Tiago Guedes: "O que me fascina muito é esta roda de contágio que se pode criar entre os diferentes campos."

Por: Bertrand Livreiros a 2021-05-12

Tiago Guedes, realizador de cinema e de televisão, argumentista e encenador, nasceu no Porto, em 1971. Formou-se em Publicidade, pela Universidade Fernando Pessoa, e recebeu formação em cinema na New York Film Academy e na Raindance of London. No último ano, o seu nome foi ainda mais falado, muito graças ao enorme sucesso de A Herdade (2019), o primeiro filme português em 14 anos a competir pelo Leão de Ouro, no Festival de Cinema de Veneza, onde acabaria por ser distinguido com o Prémio Bisato d'Oro da crítica independente para Melhor Realização.

Os seus filmes Coisa Ruim e Entre os Dedos têm argumento do jornalista e romancista Rodrigo Guedes de Carvalho; em A Herdade assina o argumento com o escritor Rui Cardoso Martins; em Tristeza e Alegria na Vida das Girafas adaptou a peça homónima de Tiago Rodrigues, confessando, em entrevista ao Diário de Notícias: “O desafio era bastante assustador porque eu gostei imenso da peça e é sempre perigoso mexer em coisas de que se gosta muito porque tem se medo de estragar.” O livro é sempre melhor do que o filme, como dizem, ou esta comparação não faz sentido?
Não acho que seja verdade, há muitos bons filmes nascidos de livros menos bons. O que me fascina muito é esta roda de contágio que se pode criar entre os diferentes campos. Qualquer coisa que inspira alguém a fazer uma outra coisa. Penso que vivemos já num tempo em que qualquer uma das artes pode influenciar as outras. Filmes que inspiram livros, músicas que inspiram peças de teatro, e por aí fora, num ciclo sem fim de contágios.


Ainda sobre Tristeza e Alegria na Vida das Girafas — um filme sobre a morte, a crise e o fim da infância (protagonizado pela sua filha, Maria Abreu) — disse: “Estava numa fase da minha vida em que queria falar muito de como é que se sobrevive à dor de uma perda e andava a ouvir outra vez as músicas do Manel Cruz e do Foge Foge Bandido. Quando vi o espetáculo, tudo se conjugou na vontade de fazer um filme com essas coisas todas”. Este é o seu filme mais influenciado pelos problemas da sociedade portuguesa contemporânea, por um país em que a criação cultural é tão difícil, como o processo de produção do filme, de resto, o ilustra?
Talvez seja, sim. Concordo que o processo de produção do filme ilustra bem as dificuldades vividas no setor. Essa influência dos problemas da sociedade portuguesa contemporânea não foi a razão essencial, até porque considero que o texto é bastante universal, na luta dos artistas, na dor da perda e do crescimento. Sinto que qualquer pessoa se consegue identificar com aquelas personagens, não apenas em Portugal. A peça foi escrita em plena crise económica e refletia sobre um país à sombra dessa crise, mas a verdade é que essa crise económica, para o nosso setor, não está ligada a essa crise específica nem a esta nova da pandemia. Trata-se de uma realidade permanente no sector cultural, um setor que apenas existe porque está cheio de pessoas resilientes que oferecem resistência, pessoas que se recusam a parar e que continuam a lutar.

 

[O] setor [cultural] apenas existe porque está cheio de pessoas resilientes que oferecem resistência, pessoas que se recusam a parar e que continuam a lutar.

 

Filme Tristeza e Alegria na Vida das Girafas.

