Escrever o desejo: vozes LGBT na literatura portuguesa

Por: Maria João Viegas a 2026-06-03

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Caderno Proibido
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Satânia – Novelas
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Persona
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Arder a Palavra e Outros Incêndios
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Pode Um Desejo Imenso
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A literatura portuguesa tem sido, ao longo do último século, um espaço de tensão entre norma e transgressão, silêncio e afirmação. Em diferentes momentos históricos, a literatura serviu de lugar para desafiar os limites do dizível, através de autores que trouxeram para a escrita experiências afetivas e identitárias que durante muito tempo foram marginalizadas ou reprimidas. 

Neste percurso, a literatura revela-se não apenas como reflexo da sociedade, mas também como força crítica e transformadora, capaz de questionar preconceitos, alargar fronteiras e abrir espaço para novas formas de ver o mundo e de viver o amor. 

Para assinalar o Mês do Orgulho LGBT, destacamos cinco figuras pioneiras da literatura portuguesa.

 

António Botto

Nascido em 1897, na viragem do século XX, António Botto destacou-se como uma das vozes mais singulares e pioneiras da literatura portuguesa. Numa época marcada por fortes convenções morais e sociais, foi um dos primeiros autores portugueses a abordar de forma explícita o amor e o desejo entre homens, retratando-os com sensibilidade, lirismo e humanidade, e não, à maneira da época, como veículo de escárnio ou paródia — e a controvérsia foi inevitável.  

A ordem social da altura não lhe perdoou tal “ousadia”, e o poeta foi alvo de censura, perseguição e intensa marginalização. Em 1923, as suas obras, nomeadamente a coletânea Canções (1922), estiveram no centro do escândalo literário que ficaria conhecido como “Literatura de Sodoma” — desencadeado pela publicação do folheto Sodoma Divinizada, de Raúl Leal, como apologia à escrita de Botto —, no decorrer do qual os seus livros, entre os de outros autores, foram rotulados como “obscenos” e “imorais,” e, com esse pretexto, apreendidos e queimados publicamente. 

Apesar da controvérsia, Botto encontrou também admiradores de peso. Personalidades como Fernando Pessoa defenderam feroz e publicamente o valor da sua obra, reconhecendo a originalidade da sua voz poética e a importância do seu contributo para a literatura portuguesa. 

Mais de um século depois, a sua escrita continua a impressionar pela coragem com que desafia preconceitos e pela forma como celebra o amor e a intimidade. Caderno Proibido, compilado e publicado em janeiro deste ano, traz ao público um conjunto de poemas inéditos de António Botto, escritos durante os seus últimos anos de vida e nunca publicados pelo autor. Mais do que uma descoberta literária, a obra permite aprofundar o conhecimento sobre uma das figuras mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Nestes versos, Botto aborda o desejo, a paixão e o erotismo com uma liberdade notável, revelando novas dimensões da sua escrita e reforçando a atualidade de uma voz que continua a desafiar convenções mais de cem anos depois.

 

Judith Teixeira

Num panorama literário dominado por vozes masculinas, Judith Teixeira destacou-se como uma das autoras mais ousadas e transgressoras da literatura portuguesa do início do século XX. A sua poesia explora temas como o desejo, a sensualidade e a intimidade feminina com uma frontalidade rara para a época, abrindo espaço para representações do amor entre mulheres praticamente ausentes da literatura portuguesa do seu tempo. 

Obras como Decadência (1923) desafiaram as convenções morais vigentes e rapidamente despertaram reações hostis dos setores mais conservadores da sociedade. A imprensa da época depreciou os seus versos como "vergonhas sexuais" e "versalhadas ignóbeis”, com dirigentes políticos do Estado Novo, como Marcello Caetano, chegando a apelidá-la de "desavergonhada". A autora viria a ser também envolvida no episódio da "Literatura de Sodoma", mas, enquanto que Botto e Leal receberam apoio de outras figuras literárias suas contemporâneas, Judith Tiexeira ficou sem defensores, e foi continuamente atacada pela sociedade, impresa e igreja.

