Olga Roriz: “Temos de ser positivos e avançar, encontrando novas formas de fazer as coisas.”

Por: Marisa Sousa a 2021-04-29

Últimos artigos publicados

As "canções eternas" de Francisca Cortesão

Dela já se disse que tem “capacidade para criar canções eternas”. Francisca Cortesão nasceu no Porto, em 1983, é escritora de canções, cantora e guitarrista e, desde 2006, faz de Minta & The Brook Trout o veículo principal das suas ideias. Cofundou os They’re Heading West, que já partilharam o palco com mais de cinquenta bandas e artistas. Acumula a participação em bandas, que acompanham ao vivo nomes como o compositor e multi-instrumentista Bruno Pernadas ou Lena d’Água, com a participação em concertos da versão alargada de Mão Verde, projeto de “música para crianças que não se quer infantil”, idealizado pela rapper Capicua e pelo guitarrista Pedro Geraldes.

José Gardeazabal: “Há incómodos que, versados em literatura, nos fazem avançar.”

Um casal, decidido a separar-se e de malas feitas, é obrigado pelas autoridades de saúde a uma quarentena. O seu apartamento transforma-se numa arena de proximidade física e distâncias calculadas, onde os restos da vida amorosa e o trautear televisivo de uma pandemia mudam o mundo por dentro e por fora. Ali, sob o regime forçado de uma intimidade perdida, percebemos como, entre antigos amantes, vizinhos e desconhecidos, a saudade das multidões e dos sentimentos sempre estiveram à altura de nos resgatar do peso do presente. Quarentena, Uma História de Amor, o novo romance de José Gardeazabal, coloca-nos no lugar de espetadores de uma história de amor em 40 dias. “A nossa relação desapareceu pelo efeito preguiçoso do tempo”, esclarece o protagonista logo à entrada da narrativa. Será que devemos acreditar nas primeiras impressões ou dar tempo à descoberta? Uma introspeção inesperada, à porta fechada, sobre o que é o amor, onde começa, acaba e recomeça.

Comunidade Bertrand | Manta de Histórias (Isabel Caldeira)

Foi em abril de 2019 que demos início à Comunidade Bertrand, procurando unir-nos a quem, como nós, é movido pela paixão pelos livros. Convidámos livrólicos e bloggers de diversos quadrantes a juntarem-se a esta família, dando-lhes um espaço no nosso site e desenvolvendo diversas iniciativas, tendo em vista a promoção da leitura. Isabel Caldeira, responsável pelo blogue Manta de Histórias, foi uma das primeiras a aceitar o nosso desafio.

"Sempre me recusei a arder como os outros
Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!
Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio
E no fim são todos cinza."


excerto de "Uma vez quiseram-me louca,

a arder”, in Ver no Escuro, de Cláudia R. Sampaio.

 

Bailarina Marta Lobato Faria, espetáculo Terra © RODRIGO DE SOUZA.


Integrou o elenco do Ballet Gulbenkian, de 1976 a 1992, sob a direção de Jorge Salavisa, onde foi primeira bailarina e coreógrafa principal. Em 1992, assumiu a direção artística da Companhia de Dança de Lisboa e, em 1995, fundou a Companhia Olga Roriz, da qual é diretora e coreógrafa. O seu reportório na área da dança, teatro e vídeo é constituído por mais de 100 obras, onde se destacam as peças Treze Gestos de um Corpo, Isolda, Casta Diva, Pedro e Inês, Propriedade Privada, Electra e A Sagração da Primavera. Confessa-se obsessiva e transformou muitas das suas preocupações, dúvidas e medos em pontos de partida para espetáculos. Assume que uma existência sem criação ser-lhe-ia insuportável. Na génese de Autópsia, esteve a procura de uma dança que salvasse o mundo. O mundo ainda não foi salvo e, depois do confinamento, Olga prepara-se para encher os palcos com Insónia.

