Porquê ler Margaret Atwood?

Por: Raquel Fonseca a 2026-02-11

Margaret Atwood

Margaret Atwood

Margaret Atwood é uma das mais celebradas autoras do panorama literário mundial e, além do clássico A História de Uma Serva, publicou mais de cinquenta livros de ficção, poesia e ensaio. Recebeu diversos prémios literários ao longo da sua carreira, incluindo o Booker Prize (por O Assassino Cego, em 2000, e por Os Testamentos, sequela de A História de Uma Serva, em 2019), o PEN America Lifetime Achievement Award e o The British Book Award for Freedom to Publish. Uma das mais ativas vozes na defesa pelos direitos das mulheres, na ficção e na não-ficção, está traduzida em mais de quarenta idiomas. Vive em Toronto.
Margaret Atwood recebeu, em 2022, o título de Doutora Honoris Causa, atribuído pela Universidade do Porto pela «extraordinária qualidade da sua obra literária, a importância da sua reflexão intelectual e a pertinência do seu combate público por uma sociedade mais justa, digna e sustentável».

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Há muitas razões para ler a obra de Margaret Atwood. Uma das vozes feministas mais incisivas da atualidade, esta autora canadiana retrata as forças e interesses que moldam o mundo em vivemos, através da sua ficção especulativa e distópica.

Desde A História de Uma Serva, um livro de 1985 que já se tornou um clássico moderno da ficção científica — e que ganhou uma nova vida na recente adaptação televisiva — até Chamavam-lhe Grace, baseado numa história real, as suas narrativas submergem o leitor em realidades inquietantes, em grande parte devido à sua capacidade de refletir cruamente o mundo real. As suas personagens são lutadoras e enfrentam forças avassaladoras: as suas vidas são alteradas de forma irreversível pela sociedade em que se encontram, mas por mais encurraladas que estejam, não se dão por vencidas. Desde o mundo claustrofóbico e profundamente cruel de Gilead, até a realidade pós-apocalíptica da trilogia Maddaddam, Atwood retrata os interesses perversos do poder com mestria, espelhando os perigos e contradições da nossa própria realidade.

Num momento em que cada vez mais vemos os nossos direitos e liberdades — aqueles que tomámos por garantido graças à militância feminista, anti-racista e queer que marcou o final do século XX — postos em causa de forma cada vez mais normalizada, esta autora desperta-nos. Margaret Atwood relembra-nos que temos agência, que podemos dizer que não, que podemos lutar pela nossa vida e liberdade.

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A História de Uma Serva

Nomeado para o Booker Prize de 1986, e vencedor do Arthur C. Clarke Award do ano seguinte, a sua adaptação pela Netflix (2017-2025) levou esta história dura mas poética muito além das páginas impressas, chegando a milhões de espectadores. A imagética criada neste livro, em especial os robes vermelhos e toucas brancas que compõem o traje das ‘servas’, inspiraram movimentos de protesto feminista em todo o mundo, inclusive em Portugal. No prefácio do livro, publicado pela Bertrand Editora no 40º aniversário da primeira edição, Alberto Manguel descreve a protagonista, Defred, como “uma heroína lendária do nosso tempo”. Em 2022, numa iniciativa da autora em parceria com a Penguin Random House, foi produzida uma edição única do livro — com a particularidade de ser impossível de queimar.

Os Testamentos

Esta é a sequela de A História de Uma Serva, publicado 34 anos depois, em 2019. Decorre 15 anos após os eventos do primeiro volume, e é narrado por Aunt Lydia, uma das antagonistas do livro original, em alternância com mais duas personagens: Agnes Jemima, a filha adotiva de um comandante, e Daisy, uma rapariga que vive no Canadá, fora do estado autocrático de Gilead. Este volume aprofunda a constução deste regime distópico, com os testemunhos destas três mulheres a revelar mais sobre a corrupção, os segredos e as ligações com a rede de resistência Mayday. A sequela foi recebida com louvor pela crítica, como um herdeiro merecedor da aura que envolve a obra icónica que o precede, tendo ganho, em conjunto com Rapariga, Mulher, Outra, de Bernardine Evaristo, o Booker Prize de 2019.

Chamavam-lhe Grace

Baseado numa história real, a de Grace Marks, acusada em 1843 de cumplicidade no homicídio duplo de Thomas Kinnear e Nancy Montgomery, esta incursão na ficção histórica demonstra a brilhante versatilidade de Margaret Atwood. A inocência ou culpa de Grace é o mote central deste romance, que retarta a aliança entre a protagonista e um jovem médico, um pioneiro da saúde mental com técnicas de regressão inovadoras, no desvandar das suas memórias e da verdade. Um escrita intimista, que nos faz refletir sobre como as circustâncias e o preconceito social podem moldar as vidas de uma mulher. A re-edição da Bertrand Editora tem lançamento marcado para 19 de fevereiro: já está em pré-venda, com oferta do livro Colchão de Pedra.

Órix e Crex - O Último Homem

Este romance distópico inicia a trilogia MaddAddam, onde mergulhamos num universo distópico, abordando temas como a biotecnologia e o colapso ambiental. Os três livros decorrem em linhas temporais paralelas e podem ser lidos independentemente, partilhando o mesmo mundo pós-apocalíptico. Enquadram-se, segundo a autora, no género de ficção especulativa e aventura mais do que na ficção científica pura, devido às inovações tecnológicas que motivam a história serem já em alguma medida possíveis na realidade. Nesta obra conhecemos o Homem das Neves, que outrora se chamou Jimmy, um homem que vive solitariamente, acompanhado apenas de um grupo de criaturas primitivas humanoides. As suas memórias revelam um passado intrigante, regido por corporações multinacionais que criam enclaves protegidos de um mundo exterior hostil e em degeneração, e o desenvolvimento de projetos de engenharia genética para a criação de animais híbridos. Conhecemos também Oryx, uma mulher enignmática, e Crake, um génio da biotecnologia responsável por criar uma catástrofe de dimensões monstruosas: um vírus que elimina quase toda a humanidade.

O Ano do Dilúvio

Neste segundo volume da trilogia, vemos a catástrofe biológica que marca o livro anterior, pela perspetiva de novas personagens: Toby e Ren, duas mulheres ligadas ao grupo eco-religioso apelidade de os Jardineiros de Deus. Neste livro, Atwood continua a explorar os efeitos da ciência e tecnologia nas suas aplicações mais extremas, cruzando agora com a questão da religião e fé neste mundo flagelado. A crítica do New Scientist deste livro retrata bem o seu poder evocativo: “Seja onde for que encaixe O Ano do Dilúvio – ficção científica, sátira, ficção especulativa, distopia, alegoria (sinceramente, pouco importa), uma leitura atenta deixa-nos com a sensação de que poderíamos acordar neste mundo.”

Maddaddam

O terceiro livro da trilogia encerra esta odisseia, ligando os vários fios da narrativa desenvolvida. Focado nas personagens Toby e Zeb, que conhecemos do volume anterior, esta sequela retrata a tentativa de reconstruir o mundo por parte dos vários sobreviventes da devastação. Um final emocionante para o épico de ficção especulativa concebido por Margaret Atwood, que nos oferece uma preciosa reflexão sobre o passado e o futuro da humanidade.

Sabia que?

A Margaret Atwood não tem problemas em comer insetos? A autora contou que,como o pai era entomólogo, cresceu habituada a isso e acrescenta que gafanhotos gigantes tostados são deliciosos.

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