Pedro Carneiro: "É missão dos artistas continuar a informar os decisores políticos da efetiva riqueza desta atividade."

Por: Bertrand Livreiros a 2021-05-17

Estudou piano, violoncelo e trompete, desde os cinco anos de idade, e foi bolseiro da Fundação Gulbenkian na Guildhall School of Music and Drama. Na sua tripla atividade como instrumentista, chefe de orquestra e compositor, tem vindo a cativar plateias por todo o mundo. Apresenta-se, regularmente, como solista convidado de prestigiadas orquestras internacionais e como chefe de orquestra em diversas orquestras nacionais. É cofundador, diretor artístico e maestro titular da Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP) e da Jovem Orquestra Portuguesa (JOP). Uma conversa sob a batuta de Pedro Carneiro.


"Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes."


— José Saramago, Os poemas possíveis

 

A Orquestra de Câmara Portuguesa Associação Musical (OCP), depois de ter visto a sua existência ameaçada em 2018, celebrará, no próximo ano, quinze anos de intensidade, energia e imaginação. Assume como parte primeira da sua missão "tornar a arte e a música indispensáveis na sociedade, através da cultura do conhecimento", reconhecendo, assim, lucidamente, que a arte não é (ainda) indispensável à nossa sociedade. Que caminhos podem aproximar-nos desse desígnio?

O sentimento que levou à criação da OCP, em 2007, foi a necessidade de criar um espaço de valorização do artista na sua plenitude: física, social, filosófica e espiritual. A ideia inicial (a simples criação de uma orquestra de câmara com responsabilidades partilhadas, rotatividade dos seus músicos, utilização do ensaio como ferramenta de reflexão e aperfeiçoamento individual e coletivo, inclusão e exploração de outras disciplinas artísticas e processos, entre outros elementos diferenciadores) cresceu e deu lugar a uma miríade de iniciativas que utilizam a música e a arte como potenciadoras de uma sociedade mais justa e informada. Deste modo, o modelo de orquestra que imaginamos, serviu como mote à génese de todos os nossos programas de cidadania e ao trabalho com jovens músicos, jovens em contexto de risco, ou a inclusão da pessoa com deficiência no processo artístico. A comunidade artística tem muito mais para oferecer do que o resultado da sua prática em palco. Esse reconhecimento pela sociedade é o primeiro passo para uma transformação fundamental: reconhecer a riqueza do tecido cultural em Portugal, compreendendo de forma clara o seu valor presente e futuro. Jeremy Nicholls, o fundador da SROI Network (Social Return on Investment), analisa, num artigo (“Why measuring and communicating social value can help social enterprise become more competitive”, Cabinet Office, Office of the Third Sector, London, 2007), a importância de repensar a forma como contabilizamos valor. É igualmente missão dos artistas continuar a informar (diria mesmo persuadir) os decisores políticos e institucionais da efetiva riqueza desta atividade profissional para o bem comum.

 

A comunidade artística tem muito mais para oferecer do que o resultado da sua prática em palco.

 

Além de um papel de criação artística, a OCP tem lutado pela sua máxima, A música é para todos, em iniciativas como o Notas de Contacto — a OCPsolidária na CERCIOEIRAS, Sementes OCP — a OCPsolidária no Centro Social 6 de Maio ou o Projeto Novos Horizontes no Bairro dos Navegadores, em Oeiras. Que país seria o nosso se estes projetos pudessem ter uma escala nacional?
A OCP gostaria muito de ver replicados e difundidos alguns dos seus projetos pelo território nacional, em particular o Notas de Contacto, um programa em parceria com a Cercioeiras, que desenvolve ações e atividades musicais orientadas para potencializar as capacidades da pessoa com deficiência, promovendo a sua qualidade de vida e integração na comunidade, contribuindo para a promoção de uma sociedade inclusiva, com resultados extraordinários e uma metodologia inovadora. Esta difusão nacional seria possível e sem dúvida transformadora, se olharmos à visão mencionada anteriormente, relativamente ao SROI e ao reconhecimento de valor, mas de momento não é possível para uma instituição à nossa escala. Um investimento desta natureza, com ramificações profundas e transformadoras, mas com um processo de desenvolvimento lento, é um investimento social de larga escala. Com a compreensão de valor, que tão claramente Nicholls expõe no artigo já referido anteriormente, provavelmente um decisor político encontrará os argumentos suficientes para a sua implementação.


