribui para a construção de memórias do quotidiano, mas, antes, intervém na construção da nossa própria personalidade, por via de mecanismos sensoriais, afetivos e indutores da memória.

O fio condutor que alimenta as frases, reflexo das recordações do autor, é um périplo pelas atividades desenvolvidas em conjunto, associando esses momentos ao bem-estar mútuo que eles acarreta hoje, a única herança possível palpável que o fiel companheiro de quatro patas deixou.

A dimensão metafórica assumida pelos desenhos é um dos trunfos deste trabalho. Na troca de escala entre o cão e o seu dono, um mecanismo diversas vezes explorado pelo desenho de Shuiten, dá-se uma inversão hierárquica, surgindo Jim como figura tutelar, com tamanho suficiente para colher, proteger e mimar o seu dono.

Veja-se a imagem da página 21. Na anterior, lemos: “Desaparecem mil e um prazeres. Resta apenas a fria camurça do sofá”. A sequência de três imagens, ao estilo de uma tira de comics (mas na vertical) evoca a fantasmagoria que agora é a única presença de Jim na vida do seu parceiro de aventuras, desvanecendo perante a realidade, evocando o que acontece quando alguém é forçado a amputar um membro, no entanto, as dores permanecem, no local onde antes este existia, a tão afamada dor-fantasma. 

A afinidade natural que Jim desenvolveu no convívio com os seres humanos é realçada pelo seu mais fiel parceiro de brincadeiras, chegando mesmo a formular a pergunta — retórica, mas poética — “… aliás, será que ele sabia quer era um cão?”

A mestria de Shuiten está bem patente nestes desenhos, “feitos a pincel e tinta permanente, com a tinta das minhas lágrimas”, como nos confessa, logo na abertura do livro. Memórias, lamentos, reflexões, explorando texturas, fundos, desenvolvendo uma homogeneidade em cada imagem que transcende a realidade e sublinha a especificidade dos métodos utilizados (num registo que, para quem conheça a sua obra, evoca imediatamente um livro já referido, A Teoria do Grão de Areia). 

O livro conta com um conjunto de desenhos oferecidos por amigos de François Shuiten, praticantes da mesma arte: Daria Schmitt, Alain Goffin, Étienne Schréder, Laurent Durieux, Philippe Geluck (com um toque de humor acutilante), Benoît Sokal e Thomas Gunzig (num hiper-realismo quase fotográfico), encerrando com um adorável texto de Audrey Jougla, filósofa.

“O desenho não é, como pode julgar-se, simplesmente um conjunto de linhas ou traços, um gráfico representando qualquer coisa existente. O desenho é o nosso entendimento a fixar o instante”, escreveu José de Almada Negreiros, num texto singelamente intitulado “O Desenho” (incluído no volume de ensaios das suas Obras Completas), acrescentando mais à frente: “ao contrário do trabalho, da construção que exige tempo, composição e volume, o nosso entendimento é rápido, claro e simples. A perfeição do entendimento é momentânea e, por consequência, há que fixá-la. Por isso o desenho é o melhor amigo do entendimento”. É essa comunhão que estes desenhos nos transmitem, como se todos fizéssemos parte desta narrativa. E, na verdade, muitos de nós, fazem.

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?

O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.