Começou a trabalhar como ator há 20 anos e, desde então, aborda o teatro como uma assembleia humana: um local onde as pessoas se encontram, como num café, para discutir as suas ideias e partilhar o seu tempo. Em 2003, cofundou a companhia Mundo Perfeito com Magda Bizarro, na qual criou e apresentou cerca de 30 espetáculos em mais de 20 países; foi professor de teatro em várias escolas, escreveu argumentos para filmes e séries televisivas, artigos, poesia e ensaios. Com as suas peças mais recentes, obteve um reconhecimento internacional alargado e diversos prémios a nível nacional e internacional. Entre as suas obras mais notáveis figuram By Heart, António e Cleópatra, Bovary, Como ela morre e Sopro, uma das suas últimas criações. Seja através da combinação de histórias reais com ficção, seja reescrevendo clássicos ou adaptando romances, o teatro de Tiago Rodrigues é profundamente enraizado na ideia de escrever para e com os atores, procurando a transformação poética da realidade usando as ferramentas teatrais. Diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II desde 2015, tem sido um construtor de pontes entre cidades e países e, simultaneamente, um anfitrião e um defensor de um teatro vivo.
Há pouco mais de um ano, aquando da sua participação na VII Mostra Internacional de Teatro, em São Paulo, recordava como um episódio pessoal o fez descobrir no exercício de aprender de cor “um gesto de resistência contra totalitarismos de qualquer espécie” e “uma prova de amor pela literatura, pelo poder das palavras”. Nesse labirinto literário em que o pedido da sua avó Cândida o mergulhou, encontrou histórias a respeito da sua profissão de ator, de teatro, da literatura, da escrita, da razão de criarmos obras de arte com palavras. Que feições tem essa razão, que força é essa?
O que este ano, de alguma forma, veio confirmar foi precisamente o que já estava presente no By Heart, nessa reflexão que fiz na altura, e que vinha fazendo, de que não apenas as obras de arte feitas com palavras, mas o livro enquanto objeto de tráfico de ideias e de contaminação (não é o termo mais feliz para utilizar neste momento, mas, ainda assim, é de contaminação de conceitos, de propostas alternativas para o mundo em que vivemos), são absolutamente essenciais. Quando me perguntam que força é essa, tenho sempre de recordar uma ideia que a Hannah Arendt defendia: as obras de arte são lançadas para o mundo, não são lançadas para o público. As pessoas, os leitores, os espetadores, tal como os artistas, usam as obras de arte como uma espécie de laço, para participarem do mundo.
Eu gosto muito dessa ideia, que me acompanha desde a infância, que, através da palavra falada e da escrita estamos a participar do mundo. A força das obras de arte feitas através de palavras, e nomeadamente a força dos livros, é esse laço invisível, mas que liga o Boris Pasternak, na Rússia, com a minha avó, numa aldeia transmontana, e que os cruza e os torna participantes do mesmo mundo, quando ela lê o Doutor Jivago, por exemplo. É nosso dever, não apenas do Estado, mas de uma sociedade democrática, criar as ferramentas para que essa força invisível, mas tremenda, se torne estrutural na sociedade. Essa é, em grande medida, a ideia de um serviço público da cultura.
Eu gosto muito dessa ideia, que me acompanha desde a infância, que, através da palavra falada e da escrita estamos a participar do mundo.
© FILIPE FERREIRA
Em dezembro do ano passado, numa conversa com a candidata presidencial Marisa Matias, quando analisavam os tempos difíceis que enfrentam as democracias ocidentais e o papel que a cultura pode desempenhar na sua defesa, disse que "não podemos cair na tentação de colocar a cultura num lugar de utilidade social", afirmando que a criação artística pode ter uma função social, mas não a priori. Oscar Wilde dizia que arte é perfeitamente inútil. A arte pode ser útil, mas isso não a define?
