Um clássico não morre, transforma-se

Por: Beatriz Sertório a 2021-07-19 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

George Orwell

George Orwell

Nascido em junho de 1903, no início de um século marcado por duas guerras mundiais, o estalinismo e o nazismo, George Orwell resume na sua obra os sonhos e pesadelos do mundo ocidental nesse período.
Nasceu Eric Arthur Blair em Motihari, na Índia Britânica. O pai era um funcionário subalterno inglês e a mãe tinha origem francesa.
Após o regresso dos pais a Inglaterra, estudou na escola Henley-on-Thames, onde se distinguiu pela relativa pobreza e pelo brilhantismo intelectual.
Frequentou depois duas importantes escolas inglesas, Wellington e Eton College, onde teve como colegas Cyril Connolly e Anthony Powell. Aldous Huxley foi seu professor. Mais tarde Orwell resumiu essa experiência como "cinco anos num banho tépido de snobismo". Mas foi nessa época que conheceu duas obras que o influenciaram, A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells, e O Tacão de Ferro, de Jack London.
Ao abandonar Eton, decidiu não ir para Oxford e entrar na polícia birmanesa, embarcando para as Índias. Nos cinco anos que se seguiram, descobriu a realidade do imperialismo e recolheu material para Dias Birmaneses e para ensaios tão originais como "Matar Um Elefante" e "Um Enforcamento".
Regressado à Europa, frequentou os bairros pobres de Londres, instalando-se em Paris na Primavera de 1928. Atingido por uma pneumonia, foi internado num hospital, cujas condições terríveis inspiraram o ensaio "Como Morrem os Pobres". A convivência com os pobres e os vagabundos forneceu-lhe material para Na Penúria em Paris e em Londres, que publicou em 1933 com o pseudónimo George Orwell.
Em 1936, o Left Book Club propôs-lhe escrever um livro sobre as condições dos operários no Norte do país. Partilhou a vida dos mineiros e confirmou as suas convicções socialistas. Escreveu numerosos artigos numa abordagem que considerava "semi-sociológica", casou com Eileen O'Shaughnessy e correspondeu-se com Henry Miller, que apreciava a sua obra e ironizava com o seu idealismo. Em 1937, decidiu combater em Espanha ao lado dos republicanos, mas, em vez de se juntar às Brigadas Internacionais, ingressou na milícia do POUM, um grupo marxista heterodoxo, lutando na frente de Aragão. Foi ferido, assistindo na convalescência à eliminação pelo Partido Comunista, apoiado pela URSS, das milícias anarquistas e do POUM. Descreveu essa experiência em Homenagem à Catalunha (1938), que lhe valeu inúmeras calúnias.
Em 1939, começou por se opor à participação da Grã-Bretanha na guerra, mas depressa se voltou contra os pacifistas, acusando-os de fazerem o jogo de Hitler. A partir de 1940, fez crítica teatral e de cinema, colaborou na Partisan Review e escreveu notáveis ensaios literários sobre Dickens, Tolstoi e Shakespeare. Em 1942-43, trabalhou para o serviço indiano da BBC, uma experiência que acabaria por o dececionar.
Em 1945, publicou Rebelião na Quinta, que, com Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, seria um libelo contra o totalitarismo estalinista que ameaçava a Europa. Em junho de 1944, o seu apartamento foi destruído nos bombardeamentos de Londres.
Em 1945, após a derrota de Hitler, foi correspondente do Observer em França e na Alemanha. Foi nesse período que a sua mulher faleceu durante uma operação. Em 1948, terminou Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, escrito ao longo de vinte e sete meses, marcados por internamentos em sanatórios por causa da tuberculose.
Em outubro de 1949, casou com Sonia Brownell. Morreu no ano seguinte. Tinha 46 anos.

