Podemos pensar em Pedro Vieira como um verdadeiro homem do renascimento contemporâneo: para além da escrita, é também ilustrador, guionista, pivô televisivo e profissional da comunicação no meio cultural. Neste texto exclusivo, fala-nos do seu novo livro Vénus em Chamas, um híbrido entre a história ficcionada e o rigor da investigação, que expõe a instrumentalização da mulher nas perniciosas narrativas do poder, através da história de sete mulheres reais da nossa História partilhada.
Já escrevi livros de ficção, de reportagem, de crónicas mais ou menos humoradas. Esta Vénus em Chamas é outra coisa e responde a um momento de transição: não é um livro de História, mas é um livro de histórias, centrado sobretudo no controlo das narrativas (quase sempre imaginadas por homens) e no poder que estas emprestam a quem exerce esse controlo. Aqui, fala-se de figuras que se levantaram do chão para figurarem nas grandes crónicas da humanidade, mas que nem sempre conseguiram manter-se de pé. Mulheres que vivem no imaginário de milhões, que a espaços se emanciparam dos mitos e das narrações gravados na pedra; mulheres que aqui e ali até foram capazes de tocar com o seu exemplo a alma de estranhos, a inspiração de artistas, a esperança de anónimos.
Cada capítulo abre com uma pequena ficção, porque também de invenção, de especulação, se fez boa parte do percurso de cada uma das sete figuras retratadas neste volume. Depois, entramos no campo dos factos, dos registos e também da interpretação, mostrando com exemplos que a História é uma disciplina que se constrói uma vez e outra pela mão dos vencedores; revelando quem é relegado para as sombras e quem é utilizado como artefacto, como instrumento. Ao serviço de Deus, como foi tantas vezes o caso, o que é equivalente a dizer ao serviço dos homens.
As sete mulheres que são todas
Nesta Vénus em Chamas há sete figuras principais – Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena, Teodora de Constantinopla, Joana d’Arc, Fillide Melandroni, Harriet Tubman e Lúcia de Jesus, popularmente conhecida como Irmã Lúcia. São sete figuras chave para o contar das mulheres do ponto de vista do Ocidente, geografia e espaço intelectual que resulta de uma miscelânea greco-romana, judaico-cristã, democrático-participativa e imperialístico-oportunista, entre outras conjugações. Tudo isto resulta de uma construção levada a cabo ao longo de séculos, tantas vezes com a ajuda do cimento católico apostólico romano e do famoso bestseller literário dividido em duas partes chamadas Antigo Testamento e Novo Testamento. E com a ajuda daquilo que ficou de fora do cânone e do acesso legítimo ao poder, entre evangelhos apócrifos e direitos das mulheres, porque excluir, esconder, proibir, também é mandar.
Neste Vénus em Chamas, sete mulheres são chamadas a testemunhar, mesmo que por via indireta, o que é uma forma tímida de sacudir-lhes o pó do tempo e de libertá-las simbolicamente dos espartilhos que lhes moldaram as vidas; cintas e justilhos morais e físicos que lhes permitiram maior ou menor agência e autonomia, consoante os casos, as épocas, as personalidades. Maria é um arquétipo utilitário de pureza (uma mulher-utensílio a quem Jesus nunca chega a chamar “mãe”), cuja imagem parece ter bebido da deusa Atena clássica. Madalena é uma proscrita ao retardador, vilipendiada 500 anos depois de ter vivido ao lado de Jesus. Teodora foi quase apagada da história, ficando para a posteridade como depravada, bruxa, ilustração do Mal, graças ao relato de um só homem, Procópio. Joana d’Arc foi usada, levada aos píncaros, deixada cair e consumida pelas chamas (sem metáfora). Fillide Melandroni ficou oficialmente para memória futura como “cortigiana scandalosa”, embora tenha dado rosto a santas do alto panteão católico nas telas de Caravaggio. Harriet Tubman viveu as mazelas físicas e mentais da escravatura, chancelada pelo já referido bestseller cristão. Lúcia de Jesus, imaginada vidente, foi feita prisioneira aos 13 anos, sem direito à liberdade. Condicional ou outra qualquer.
Nesta Vénus em Chamas há sete figuras principais – Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena, Teodora de Constantinopla, Joana d’Arc, Fillide Melandroni, Harriet Tubman e Lúcia de Jesus, popularmente conhecida como Irmã Lúcia.
Por estas páginas correm igualmente motivos recorrentes, como a importância do fogo – sabedoria e danação, em igual medida –, a importância da Arte para a construção das identidades, o entrelaçar de narrativas e a contaminação de ideias, pois nada nasce do vazio. Muito menos a subalternização das mulheres.
Revisionismo à boleia do digital e uma ideia de luta
Um dos temas do momento é o recrudescer da cólera anti mulheres, com especial relevo no mundo digital, mas com todo o potencial de transvase para o dia a dia de carne e osso. Lemos sobre o fenómeno dos incels, sobre o crescimento da chamada “machosfera”, vão brotando artigos de fundo e estudos que indicam que a inversão de marcha nos direitos iguais e universais pode estar a meia-dúzia de campanhas eleitorais de distância. Homens jovens sentem-se diminuídos, acossados, afogados em terias da conspiração e em fake news. Ou seja, mentiras. Tudo isto acontece neste mesmo mundo dito ocidental, que permitiu uma soberania recente a metade da humanidade. Noutra paragens, e por inúmeras razões, entre as quais a maldição da Fé, o caso é ainda mais grave e as pouco mais de 200 páginas deste Vénus em Chamas não conseguiriam abarcar tanta causa e efeito.
Um pouco por todo o campo das democracias liberais, cresce o conservadorismo político de feição radical, no qual cabe a ideia de que “as mulheres já foram longe demais”. De que as mulheres falam demais.
Um pouco por todo o campo das democracias liberais, cresce o conservadorismo político de feição radical, no qual cabe a ideia de que “as mulheres já foram longe demais”. De que as mulheres falam demais. Algumas das mulheres protagonistas deste volume falaram de menos, e houve sempre alguém que falou por elas, amiúde em termos infames. Aqui contam-se histórias ao redor de apenas sete figuras, mas há séculos que a existência das mulheres, milhões delas, é terreno aberto para todo o género de delírios e desaforos dos homens. As suas vidas — terrenas ou espirituais — foram e são instrumentalizadas ao sabor das novas ordens e dos sistemas de poder que frequentemente contrariam a nossa natureza, com particular prejuízo para a metade feminina da nossa vaidosa e errática espécie.
Aqui contam-se histórias ao redor de apenas sete figuras, mas há séculos que a existência das mulheres, milhões delas, é terreno aberto para todo o género de delírios e desaforos dos homens.
Este livro traz uma narrativa híbrida, entre reconstituição histórica ficcionada e investigação, tratando de sete mulheres que são todas as mulheres, sujeitas ao poder deles, e cujas existências foram contadas e adulteradas para servir uma narrativa ardilosa que bloqueia com eficácia qualquer tentativa de emancipação coletiva. As histórias reais de Maria, Maria Madalena, Teodora, Fillide, Joana, Harriet e Lúcia refletem a forma como a História e a Arte as apresentaram, representaram e imolaram, tantas vezes despindo-as de qualquer agência ou autoridade sobre si mesmas. E servem como pequena arma de arremesso contra os apelos ao silenciamento delas.
O campo de batalha está aí, é bom que nos preparemos para a luta, com todos os meios ao dispor. Mesmo que em forma de livro.