Em última análise, eu até diria que a arte só pode ser útil se preservar essa inutilidade de que falava Oscar Wilde. É absolutamente fundamental compreendermosque a legitimação do lugar das artes e da cultura, urgente em Portugal, não pode passar pelas justificações utilitárias, colocando-as ao serviço de uma função social. É verdade que através das artes e da cultura há uma possibilidade de trabalho pedagógico, de educação, de pensamento divergente, que enriquece o discurso político de uma sociedade. Há todas essas possibilidades, mas isso são sobretudo consequências, não podem ser os motivos para se considerar que as artes e a cultura são legítimas numa sociedade. A validade de uma obra de arte acontece na sua qualidade, acontece na estética, na ética, no tempo, é preciso que ela esteja acessível para poder deixar a sua pegada no tempo. Há obrigações do serviço público que não podem ser necessariamente obrigações dos artistas, dos criadores e dos autores. A obrigação do serviço público é aproveitar o que existe, a criação artística deve preservar a sua inutilidade, sem a qual não poderá ser útil.
A legitimação do lugar das artes e da cultura, urgente em Portugal, não pode passar pelas justificações utilitárias, colocando-as ao serviço de uma função social.
No seu caso, essa liberdade artística levou a uma evidente implicação com a questão social e com a participação política. Regressando à canção do Sérgio Godinho, é uma força que não lhe manda obedecer?
Por vezes, ocorrem-me aqueles versos do Brecht, que dizia: “Ah, que tempo é este / Em que falar de árvores é quase um crime”. Preservo a minha liberdade de contar uma história de amor e de falar de árvores. Acabo por reconhecer sempre, mesmo quando faço uma versão muito livre de António e Cleópatra, de Shakespeare, que, sim, ela fala de amor, da tragédia de um amor impossível, mas, em grande medida, fala de política, da autoridade, de como compreendemos o outro. Mesmo sem ser uma escolha doutrinária, a arte é porosa a todas as dimensões do ser humano, portanto, essa dimensão acaba quase sempre por transpirar para os espetáculos e para os textos de teatro, mesmo quando não fiz essas escolhas premeditadas ou explícitas desde o início. Depois, há outros espetáculos, outras peças, em que a dimensão política está em primeiro plano e é bastante explícita e procura mesmo ser uma das pontes mais claras de relação com o público.
BY HEART © MAGDA BIZARRO
"Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as coisas que passaram
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.
E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.
E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.
Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
têm cura as perdas e as tristezas fim."
— SONETO XXX, DE WILLIAM SHAKESPEARE
(tradução de Vasco Graça Moura)
"Assim que dez pessoas sabem um poema de cor,
não há nada que a CIA ou o KGB ou a Gestapo
possam fazer. Esse poema vai sobreviver"
— GEORGE STEINER
Desde 2013, centenas de “recrutas para a resistência” subiram ao palco para decorar o Soneto XXX, de Shakespeare. Pelas muitas terras que palmilhou, By Heart conquistou novos amantes de teatro, mas também milhares de novos leitores, alguns muito jovens que começaram a descobrir Shakespeare, Osip Mandelstam ou George Steiner. Quando concebeu a peça, teve esse objetivo, como se vestisse a pele de Nadezhda Mandelstam?
Sim e não. Por vezes, só descobrimos os objetivos das peças enquanto as estamos a fazer. Muitas vezes, só depois de as termos começado a apresentar é que percebemos para que servem. Eu sabia que a peça era uma declaração de amor à literatura e aos livros, mas também uma declaração de amor à minha avó e ao fenómeno de transmissão entre gerações, à forma como a literatura pode, mesmo através da oralidade, atravessar gerações e ser a face visível de um amor filial. O Soneto XXX foi o melhor exemplo que encontrei para falar do meu amor pela minha avó, e que é uma coisa completamente universal com a qual muitos se poderão relacionar. A ideia de roubar a encenação à Nadezhda Mandelstam surgiu durante a pesquisa para o espetáculo, quando reencontrei essa história, que já tinha ouvido há muitos anos.
Quando o marido de Nadezhda Mandelstam, o poeta Osip Mandelstam, viu todos os seus poemas e livros serem confiscados, durante o regime estalinista, esta, para preservar a obra do marido, começou a ensinar a outros, na sua cozinha, os poemas que sabia de cor. Pensei que havia ali um espetáculo de teatro a que eu gostaria de assistir. Pensei que esta poderia ser uma ferramenta para perpetuar não apenas aquilo que a minha avó me tinha transmitido, mas a própria voz da minha avó, a possibilidade de outras pessoas, em outras cidades, e mais tarde noutros países pelo mundo, estarem a perpetuar a voz da minha avó. Estamos também a mostrar a um público essa coisa invisível que acontece sempre numa sala de teatro, esse fenómeno de transmissão de ideias entre os atores e os espetadores, que não envolve necessariamente o objeto livro, mas que é uma outra forma de leitura. Nesse espetáculo, recrutando os que se oferecem para ir para palco aprender um texto de cor, esse fenómeno de transmissão é apresentado metaforicamente, visualmente.