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Quando George Orwell escreveu o seu popular romance distópico sobre o então longínquo ano de 1984, estava longe de imaginar que em 2021 os seus leitores continuassem a conseguir identificar ecos deste clássico na atualidade. Ou será que estava? Afinal, em 1984, o autor britânico escreveu que qualquer um que quisesse ter um vislumbre do futuro, só teria que imaginar uma bota a esmagar um rosto humano, para a eternidade... Seja profecia ou a História a repetir-se, as inúmeras reedições deste clássicosetenta anos após a morte de Orwell, provam que Winston, Julia e o Grande Irmão estão vivos e de boa saúde. Entre as recentes reedições, há uma que conquistou um lugar especial no coração dos leitores Bertrand. 


Com mais de 76 mil votações, a 5.ª edição do primeiro prémio literário atribuído por leitores e livreiros, o Prémio Livro do Ano Bertrand, elegeu os melhores livros de 2020, em cada uma das cinco categorias: Melhor livro de ficção lusófona, Melhor livro de ficção de autores estrangeiros, Melhor reedição de obras essenciais em prosa, Melhor livro de poesia e Melhor reedição de poesia. Este ano, pela primeira vez, as votações de livreiros e leitores Bertrand foram autonomizadas, pelo que foram aferidos, nas cinco categorias, os preferidos dos livreiros e os preferidos dos leitores. O primeiro lugar na categoria de Melhor livro de ficção de autores estrangeiros (seleção dos leitores), foi atribuído à adaptação a novela gráfica de 1984. Mas, afinal, o que torna esta edição especial?

Disse George Orwell que "todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que outros." O mesmo se poderia dizer desta adaptação de Fido Nesti, o ilustrador brasileiro que deu uma nova vida à distopia orwelliana1984 - A novela gráfica é uma oportunidade de reler um clássico canónico de uma forma inteiramente diferente, com ilustrações magistrais que cativam até os leitores menos acostumados a este género literário. Entre as razões pelas quais esta obra continua intemporal, o ilustrador nomeia, numa entrevista, o paralelismo que sentiu existir entre a distopia e a realidade vivida no Brasil durante o período da pandemia: “Foi engatada uma forte marcha à ré e tipos curiosos estão saindo dos porões, gente que não acredita na ciência, nas vacinas, engolem tudo o que o novo governo fala e juram que estão pisando em uma Terra plana”; “Durante o trabalho me vi envolto em pelo menos três distopias: o próprio 1984, a pandemia e o governo brasileiro."

A leitura de 1984, precisamente no ano de 1984, altura em que o Brasil vivia ainda sob um regime ditatorial, teve uma enorme influência no seu trabalho, tendo soado como um alarme que o fez perceber com mais clareza o que se passava à sua volta.

 

Fido Nesti a trabalhar na adaptação gráfica de 1984.

Para além da obra de Orwell, publicou também, no Brasil, Os Lusíadas em Quadrinhos, tendo adaptado o texto de Luís de Camões, e participou numa coletânea intitulada Irmãos Grimm em Quadrinhos, para a qual ilustrou a célebre história infanto-juvenil A Gata Borralheira.

 

Em segundo e terceiro lugar na mesma categoria, ficaram os livros A vida mentirosa dos adultos (Relógio d'Água), de Elena Ferrante, e A Cidade de Vapor (Planeta), de Carlos Ruiz Zafón, respetivamente. O primeiro trata-se do mais recente romance da escritora-mistério que conquistou leitores e críticos com a saga composta por A amiga Genial, História do Novo Nome, História de Quem Vai e de Quem Fica e História da Menina Perdida. O segundo, por sua vez, é uma obra póstuma que reúne, pela primeira vez, 11 contos inéditos de Zafón, numa homenagem simbólica ao escritor que nos deixou o ano passado. 

Em relação ao livro vencedor, afirma Sara Figueiredo Costa, jornalista no Expresso, que "Fido Nesti faz um trabalho exemplar de redução do verbo ao essencial e constrói uma narrativa que mantém o enredo original sem prescindir do gesto de criação." Para nós, cumpre também o mais alto desígnio que pode ser atribuído a uma obra: o de provar que um clássico é, verdadeiramente, "um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer" (Italo Calvino).


Leia aqui um excerto de 1984 - A novela gráfica.

Saiba mais sobre os restantes vencedores do Prémio Livro do Ano Bertrand 2020 aqui.

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