Dela já se disse que tem “capacidade para criar canções eternas”. Francisca Cortesão nasceu no Porto, em 1983, é escritora de canções, cantora e guitarrista e, desde 2006, faz de Minta & The Brook Trout o veículo principal das suas ideias. Cofundou os They’re Heading West, que já partilharam o palco com mais de cinquenta bandas e artistas. Acumula a participação em bandas, que acompanham ao vivo nomes como o compositor e multi-instrumentista Bruno Pernadas ou Lena d’Água, com a participação em concertos da versão alargada de Mão Verde, projeto de “música para crianças que não se quer infantil”, idealizado pela rapper Capicua e pelo guitarrista Pedro Geraldes.
O inglês é o idioma dos seus principais projetos (Minta & The Brook Trout e They’re Heading West), aquele que entoamos em canções como To Disappear, On Lust, Falcon, At your Will, So This Has To Do ou Old Habits. No entanto, compôs em português grandes canções como Anda Estragar-me os Planos, com Afonso Cabral, ou Delicadeza, que abre Eva, de Cristina Branco. Recentemente, o Salvador Sobral disse que o importante é cantar, em russo, em sueco, em polaco… Como ele, também vê os idiomas como “os pedais de um guitarrista”?
Enquanto escritora de canções, vejo os idiomas em que me mexo bem, o português e o inglês, mais como dois instrumentos musicais diferentes. A minha cabeça e a minha maneira de ver o mundo não mudam, mas acabo por me expressar de forma diferente nos dois, e com cada um vou buscar os seus assuntos e histórias. Perceber que também era capaz de escrever em português, ao contrário daquilo que me tinha convencido que era o caso durante muitos anos, foi uma revelação.
Na edição deste ano do Festival da Canção, o Sérgio Godinho explicou que não quis cantar a canção que compôs para a edição de 1975 (A Boca do Lobo, que ficou em 2.º lugar) para não correr o risco de ganhar e ter de ir à Eurovisão. Quando escolheu não interpretar Anda Estragar-me os Planos, quais foram os seus motivos?
Fiquei muito feliz com o convite para compor no Festival, que me chegou através do Henrique Amaro, e toda a experiência foi muitíssimo enriquecedora. Quanto a interpretar a canção, nunca me passou pela cabeça: decidi logo que queria escrever em português e para a voz de outra pessoa. Como no ano anterior tinha participado no Festival, enquanto membro da banda da Lena D’Água, tinha muito presente o que cantar ali implica, e sabia que me faltava a coragem. Estou muito grata à Joana Barra Vaz por se ter mandado para tão longe da zona de conforto dela para defender a nossa canção, e ao Afonso Cabral, que é um maravilhoso companheiro de trabalho.
O mesmo Sérgio “roubou-lhe” Large Amounts, deu-lhe outra letra e ainda lhe chamou “Mútuo Consentimento”. Como é que isso aconteceu?
Em termos práticos: eu participei num concerto do B Fachada, no São Jorge, em Lisboa, integrado num festival que na altura se chamava Super Bock em Stock. Tinha cantado o Primeiro Dia, dele, no B Fachada É Pra Meninos, que continua a soar maravilhosamente, e fui cantá-la também ao vivo. O Sérgio Godinho foi o convidado surpresa para cantar Os Discos do Sérgio Godinho e mais uma dele, o Lisboa Que Amanhece, se não estou em erro. Eu já conhecia o Sérgio e, nessa altura, dei-lhe o disco de Minta & The Brook Trout, que tinha o Large Amounts. Ele ligou-me uns dias depois a dizer que tinha gostado das minhas canções e eu fiquei contentíssima, sou fã das canções dele desde que me conheço. Passado algum tempo apresentou-me o Mútuo Consentimento. A letra que ele escreveu conta uma história completamente diferente da minha, achei engraçado caberem duas coisas tão diferentes dentro da mesma música. E ainda gravei uma guitarra para a versão que entrou no disco com o mesmo nome. Mais consentimento para o “roubo” era difícil!
Como viu a atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan em 2016 e a polémica que originou?
Embora tenha ouvido bastante Bob Dylan ao longo da vida, não é de todo o meu favorito, se pensarmos em escritores de canções. Gostava mais de ter visto o Leonard Cohen a ganhar esse prémio, ou a Suzanne Vega: acho qualquer um dos dois mais poeta do que o Dylan.
A música e a literatura estiveram sempre intimamente ligadas no momento da criação. Parece-lhe possível construir pontes noutras dimensões, por exemplo num esforço concertado pela melhoria das condições para a produção artística ou na criação de novos públicos?
Quanto à melhoria das condições para produção artística, e mesmo à criação de novos públicos, sendo que as tentativas de pontes podem ser enriquecedoras, creio que isso depende mais de um investimento público continuado e inteligente (a nível local e nacional) do que dos próprios agentes da cultura. Do lado dos agentes da cultura, talvez as pontes mais importantes nesta altura sejam as que se constroem no sentido de concertar esforços entre as várias áreas de produção artística, para definir a melhor forma de fazer esse investimento público e para lutar pela melhoria de condições.
Se lhe pedíssemos para escrever uma canção sobre o maior problema da cultura portuguesa, que refrão escolheria?
Não arriscando resumi-la a um refrão, creio que a questão da precariedade é um dos maiores problemas que os trabalhadores da cultura enfrentam, e não me parece que se coloque apenas em Portugal.
Numa entrevista em 2019 disse que a música que mais tinha ouvido nesse ano fora The Bug Collector, da Haley Heynderickx. Ouvi a canção pela primeira vez aquando do primeiro confinamento e não me abandonou no último ano. Serão os "efeitos secundários da poesia", de que fala o Manel Cruz?
Ui, pois — é uma canção que se cola aos ouvidos! Fico muitas vezes com canções ou bocadinhos delas presos na cabeça. Tenho muito boa memória para fixar melodias e letras, o que é muito útil no meu trabalho, se os earworms são efeitos secundários, valem bem a pena.
Minta & The Brook Trout prometeram um álbum para o início deste ano, o vosso quarto disco. O que podemos esperar? Blood and Bones?
O novo álbum é editado no dia 16 de abril e chama-se Demolition Derby. Provavelmente não apanhará de surpresa quem tiver ouvido os anteriores, mas é talvez o nosso disco mais aventureiro em termos de som e de escrita. Em termos temáticos anda menos em torno das questões da família do que o Olympia, de onde vem esse Blood and Bones, e mais da relação com a passagem do tempo e com as ideias que vamos fazendo de nós próprios à medida que vamos envelhecendo. Estou muito entusiasmada com o disco e com muita vontade de o tocar ao vivo. O concerto de lançamento está marcado para dia 24 de maio, no Teatro Maria Matos, em Lisboa — gostávamos muito de ter a casa cheia, ou tão cheia quanto for permitido nessa altura.
Por: Elísio Borges Maia
Já pode ouvir Demolition Derby aqui:
Artigo publicado na edição de abril de 2021 da revista Somos Livros.