Em 1927, publica a coletânea de novelas Satânia e deixa para trás uma lacuna na sua história. Censurada e sufocada pelas convenções da sua época, pouco se sabe sobre os últimos anos da vida da autora até o seu falecimento em 1959. Contudo, apesar das tentativas de silenciamento, a escrita de Judith Teixeira sobreviveu ao tempo. Hoje, é reconhecida como uma figura pioneira da literatura portuguesa, não apenas pela forma como abordou o desejo entre mulheres, mas também pela liberdade estética e temática que trouxe à poesia modernista. 

 

Eduardo Pitta

Figura incontornável da literatura portuguesa contemporânea, Eduardo Pitta construiu ao longo de várias décadas uma obra marcada pela reflexão sobre identidade, memória, desejo e pertença. Poeta, ensaísta, cronista e crítico literário, destacou-se também pelo papel inquestionável que desempenhou na visibilidade da experiência LGBT na literatura portuguesa, contribuindo para ampliar o espaço de representação de vozes e vivências historicamente marginalizadas. 

Em Persona (2019) – amplamente considerada a sua magnum opus - o autor convida o leitor a percorrer um território onde se cruzam a autobiografia, a memória e a observação do mundo. A obra revisita momentos, lugares e encontros que marcaram a sua trajetória pessoal e literária, abordando temas como a construção da identidade, a sexualidade e a relação entre o indivíduo e a sociedade. Fiel ao estilo elegante e incisivo que caracteriza a sua escrita, Eduardo Pitta transforma a experiência pessoal numa reflexão mais ampla sobre a condição humana. 

 

Ana Luísa Amaral 

Ana Luísa Amaral foi uma das vozes mais marcantes da poesia portuguesa contemporânea, distinguindo-se pela forma como aliou uma escrita de grande rigor intelectual a uma profunda sensibilidade poética. Professora universitária, tradutora e investigadora, construiu uma obra amplamente reconhecida no panorama literário nacional e internacional, marcada pela reflexão sobre a linguagem, o tempo, o corpo e a identidade. 

Na sua escrita, o desejo e a identidade surgem frequentemente como espaços de reinvenção, onde a experiência íntima se transforma em pensamento poético. Obras como Minha Senhora de Quê (1990), A Arte de Ser Tigre (2003) e Arder a Palavra e Outros Incêndios (2017) evidenciam a sua capacidade de reinventar a tradição poética e de questionar as formas de representação do feminino, do amor e da identidade. 

Premiada com o Prémio Camões, a obra de Ana Luísa Amaral permanece como um marco essencial da poesia contemporânea, não apenas pela sua qualidade estética, mas também pela forma como contribui para expandir os territórios da representação do feminino e do desejo na literatura. 

 

Frederico Lourenço 

Frederico Lourenço é uma das figuras mais relevantes da cultura portuguesa contemporânea. Escritor, tradutor e académico, tornou-se amplamente reconhecido pelas suas traduções cuidadas dos clássicos gregos e romanos, bem como da Bíblia, pela qual ganhou o Prémio Pessoa. A sua bibliografia, contudo, engloba igualmente obras de marcadas também por uma abertura íntima no que respeita a questões relacionadas com identidade, sexualidade e diferença. 

Especialmente em romances como À Beira do Mundo (2003) e a versão definitiva de Pode um Desejo Imenso, lançada em 2022, o autor explora frequentemente personagens marcadas pela procura de pertença, pelo desejo e pela complexidade das relações humanas. A sua escrita distingue-se pela erudição, sensibilidade psicológica e pela capacidade de estabelecer pontes entre a Antiguidade Clássica e questões profundamente atuais. 

Nestas obras, o mundo interior das personagens entrelaça-se com uma reflexão mais ampla sobre a condição humana, o amor e a diferença, evidenciando como a literatura pode dialogar com a tradição clássica sem deixar de interrogar as experiências individuais do presente. 


Da transgressão pioneira de António Botto e Judith Teixeira, à reflexão contemporânea de Eduardo Pitta, Ana Luísa Amaral e Frederico Lourenço, a literatura portuguesa revela-se como um espaço de expansão contínua das formas de dizer o amor, o desejo e a identidade. Entre censura e afirmação, silêncio e palavra, tradição e reinvenção, estes autores mostram como a literatura não apenas reflete a sociedade, mas também a interroga e a transforma, e desenha-se um percurso literário onde o amor, o corpo e a identidade encontram, finalmente, espaço para existir em toda a sua complexidade. 

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