Quando George Orwell escreveu o seu popular romance distópico sobre o então longínquo ano de 1984, estava longe de imaginar que em 2021 os seus leitores continuassem a conseguir identificar ecos deste clássico na atualidade. Ou será que estava? Afinal, em 1984, o autor britânico escreveu que qualquer um que quisesse ter um vislumbre do futuro, só teria que imaginar uma bota a esmagar um rosto humano, para a eternidade... Seja profecia ou a História a repetir-se, as inúmeras reedições deste clássico, setenta anos após a morte de Orwell, provam que Winston, Julia e o Grande Irmão estão vivos e de boa saúde. Entre as recentes reedições, há uma que conquistou um lugar especial no coração dos leitores Bertrand.
Com mais de 76 mil votações, a 5.ª edição do primeiro prémio literário atribuído por leitores e livreiros, o Prémio Livro do Ano Bertrand, elegeu os melhores livros de 2020, em cada uma das cinco categorias: Melhor livro de ficção lusófona, Melhor livro de ficção de autores estrangeiros, Melhor reedição de obras essenciais em prosa, Melhor livro de poesia e Melhor reedição de poesia. Este ano, pela primeira vez, as votações de livreiros e leitores Bertrand foram autonomizadas, pelo que foram aferidos, nas cinco categorias, os preferidos dos livreiros e os preferidos dos leitores. O primeiro lugar na categoria de Melhor livro de ficção de autores estrangeiros (seleção dos leitores), foi atribuído à adaptação a novela gráfica de 1984. Mas, afinal, o que torna esta edição especial?
Disse George Orwell que "todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que outros." O mesmo se poderia dizer desta adaptação de Fido Nesti, o ilustrador brasileiro que deu uma nova vida à distopia orwelliana. 1984 - A novela gráfica é uma oportunidade de reler um clássico canónico de uma forma inteiramente diferente, com ilustrações magistrais que cativam até os leitores menos acostumados a este género literário. Entre as razões pelas quais esta obra continua intemporal, o ilustrador nomeia, numa entrevista, o paralelismo que sentiu existir entre a distopia e a realidade vivida no Brasil durante o período da pandemia: “Foi engatada uma forte marcha à ré e tipos curiosos estão saindo dos porões, gente que não acredita na ciência, nas vacinas, engolem tudo o que o novo governo fala e juram que estão pisando em uma Terra plana”; “Durante o trabalho me vi envolto em pelo menos três distopias: o próprio 1984, a pandemia e o governo brasileiro."
A leitura de 1984, precisamente no ano de 1984, altura em que o Brasil vivia ainda sob um regime ditatorial, teve uma enorme influência no seu trabalho, tendo soado como um alarme que o fez perceber com mais clareza o que se passava à sua volta.
Fido Nesti a trabalhar na adaptação gráfica de 1984.
Para além da obra de Orwell, publicou também, no Brasil, Os Lusíadas em Quadrinhos, tendo adaptado o texto de Luís de Camões, e participou numa coletânea intitulada Irmãos Grimm em Quadrinhos, para a qual ilustrou a célebre história infanto-juvenil A Gata Borralheira.
Em segundo e terceiro lugar na mesma categoria, ficaram os livros A vida mentirosa dos adultos (Relógio d'Água), de Elena Ferrante, e A Cidade de Vapor (Planeta), de Carlos Ruiz Zafón, respetivamente. O primeiro trata-se do mais recente romance da escritora-mistério que conquistou leitores e críticos com a saga composta por A amiga Genial, História do Novo Nome, História de Quem Vai e de Quem Fica e História da Menina Perdida. O segundo, por sua vez, é uma obra póstuma que reúne, pela primeira vez, 11 contos inéditos de Zafón, numa homenagem simbólica ao escritor que nos deixou o ano passado.
Em relação ao livro vencedor, afirma Sara Figueiredo Costa, jornalista no Expresso, que "Fido Nesti faz um trabalho exemplar de redução do verbo ao essencial e constrói uma narrativa que mantém o enredo original sem prescindir do gesto de criação." Para nós, cumpre também o mais alto desígnio que pode ser atribuído a uma obra: o de provar que um clássico é, verdadeiramente, "um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer" (Italo Calvino).
Leia aqui um excerto de 1984 - A novela gráfica.
Saiba mais sobre os restantes vencedores do Prémio Livro do Ano Bertrand 2020 aqui.