Há livros que são armas, tijolos que quebram muros, "machados que quebram o mar gelado em nós" (Franz Kafka), um “tiro de pistola entre a multidão” (André Breton). Portugal e o Futuro de António de Spínola foi um desses livros. Publicado dois meses antes da Revolução sem sangue que mudou para sempre o nosso país, o livro do então militar acabou por ser a arma, a “pedrada no charco”, o “rastilho” (António Valdemar) que colocou em movimento as engrenagens da mudança. Agora, no 50º aniversário da Revolução e da publicação do livro que lhe deu início, João Céu e Silva traça aquilo que descreve como “a biografia de um livro” com O General que Começou o 25 de Abril Dois Meses antes dos Capitães (Contraponto).
Tudo começou quando Spínola tomou contacto com As Crises e os Homens (1971), de Franco Nogueira, um livro que leu como uma provocação a que teria de responder. Sendo alguém que conhecia de perto a situação que se vivia nas colónias na altura — um dos principais pontos que o diplomata tocava no livro —, por ter combatido na Guerra Colonial em Angola e ter desempenhado funções como governador da Guiné, começou a preparar a resposta que considerava adequada; na altura, inicialmente com o título Dúvidas e Certezas. Subsídios para o Equacionamento do Problema Nacional. Entre esta resolução e o dia do lançamento do livro, a 22 de fevereiro de 1974, houve peripécias para escapar à censura da PIDE, um encontro caricato de Spínola com Natália Correia no qual a escritora foi incumbida de o seduzir e convencê-lo a assinar pela editora Arcádia, e um encontro histórico entre o jornalista António Valdemar e o editor Paradela de Abreu que ao entregar-lhe um exemplar de Portugal e o Futuro afirmou, convicto: “Você tem aqui dentro a revolução”.
São esses e outros episódios que antecederam o lançamento de Portugal e o Futuro que João Céu e Silva, vencedor do Prémio Literário Alves Redol pelo romance A Sereia Muçulmana e autor de inúmeros títulos de investigação histórica, relata em O General que Começou o 25 de Abril Dois Meses antes dos Capitães. O que se seguiu foi, segundo o autor, como fogo a arder em mato seco. Em menos de um mês, estavam esgotados cem mil exemplares, tantos quanto vendera um dos livros de maior sucesso dos último cinquenta anos em Portugal, A Selva, de Ferreira de Castro; no total, 230 mil portugueses correram às livrarias para conseguir um exemplar. Com apenas 248 páginas e, em particular, seis palavras que ficaram para a História: “A vitória exclusivamente militar é inviável”, Spínola incendiou um país que percebia agora que o Regime estava preso por um fio.
João Céu e Silva pinta um retrato do país antes, durante e depois da publicação de Portugal e o Futuro. Marcello Caetano, percebendo de imediato o perigo do livro, pediu demissão ao Presidente da República, mas foi recebido com outra frase que ficou igualmente para a História: “ninguém sai. Se (o barco) for ao fundo, vai tudo, vamos todos.” Para vários intervenientes que ofereceram o seu testemunho a Céu e Silva, a publicação da obra de Spínola foi como um 25 de Abril antes do 25 de Abril. Dois meses depois, o barco foi finalmente ao fundo, o regime caiu e o general foi nomeado presidente da Junta de Salvação Nacional.
A História, contudo, não foi favorável a António de Spínola; foi declarado Inimigo da Revolução pela sua ligação à tentativa de golpe de 11 março de 1975, e a sua autoria de Portugal e o Futuro chegou mesmo a ser questionada. No entanto, no final, importa menos quem escreveu de facto estas palavras do que quem as assumiu como suas e as usou como arma de arremesso contra 48 anos de ditadura. Nas palavras do jornalista João Paulo Guerra, cujo testemunho também figura em O General que Começou o 25 de Abril Dois Meses antes dos Capitães: “[Spínola] escolheu a arma certa para deitar abaixo um regime que tanto reprimira o pensamento, os livros e a leitura: arremessou-lhe um livro.” Depois de lido por 230 mil portugueses, ainda que fosse banido, censurado ou até queimado, já nada havia a fazer. A revolução dos leitores era inevitável.