 

Aquando da nossa primeira conversa, há quatro anos, referiu-me o poema “Seis notas do lado do vento”, de Adonis (“Que a poesia seja uma viagem aos confins do fora ou até ao mais íntimo do dentro, vivi nela, desde o início da minha empresa, um dentro que é no seu todo um fora, um fora indissociável do dentro”). Continua a percorrer os caminhos da poesia para encontrar inspiração e respostas?
Ainda ontem, no ensaio, falava sobre isso com os meus bailarinos. Acredito que, para os bailarinos e para os criadores em geral, a poesia não está nas coisas, mas dentro de nós. É como se olhássemos para o mundo de uma forma diferente. Olhar a luz que bate na janela, uma porta entreaberta, um gato que passa, a cor de um carro, seja o que for, e ver mais do que aquilo que a maioria das pessoas vê. Não são os objetos ou os momentos que são poéticos, somos nós que trazemos essa poesia dentro de nós. Para mim, a poesia está para a literatura como a dança está para o teatro, quase como se a dança, que é a linguagem do corpo, fosse a poesia do teatro. A minha construção, enquanto pessoa, passa obviamente pela leitura — como julgo que acontece com a maioria das pessoas. Gosto muito de ensaios, de alguns romances, e gosto muito de poesia, porque tem uma característica que valorizo imenso: podemos abrir um livro de poesia numa página qualquer e o que encontramos diz--nos sempre alguma coisa, não precisamos de conhecer a história ou as personagens. Não precisamos de nada disso. A poesia não exige a fidelidade que um romance, ou mesmo um ensaio, exige. A poesia é ali, naquela hora, naquele momento. No espaço que reservo para a leitura, isso é muito importante, até porque leio de forma um pouco esquizofrénica (risos). Por vezes, estou a ver dois filmes ao mesmo tempo e ainda estou com um livro no colo, e estou a ver tudo ao mesmo tempo. Isto também se deve à capacidade que temos, hoje em dia, de nos dividirmos e de conseguirmos concentrar-nos em várias coisas ao mesmo tempo.

 

E essa forma, tantas vezes, fragmentada de consumir, não interfere na absorção dos estímulos?
Julgo que há tempo para tudo. Há momentos em que preciso mesmo de ser invadida por tudo, e outros em que tenho de me concentrar apenas numa coisa. Depende do que procuro. Ando sempre à procura, estou sempre em busca. Por vezes, revejo filmes quatro ou cinco vezes, por exemplo. Quando já conheço o fio dramatúrgico e as personagens, posso estar mais atenta ao canto esquerdo do ecrã; no momento seguinte, estou a ver as cores, a seguir estou a dar atenção à banda sonora… Nem sempre são as coisas que vejo que me inspiram diretamente, mas dão-me espaço para imaginar.

 

Bailarino André de Campos, espetáculo Seis Meses Depois © PAULO PIMENTA.

 

A Companhia Olga Roriz celebrou 25 anos de existência em plena crise pandémica e viu os seus espetáculos serem cancelados. O futuro faz-se com que forças?
Durante os primeiros meses da pandemia, a partir de maio de 2020, foi possível continuar a pagar aos bailarinos graças aos contratos que tínhamos com os teatros. Também conseguimos remarcar rapidamente a estreia do espetáculo Seis Meses Depois, para setembro de 2020, no Teatro Dona Maria. Além disso, fizemos uma digressão com este espetáculo e, felizmente, como não tivemos ninguém na equipa infetado com covid-19, não foi necessário cancelar espetáculos, como aconteceu com muitas companhias de dança.


Aquando do segundo confinamento, estávamos a meio de uma criação, o Insónia, que vai estrear em maio. Felizmente, como tenho sempre programados quatro meses de trabalho para preparar um espetáculo, comecei em dezembro, continuamosem janeiro, mas tivemos de parar logo a seguir. No entanto, já tínhamos algumas coisas feitas e fomos para casa maturar o que se havia feito até aí. Atribuí uma série de trabalhos para casa: um filme a cada bailarino, para que o estudassem e, dessa inspiração, me apresentassem uma cena. Este trabalho leva tempo e até foi conveniente estarem em casa. Numa segunda fase, os bailarinos foram para o estúdio e eu continuei em casa. Felizmente, como temos um espaço enorme, aqui no Palácio Pancas Palha, definimos turnos, que permitiram que os bailarinos nunca se encontrassem e conseguissem estar sozinhos, para gravarem as cenas e enviar-me. Seguia-se o meu trabalho de análise, edição e feedback, a partir de casa. Agora vamos retomar o trabalho presencial porque a estreia está próxima.

