E se, numa consulta, em vez de um medicamento, lhe receitassem um gato? É isso que acontece na nada convencional Clínica da Alma Nakagyo Kokoro, em Quioto. Os pacientes desconfiam da terapia, mas a verdade é que os felinos resolvem os problemas de saúde mental narrados, e com a vantagem de não ser preciso muito tempo de tratamento. Com muito humor à mistura, a escritora japonesa Syou Ishida conquistou os leitores com cinco histórias deliciosas que realçam a relação entre felinos e humanos...
“Um gato por dia não sabe o bem que lhe fazia”, diz o pouco tradicional médico da Clínica da Alma Nakagyo Kokoro a Shuta Kawaga. O jovem de 25 anos, que foi à procura de ajuda médica para deixar o seu emprego numa corretora que enxovalhava os empregados, ficou atónito, quando a mal-humorada enfermeira lhe passou a caixa transportadora com a gata Bê lá dentro, até porque já tinha ido a outras clínicas psiquiátricas e nada de semelhante lhe tinha acontecido. Além do animal, a receita contempla a comida, os objetos de que vai precisar e um folheto de instrução para lidar com a gatinha cinzenta. “Nome: Bê. Fêmea. Idade estimada de 8 anos. Europeu comum. Alimentar com quantidades moderadas de comida para gato de manhã e à noite. A taça de água deve estar sempre cheia. Limpar a areia sempre que necessário. Por norma, independente e pode ser deixada sozinha. Peças pequenas passíveis de serem engolidas e quebradas, como pratos e chávenas, devem ser guardadas num armário. Mantenha-se atento às plantas envasadas. Não deixe a gata sair de casa. É tudo.” Instruções preciosas para quem confessa que não tomava conta de um ser vivo desde os coelhinhos da escola primária. Perplexo, não percebe como é que a felina o vai ajudar.
Shuta Kawaga é a primeira personagem a perder-se nas ruas de Quioto para encontrar a clínica de que todos falavam, situada num sítio difícil de encontrar, dentro de um velho edifício. A degradada arquitetura era o primeiro aspeto a causar espanto às personagens assim que lá chegavam, recomendados por um familiar, amigo ou conhecido, sem saberem ainda que a receita passada seria ainda mais insólita.
Além de Bê, que consegue, de forma atribulada, que Shuta Kawaga se demita e encontre um trabalho na construção — bem diferente do anterior, diga-se —, surgem na história Margot, Koyuki, Tangerina (e Tanque) e Mimita que vão, respetivamente, ajudar Yusaku Koga, um homem de meia-idade, a perceber melhor a sua nova e “espalhafatosa” colega de trabalho e a unir a sua família; Aoba, uma criança cuja mãe tem dificuldade em perceber, a viver entre os grupos da escola que não quer ter de escolher, ajuda ainda a própria progenitora a superar o abandono do gatinho da família no passado; Tomoka Takamine, uma designer de acessórios, a ser mais gentil consigo própria; e Abino, uma gueixa, a ultrapassar a perda do seu gato bebé. Todos os gatos vêm com o tal folheto de instruções, sempre diferente para cada um.
Ao longo das páginas de Vamos Receitar-lhe um Gato, as ações dos felinos acabam por ter consequências positivas, mesmo que, por vezes, de forma indireta. A relação paciente–gato é descrita de forma sublime pela autora que também relata detalhadamente as personalidades e as características físicas de cada um dos gatinhos. Brincalhões, ariscos, cativantes, agitados, sossegados ou desafiantes, todos eles são pródigos em tropelias — tal como os verdadeiros —, desde desfazer documentos importantes a não deixarem os "donos-pacientes" dormir, sem esquecer, aqui e ali, alguma destruição dos locais por onde passam. Tudo acontece, mas há sempre um final feliz, podemos garantir-lhe, e, sim, os gatos resolvem os problemas apresentados.
Na vida real, as coisas podem não ser assim tão simples, mas a grande mensagem de Syou Ishida é que há sempre uma solução para os nossos problemas e mostra-nos isso com personagens muito peculiares (e divertidas), mas com problemas bem comuns nos dias que correm na nossa sociedade.
Terapia literária
Vamos Receitar-lhe um Gato inclui-se na corrente literária de origem japonesa e coreana conhecida como healing fiction (ficção curativa, em tradução literal). Estes livros presenteiam os leitores com narrativas simples e com um tom positivo, que convidam à evasão do quotidiano. As personagens encontram sempre soluções para as suas dificuldades e esse facto pretender ajudar os leitores a melhorar também a própria vida.