 

O seu filme A Herdade foi visto por perto de 4 milhões de espectadores espalhados por todo o mundo, valeu-lhe uma série de prémios — em Portugal, foi o grande vencedor dos Prémios Sophia — e chegou às televisões através das plataformas de streaming (Filmin e HBO). Mas, antes deste retumbante sucesso, esteve dez anos sem filmar, apesar de estar “cheio de ideias”, conforme chegou a confessar, acrescentando que “é muito dura essa frustração de ter uma vontade muito grande de fazer uma coisa e não conseguir fazê-la.” Muitos teriam, certamente, tombado pelo caminho. O que podemos fazer para que a produção artística não seja uma ousadia, um ato de heroísmo ou uma reunião das boas vontades de quem tem de encontrar outros meios de subsistência?
Excelente pergunta. Esta é a questão que deveria ser feita constantemente. Porque o lado mau de as coisas irem acontecendo, devido a esses atos de heroísmo, essas ousadias e boas vontades, é que demostram a quem decide que as coisas continuam a fazer-se. E em vez de valorizarem esses atos e esses feitos, vampirizam-nos. Todos aqueles que lutam porque acreditam naquilo que estão a fazer, esperariam estar a fazer um esforço que depois seria compensado de alguma forma, mas o que acontece, na realidade, é que, infelizmente, ao continuar a fazer omeletes sem ovos a ideia é recebida como “afinal não precisam dos ovos”, em vez de “eles merecem mesmo mais ovos”.


Ao fazer o filme Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, debati-me muitas vezes com esse dilema, estávamos a trabalhar sem meios, com as pessoas todas, equipa e elenco a investirem o seu trabalho, talento e tempo num filme, porque acreditaram muito nele, o que é muito bonito e nobre por um lado, mas que, por outro lado, é bastante perverso, porque damos a ideia errada às pessoas, aos investidores, aos canais, que se podem fazer as coisas dessa forma. E não devem, porque todas as pessoas envolvidas merecem receber o pagamento justo pelos trabalhos que fazem, todas, em qualquer tipo de profissão.


A solução, que não é rápida nem instantânea, passa pela educação, a meu ver. É preciso educar as pessoas sobre o setor cultural, sobre a sua importância e relevância para um país — não só pela importância que tem para a sua identidade, mas também no prisma económico. Porque continua-se a acreditar que a cultura está cheia de dinheiro mal empregue e que não gera riqueza, quando está mais do que provado que ambas são enormes falácias. Mas as pessoas não têm noção disso e continuam a ler os sinais que lhes são emitidos por quem decide, e fica muito claro que, para eles, a cultura não é uma prioridade. E devia ser, tal como a educação (que precisa de uma boa reforma) e a saúde.

 

O que acontece, na realidade, é que, infelizmente, ao continuar a fazer omeletes sem ovos a ideia é recebida como “afinal não precisam dos ovos”, em vez de “eles merecem mesmo mais ovos”.

 

Filme A Herdade.

 

Tiago Rodrigues (Diretor do D. Maria II) estima que “esta pandemia poderá ser um catalisador, um ativador de novas ações e novas ideias, não apenas criativas, no sentido estético e do discurso artístico, mas o modo de as fazer circular e comercializar, por assim dizer, junto das pessoas, também será alvo de transformação”. Parece-lhe que os mundos dos livros e das várias artes podem trabalhar mais em conjunto, alargando os respetivos públicos?
Percebo o que diz o Tiago, e concordo que muita coisa será diferente a partir daqui. Acho que esta pandemia veio acelerar algo que me entristece muito, que é o afastamento das salas de cinema. O cinema chegará às pessoas de outra forma. Acredito e espero que exista um renascimento das salas, mas pelo que me vou apercebendo será difícil voltar atrás. O cinema e os livros estão muito ligados, na sua génese, e ambos estão a sofrer uma transformação na busca dos seus públicos. Penso que vale a pena fazer essa reflexão de como se podem ajudar, sim.


Morte, crise e perda marcam as nossas vidas há mais de um ano. Que projetos tem em mãos neste momento? São influenciados por essa realidade?
Neste momento estou a acabar de montar uma série, que espero que estreie ainda este ano, e a preparar a rodagem da minha próxima longa-metragem. São projetos muito diferentes um do outro, e apesar de não falarem desta nova realidade pandémica, posso dizer que os temas da dor, da crise e também da morte, andam por lá.

 

Por: Elísio Borges Maia & Marisa Sousa

 


Artigo publicado na edição de abril de 2021 da revista Somos Livros. 

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