A par disto, estamos a tentar reagendar os espetáculos que foram cancelados, porque precisamos dessas receitas. A maioria das companhias independentes depende destas receitas. Muitos pensam que somos subsídio-dependentes, mas isso não é verdade, de todo. O apoio que recebemos da Direção-Geral das Artes corresponde a 30 % do nosso financiamento, o restante está dependente de digressões e espetáculos. Financeiramente, estamos num período muito complexo. Felizmente, temos três coprodutores para esta nova criação: o Teatro Aveirense, a Câmara Municipal de Viana do Castelo e o Centro Cultural de Belém.


Fale-nos dessa Insónia.
Este espetáculo partiu do romance A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata, um livro que eu quis trabalhar quando estava no Ballet Gulbenkian, nos anos 80. O Jorge Salavisa aconselhou-me a não o fazer — talvez pensasse que eu não estava ainda preparada para uma coisa daquelas, e talvez tivesse razão. Mais tarde, já com a minha Companhia, voltei a pegar no livro e voltei a não o fazer. Substituí A Casa das Belas Adormecidas por um projeto sobre o tempo, o Start and Stop Again. Na altura, não me apercebi, mas esse espetáculo tinha tudo a ver com o romance. Agora voltei a pegar no livro e voltei a pô-lo de lado, e decidi trabalhar o erotismo, o corpo, a identidade de género e todas estas insónias. Nunca chegueia trabalhar o livro no sentido de contar a história, que eventualmente é o menos interessante, até porque é um pouco machista (risos), mas, na realidade, acabou por ser novamente uma inspiração.

 

Bailarina Natalia Lis, Vídeo-dança O Casa.


Em abril de 2020, numa entrevista, ao Público, disse que os artistas “têm de aprender a reconstruir-se de forma criativa e positiva” para enfrentar a atual crise, que teve um forte impacto no sector da cultura. De que forma se opera essa reconstrução?
Além do que já referi, sobre as formas como tivemos de reinventar o nosso trabalho, uma outra alternativa, que tem sido bastante falada, são os espetáculos fora dos teatros, em espaços ao ar livre. Começam também a ser mais comuns os streamings. Eu tenho ido ao teatro semanalmente, e há coisas fabulosas para ver. Temos de aprender a fazer, é preciso avaliar como podemos ter um produto acabado que seja bem filmado e que possa ser apresentado ao público. Vi recentemente online o Se eu fosse Nina, da Rita Calçada Bastos, e senti que estive muito mais próxima da atriz do que se estivesse a ver ao vivo. Há realmente objetos artísticos que até podem ganhar com a filmagem. É óbvio que falta o público. Mas calma, isto é apenas um período e vamos ter de aprender a tirar o melhor partido possível desta situação, exercitando-nos, construindo, descobrindo e enriquecendo o nosso trabalho. Temos de ser positivos e avançar, encontrando novas formas de fazer as coisas.

Fizemos um streaming a partir do Teatro Nacional de São João e, no final, estive a conversar com cada um dos bailarinos, para tentar perceber o que sentiram. A conclusão geral foi que, ainda que não haja público presente, o facto de terem câmaras apontadas lhes confere o mesmo sentido de responsabilidade. Nesse dia, disse-lhes antes de iniciarem: Dancem para mim. Fizeram um espetáculo como nunca haviam feito, foi mágico. Quando comecei a trabalhar o novo espetáculo, tinha quatro bailarinos que ainda não se conheciam. Aproveitei o facto de o Palácio aqui ao lado estar em obras, fomos para lá, levámos uma câmara e fizemos um filme low budget em quatro dias. Depois, o João Rapozo veio para minha casa, durante o último confinamento, com todo o seu equipamento, editámo-lo e nasceu uma curta-metragem, O Casa, um vídeo-dança de quinze minutos, que já foi enviado para dezanove festivais internacionais, vai ser passado no Cidade Digital, do Centro Cultural de Belém, no Dia Mundial da Dança, e julgo que também vai ser comprado pela RTP. De repente, nasceu ali qualquer coisa.


 

 

Livro Companhia Olga Roriz 25 Anos
Este livro não reflete apenas bailarinos, mas também iluminadores, cenógrafos, figurinistas, técnicos, produtores, palcos e fotógrafos. Todos eles amigos, irmãos, companheiros de tantas viagens. Mulheres e homens cúmplices de uma vida. Estas não são apenas imagens paradas no tempo, suspensas entre a sombra e a luz. São memórias de momentos preciosos, cortados pelo disparo de um olhar atento que se perpetuou.


Artigo publicado na edição de abril de 2021 da revista Somos Livros. Disponível online ou em qualquer uma das nossas 58 livrarias.

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