No rescaldo da escolha de Lisboa como Capital da Cultura Ibero-Americana (2017), o programador cultural António Pinto Ribeiro defendeu que a principal incumbência dos responsáveis políticos na área da cultura deve ser um "trabalho de persuasão dos cidadãos", para que "a prática artística e a produção cultural sejam vistas como algo que faz parte da vida quotidiana das pessoas". Concorda com a necessidade desta persuasão contínua? Do seu ponto de vista, qual deve ser o papel do Estado na cultura?
Já tive a oportunidade de discutir com o António Pinto Ribeiro, com grande interesse e por diversas vezes, um possível papel da orquestra como instituição. Gosto particularmentem da primeira parte da citação, onde refere a palavra trabalho. Porque o âmago da questão é esse: o trabalho, uma visão e um rumo prático que falta, para o Estado atuar como catalisador e potenciador das ferramentas que os artistas podem utilizar, com grande sucesso, numa intervenção direta nas suas comunidades. Dou o exemplo do município de Oeiras, que reconheceu na OCP uma capacidade inequívoca de atuação direta e transformadora com as crianças do Bairro dos Navegadores, fazendo formação cívica através da música. Como é óbvio, esta visão estratégica e política não apenas reconhece o valor das instituições artísticas e potencia esse papel de catalisador, como transforma essa comunidade, atuando de forma profunda através dos jovens. Este reconhecimento político é vital dado que, como menciona na sua questão, é desta forma que a prática artística e a produção cultural são vistas como algo que faz parte da vida quotidiana das pessoas.

 

A literatura (e, pessoalmente, a poesia) sempre me emocionou pela extraordinária capacidade de grandes criadores tornarem sagradas as palavras que usamos no quotidiano.


© Patrícia Andrade.


Na sua última crónica na revista Visão, “Este mundo não presta, venha outro”, onde procura as palavras para descrever a música, evoca Os Poemas Possíveis, de José Saramago. Que papel tem a literatura nas suas criações, no trabalho de direção artística e na formação de jovens?
A OCP foi fundada pela Teresa Simas (dança), pelo Alexandre Dias (filosofia) e por mim, pelo que a literatura é um território e uma paixão comum, seja como inspiração,fomento de ferramentas de comunicação ou de mediação, seja como depuração do processo de ensaio ou, mesmo, como elemento condutor de criações interdisciplinares, que tanto nos desafiam. Tantas vezes na obra de José Saramago ouvi as planícies infinitas de Anton Bruckner. A literatura (e, pessoalmente, a poesia) sempre me emocionou pela extraordinária capacidade de grandes criadores tornarem sagradas as palavras que usamos no quotidiano: mais intensas na síntese indecifrável da poesia (tão semelhante à música, ao despoletar rapidamente tantas emoções). William Carlos Williams escreveu que “um poema é uma máquina pequena (ou grande) feita de palavras.” A música, uma máquina-poema de sons, incalculável no âmbito, no espaço e no tempo.


Parece-lhe viável e útil a sinergia entre as instituições ligadas às artes performativas, as públicas e as estruturas independentes como a OCP, e as entidades e empresas envolvidas na edição e distribuição do livro e na promoção da leitura, nomeadamente na formação de jovens, na criação de públicos, contrariando a progressiva elitização da cultura? Em que poderia traduzir-se essa cooperação? E os criadores e profissionais de cada uma das áreas poderão também colaborar mais?
O nosso projeto é transdisciplinar e, como tal, tem esse mesmo objetivo, a colaboração, a cooperação e acima de tudo a aproximação das pessoas através da arte. Todas as iniciativas que nos juntem com o objetivo comum de celebrar a excelência, a diversidade e a riqueza do nosso tecido cultural são bem-vindas. É sempre possível criar objetos artísticos entre instituições de artes performativas e o mundo editorial, assim como encetar todo o género de colaborações. Realizamos, tanto na JOP, como com as crianças do projeto Orquestra dos Navegadores, oficinas de escrita criativa com o poeta Sebastião Belfort Cerqueira. Teríamos todo o interesse em aprofundar este formato, aproximando escritores, compositores, músicos, em oficinas e residências criativas que aproximassem a palavra e a música, com o objetivo de produzir um espetáculo ou apresentação pública. Estes encontros poderiam explorar música e literatura já existente ou até mesmo criações inéditas, com a possibilidade da sua divulgação pela internet e edição destes produtos artísticos. Habitualmente, o mais difícil é o primeiro passo, e é esse o motivo pelo qual nós temos sempre as portas abertas.

 

Por: Elísio Borges Maia

 


Artigo publicado na edição de abril de 2021 da revista Somos Livros. Disponível online ou em qualquer uma das nossas 58 livrarias

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