Apercebi-me muito rapidamente que, paralelamente a essas pessoas que iam ao palco, ou que estavam na plateia, e que se dedicaram a aprender de cor aquele Soneto XXX, de Shakespeare (na tradução belíssima do Vasco Graça Moura), também noutros pontos do mundo outras traduções começaram a ser decoradas. Houve também pessoas que se dedicaram mais à leitura, ou que regressaram avidamente à leitura; outras que se dedicaram a aprender textos de cor, em alguns casos até em grupo. As dez pessoas que subiram ao palco quando a peça foi apresentada no Festival Internacional de Viena, após o
espetáculo, trocaram contactos e começaram a juntar-se mensalmente, para aprenderem um poema de cor. Esse grupo foi crescendo e, neste momento, são quarenta pessoas que, todos os meses, se encontram numa livraria para aprender um texto de cor. Histórias como estas são pequenas consequências de ínfimas transformações provocadas por um espetáculo de teatro. Portanto, embora eu não tenha pensado em fazer uma peça que faça a apologia da leitura, da aprendizagem de cor do livro, como esse amor estava dentro da peça, ela teve consequências. Foi lançada ao mundo e o mundo começou a fazer coisas com essa obra, que a obra não exigia, mas que permitiu.
Embora eu não tenha pensado em fazer uma peça que faça a apologia da leitura, da aprendizagem de cor do livro, como esse amor estava dentro da peça, ela teve consequências.
BY HEART © MAGDA BIZARRO
Como podem editoras e livrarias retribuir esse impulso transformador tantas vezes recebido das artes cénicas? Parece-lhe possível que, trabalhando em conjunto, recrutemos mais resistentes e encontremos novos públicos?
Julgo que é perfeitamente possível trabalhar no sentido de encontrar esses novos públicos. Há uma ideia que me é muito cara, desenvolvida por Almeida Garrett, quando fundou o Teatro Nacional Dona Maria II e o Conservatório Nacional, que defende que a necessidade só existe quando se oferece insistentemente. Temos notado isso em várias frentes: quando criámos, por exemplo, a Rede Eunice, que faz circular pelo país trabalhos criados no Teatro Nacional Dona Maria II. Quando começámos a trabalhar o Centro Cultural Gil Vicente (Sardoal), ou com o Teatro Nacional Baltazar Dias (Funchal), durante três anos fomos lá com dez espetáculos. Esse trabalho sistemático e regular de parceria fez com que nestas comunidades, agora, a programação de teatro seja regular, já sem a presença do Teatro Nacional Dona Maria II, mas muito por causa do espaço que se abriu e da necessidade que se criou. Não basta tentar responder àquilo que o mercado nos diz e quando não há um público aparente para uma determinada coisa, dizer que essa coisa então não merece existir. Comecei a fazer teatro aos catorze anos, graças ao Projeto Panos, sem particular vocação ou interesse pelo teatro, mas porque era fascinante; não por ser teatro, mas porque era um lugar onde se brincava, pensava e imaginava. Os sábados de manhã eram o momento mais feliz da minha vida, na escola secundária da Amadora. Com este projeto, que nasceu na Culturgest há cerca de catorze anos, continuamos a contribuir para que haja mais de 40 grupos escolares, todos os anos, a terem textos inéditos, escritos de propósito só para eles, para poderem fazer teatro, pensar e brincar em conjunto. Orgulho-me muito do projeto porque sei que contribui fortemente para os hábitos de leitura desses jovens, para a sua propensão para descobrir outros autores, para se lançarem no teatro, na poesia, no romance ou na não-ficção.
Por: Elísio Borges Maia & Marisa Sousa
Fotografias: Filipe Ferreira & Magda Bizarro
Excerto da entrevista exclusiva a Tiago Rodrigues, realizada em março de 2021. A versão integral pode ser lida na edição de abril 2021 da revista Somos Livros.