Foi produtor na Rádio Renascença, investigador na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, assessor do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol e co-apresentador e co-criador, em conjunto com Fernando Alvim, do podcast Com o Humor Não se Brinca. É um leitor voraz, escritor e jornalista, autor de Quem Vamos Queimar Hoje?, Isto Não é Um Livro de Receitas, Com o Humor Não se Brinca, Quando a Bola não Entra e Preciosa.
Este tempo suspenso foi chão fértil para novas ideias, no que à escrita diz respeito?
Diria que este ano teve dois momentos particulares, no que concerne à escrita: na maior parte de 2020, senti um bloqueio gigantesco de ideias e de execuções. Tinha um livro para terminar e os prazos descarrilaram, mas acabei por conseguir concluir o trabalho mesmo no final do ano. Desde então, já em 2021, tudo se tornou mais escorreito. As ideias são mais que muitas, regressei à escrita de crónicas no Público e esse trabalho tem-me dado um gozo enorme, que creio que se tem revelado na qualidade dos textos. Modéstia à parte, sinto que nunca escrevi crónicas tão boas.
Com a cultura (e os livros, por consequência) decretados bem não essencial, que estratégias encontrou para se alimentar?
Antes ainda de ser leitor, diria que sou um acumulador/coleccionador de livros. Por isso, estava bem munido de leituras para mais sete ou oito quarentenas. Ainda assim, é claro que me fez (e continua a fazer) muita falta ir a espetáculos e passear por livrarias. Mas consegui ler bastante nestas semanas de reclusão, para além do proverbial consumo de séries e filmes nas plataformas de streaming mais populares.
Não chegou a experienciar os chamados bloqueios de leitor?
Houve de tudo, diria. Tive semanas em que li três ou quatro livros, e tive outras em que mal li seis páginas. Neste preciso momento, estou numa dessas fases: apesar de saber que sou um leitor algo voraz, estou a tentar terminar o mesmo livro há quase duas semanas. Mas nenhum stress em relação a isso, as minhas necessidades de leitura são muito líquidas e sei que, não tarda nada, estou outra vez a ler muitíssimo.
Estava bem munido de leituras para mais sete ou oito quarentenas.
© Vitorino Coragem
Houve alguma alteração, no que às temáticas de leitura diz respeito, fruto do contexto?
Digamos que sou um leitor que está sempre à procura do que não é expectável, isto é, é muito natural procurar livros fora da minha área de interesse, o que me faz consumir coisas estranhas com frequência. Por isso, seria difícil entender essa tendência, mesmo que tivesse acontecido. Acho que mantenho o interesse forte em não-ficção, independentemente do assunto.
Que livros se revelaram companheiros generosos durante esta fase?
Uma das coisas que aproveitei para fazer neste último confinamento foi reler toda a saga A Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, apenas para confirmar que é o meu texto predileto da última década. Acontece também que tenho péssima memória, e raramente consigo enumerar as coisas que li nos últimos tempos, mas diria que outro livro que me marcou muitíssimo foi o Teoria das Cordas, de David Foster Wallace, publicado recentemente pela Bazarov, que me ajudou a esconder as saudades que tenho de jogar ténis.
Prevê-se um tempo de avidez pelo belo e pelas mais diversas formas de manifestação cultural, como aconteceu ao longo da história, após períodos conturbados de guerras, crises ou pandemias. O que podemos esperar de si, há novos projetos a fermentar?
Terminei um livro no final de 2020, que poderá ver a luz do dia ainda em 2021. Como disse antes, o que mais tenho escrito ultimamente tem saído sob a forma de crónicas no Público. Também tive ideias para mais dois ou três livros, mas algo me diz que ainda demorarei um par de anos até conseguir materializá-las. Mas, como bem temos visto, a vida é muitíssimo imprevisível, por isso pode ser que haja uma qualquer surpresa nos próximos meses.