Neste Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, há ainda quem se debata com a pergunta: Portugal é um país racista? Afinal, de acordo com o European Social Survey (2020), 55% dos portugueses manifesta alguma forma de racismo e 71% dos portugueses apresenta um viés pró-branco, isto é, associam mais sentimentos positivos a pessoas brancas de forma mais automática do que a pessoas negras (Racial bias around the world, Coutts, A., 2020). No entanto, uma sondagem ICS/ISCTE, de 2020, mostra que 52% dos portugueses acredita que, em Portugal, há menos discriminação étnico‑racial do que nos outros países da Europa.
A ideia de que Portugal não é um país racista está profundamente enraizada na nossa cultura, fruto do lusotropicalismo que durante anos propagou a ideia da benignidade da colonização lusa ou, de forma mais eufemística, “do modo português de estar no mundo”. Mas os dados falam por si. Em 2023, o número de crimes de ódio em Portugal aumentou 38%, em comparação com 2022, e em apenas cinco anos a extrema-direita tornou-se a terceira força política no Parlamento. O caminho para a eliminação da discriminação racial é ainda longo e, como sempre, o livro é uma arma fundamental contra a ignorância e o preconceito. Em solidariedade com este dia de luta, partilhamos seis leituras fundamentais para compreender e combater o racismo em Portugal.
O Estado do Racismo em Portugal, de Silvia Rodriguez Maeso
Com prefácio de Thula Pires e organização por Silvia Rodriguez Maeso, O Estado do Racismo em Portugal apresenta um conjunto de textos que defendem que o racismo não é apenas uma questão individual mas um problema sistémico profundamente enraizado no Estado. Com o objetivo de contribuir para a descodificação do racismo institucional, este livro identifica e analisa as práticas rotineiras que protegem e reproduzem a ordem racial antinegra e anticigana em diversos âmbitos da sociedade portuguesa: na implementação da legislação de combate à discriminação e ao ódio racial, nas políticas de segurança e policiamento ou nas respostas à precariedade e à segregação residencial, entre outros.
Um Preto Muito Português, de Telma Tvon
O protagonista do primeiro romance da escritora e rapper luso-angolana Telma Tvon é um cabo-verdiano que vive há muito em Portugal, neto de cabo-verdianos que nunca conheceram Portugal, bisneto de holandeses que mal conheceram Portugal e de africanos que muito ouviram falar de Portugal. Vive em Lisboa, mas não é considerado alfacinha. Terminou a licenciatura na faculdade e vai trabalhar num call center, com outros negros e brancos, pobres e ricos. Budjurra faz parte de uma minoria que, lentamente, vai sendo cada vez menos minoria. É um preto português, muito português, que, ao longo do livro e das aventuras que relata, levanta questões relativamente a temas como racismo, discriminação, estereótipos, igualdade e humanidade, mas também música, rap, identidade — numa Lisboa morena e colorida que é necessário conhecer.
Racismo, Hoje, de Jorge Vala
Em Racismo, Hoje, Jorge Vala analisa a questão do racismo em Portugal no contexto europeu. Sendo a consciência de que o racismo é incompatível com a democracia mais recente em Portugal do que no resto da Europa, como se explica a legitimação, entre nós, de comportamentos de discriminação ou violência racial, ora escondida, ora aberta? Como reagem as vítimas e com que estratégias? Este ensaio propõe-se combater o silêncio demasiado longo sobre estas questões, a reduzida investigação empírica e a falta de informação e categorias mentais para as discutir.
Racismo em Português, de Joana Gorjão Henriques
Da autora de Racismo no País dos Brancos Costumes, a jornalista Joana Gorjão Henriques, Racismo em Português é o primeiro trabalho de investigação sobre o legado do colonialismo português. A partir de inúmeras entrevistas feitas em Angola, Guiné‑Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique, procura compreender a forma como o colonialismo marcou as relações raciais e se os portugueses terão sido realmente mais brandos e menos racistas do que as outras potências coloniais, como o lusotropicalismo quis fazer acreditar. Cinquenta anos passados sobre as independências das ex-colónias portuguesas, este livro questiona até que ponto o racismo afecta ainda hoje as relações sociais, políticas e económicas nesses países.
A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge
Um dos mais importantes romances escritos sobre o colonialismo português, A Costa dos Murmúrios parte das próprias memórias de Lídia Jorge durante este período. Passado em Moçambique no final dos anos 60, nada é atenuado ou escamoteado neste livro. Enredo e personagens arrastam consigo o significado caótico de um universo desregulado, onde o risco permanente torna os protagonistas dependentes em extremo de fortuitas coincidências. Em 2004, inspirou um filme homónimo realizado por Margarida Cardoso.
Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo
Segundo o filósofo José Gil, “nenhum livro restitui, melhor do que este, a verdade nua e brutal do colonialismo português em Moçambique.” Caderno de Memórias Coloniais parte das próprias memórias da autora enquanto menina a caminho da adolescência durante o período tumultuoso do final do Império colonial português. O cenário é a cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, onde a escritora nasceu e onde a verdade se escondia sob a boa consciência necessária à regularidade quotidiana da vida “paradisíaca” dos brancos. A edição francesa desta obra foi finalista do Prémio Femina Estrangeiro.