Dia Internacional da Saúde Feminina: Lisa Vicente desmistifica o vaginismo

Por: Lisa Vicente a 2026-05-28

Lisa Vicente

Lisa Vicente

Lisa Vicente é médica assistente graduada em Ginecologia-Obstetrícia, com uma pós-graduação em Medicina Sexual e com o reconhecimento de competência em Sexologia pela Ordem dos Médicos.
Fez a sua formação de Ginecologia e Obstetrícia na Maternidade Dr. Alfredo da Costa e trabalhou no Hospital de Torres Vedras (2003-2005). Entre 2005-2009 e 2016-2023, trabalhou na Maternidade Dr. Alfredo da Costa.
Foi chefe de divisão de Saúde Sexual, Reprodutiva, Infantil e Juvenil da DGS (2009-2016). Criou e é ainda responsável pela Consulta de Saúde Reprodutiva da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP) desde 2002. Atualmente, é membro da Direção da Competência de Sexologia da Ordem dos Médicos desde 2017, é presidente do Colégio da Competência de Sexologia desde 2023 e é coordenadora da Comissão da Sexualidade Feminina e Desafios Culturais da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC), na qual é formadora nos cursos de especialização em Sexologia Clínica. É também formadora nos cursos de pós-graduação em Sexualidade Humana (FML-SPSC) e no programa de doutoramento em Sexualidade Humana da Faculdade de Psicologia e Educação do Porto. É autora e coautora de textos e capítulos de livros sobre sexualidade, saúde sexual, saúde reprodutiva e menopausa. Além de ter artigos publicados em revistas de divulgação e mass media, é autora do livro O Atlas da V (2019), em que aborda as questões de género, a resposta sexual, questões práticas sobre a vulva e a vagina ao longo dos anos e a sexualidade em diferentes momentos da vida. Em 2023, recebeu o Prémio Revista Activa na categoria de Ciência.

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O dia 28 de maio marca anualmente uma data muito importante: o Dia Internacional da Saúde Feminina. Instituído em 1987, este dia comemorativo visa relevar esta área da saúde historicamente negligenciada e suprimida, combater a discriminação no acesso a cuidados e sensibilizar para os direitos sexuais e reprodutivos, e celebra simultaneamente a Dignidade Menstrual. Para marcar este dia, convidámos Lisa Vicente, ginecologista, especialista em medicina sexual, e autora de A Revolução da Menopausa e do recentemente reeditado O Atlas da V, para nos explicar tudo sobre o vaginismo — uma das condições mais incompreendidas e envoltas em tabu, apesar do seu enorme impacto nas vidas de quem a experienciam. 


Sara tem 28 anos e nunca conseguiu tolerar uma penetração vaginal desde que iniciou a sua vida sexual.

Variadas tentativas “falhadas”. Não sabe porque é assim… 

Não se recorda de nenhum “trauma ou experiência sexual negativa”.  

Sente que tem dificuldade em relaxar durante os momentos de intimidade. 

Sente-se “tensa quando antecipa uma possível penetração”, que julga ser “desconfortável e dolorosa”.  

O vaginismo consiste na dificuldade persistente ou recorrente em conseguir a penetração vaginal. Quer seja a introdução de um dedo/dedos, do pénis ou de qualquer objeto (exemplo: tampão, dilatador…). Está associada a uma intensa tensão/contração do períneo e das coxas desencadeada pelo toque da vulva, do períneo, ou até da face interna das coxas.  

Normalmente estas mulheres não referem dor com a penetração. Descrevem, sim, a sensação de que “há um obstáculo” que impede a progressão na vagina. Ou o receio de que “vai doer”. Há mulheres que contam que este facto existiu desde sempre. Muitas vezes sozinha ou mesmo num par podem manter-se assim, sem procurar ajuda durante anos. Muitas vezes é a vontade de ter filhos que leva a procurar ajuda para engravidar. Mas nem sempre é assim. Há mulheres para quem esta questão se torna um “problema” que a própria quer resolver (“Quero resolver isto, quero ser normal”).  

“Só eu tenho isto.” 

O vaginismo ocorre em cerca de 10% das mulheres e serve de exemplo para falar de como muitas mulheres/pares que vivem esta situação de dificuldades pensando que é uma “situação única”, desconhecendo que existem mais pessoas a viver a mesma experiência.   

Muitas dificuldades sexuais têm uma resolução simples se tivermos a informação correta.  O conhecimento correto sobre o nosso corpo, sobre a forma como ele funciona é um caminho para resolver dificuldades que interferem na nossa vivência da sexualidade e ou intimidade.  

“Será que isto é normal?”

Tal como para todos nós é natural que as caras e as mãos sejam todas diferentes, é curioso que não seja óbvio que todas as vulvas, úteros e ovários sejam todos diferentes.  

Muitas vezes apenas conhecemos as imagens do livro escolar com esquemas dos órgãos genitais ou de imagens online, sempre semelhantes entre sim. Pouco reais, na verdade, porque são esquemáticas ou têm muito trabalho de edição.   

Por isso, muitas vezes cada pessoa com vulva, pode achar estranho a forma ou a assimetria dos lábios vulvares quando se compara com estas imagens.  Pode sentir-se confortável ou desconfortável. Segura ou insegura. Sendo que o desconforto e/ou insegurança estão muitas vezes associadas à ideia de se sentir «diferente», ou ao receio sobre a «normalidade» da sua vulva (genitais). É, em nome destes conceitos e preocupações, que em vários países têm aumentado o número de cirurgias de embelezamento e rejuvenescimento da vulva e da vagina.  

Nos anos mais recentes, a par de vários livros sobre a vagina começaram a surgir projetos cujo objetivo é falar da vulva e mostrar a sua variedade. Abordar as histórias, as dificuldades e as conquistas nesta luta contra a normalização, para cada pessoa possa viver melhor com o seu corpo.  

"A minha libido anda muito em baixo!"

Dependendo de quem a diz, esta expressão pode ter diferentes significados. A maioria das pessoas usa-a para se referir à falta de interesse ou desejo sexual. Mas será que conhece bem a forma como decorre a resposta sexual?  

Aprendemos como funciona a digestão ou o coração, mas muitas vezes não nos foi ensinado como decorre a resposta sexual. E por isso podemos ter expectativas incorretas. Ou não sabemos que todas as fases estão interligadas e que por exemplo a motivação é essencial para perpetuar o círculo de estar disponível para iniciar uma nova interação /experiência sexual. Ou seja, o conhecimento é essencial para viver melhor a nossa sexualidade.


Sugerimos também, para quem quer ler mais longe...

  • A novela gráfica Impenetrável, de Alix Garin, aborda a experiência do vaginismo através de uma narrativa visual cheia de cor, expressividade e emoção.
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