Portugal, 2028. Com 117 deputados fascistas na Assembleia da República, a extrema-direita chegou ao poder e começou a retirar direitos às minorias e a restringir o acesso do povo à informação. Enquanto isso, no Sul de Portugal, uma família cumpre a sua tradição anual de matar um fascista por ano, vindicando todos aqueles que foram pessoalmente vitimizados pelo fascismo, até que este deixe de ser uma ameaça.
Se em 2020, data da estreia da peça Catarina e a beleza de matar fascistas, esta evocava o momento em que a extrema-direita conquistou representação parlamentar pela primeira vez em Portugal, e episódios vindos do outro lado do oceano (como a eleição de Donald Trump, nos EUA, e de Jair Bolsonaro, no Brasil), em 2024, com a eleição de 50 deputados do partido de extrema-direita Chega pelos portugueses, ela ganha todo um novo sentido premonitório. No mesmo ano em que comemoramos o 50º aniversário da revolução que derrubou o fascismo em Portugal, o texto de Catarina e a beleza de matar fascistas chega às livrarias, e é mais pertinente do que nunca.
Publicado pela editora Tinta da China, com data de lançamento no dia 18 de abril de 2024, o livro homónimo reproduz na íntegra o texto do dramaturgo Tiago Rodrigues que levou membros da audiência a revoltarem-se perante o que viam e políticos nacionalistas a exigir que fosse retirada de cena. Com posfácio do jornalista Gonçalo Frota, convida ainda o leitor a acompanhar todo o processo criativo do mesmo, desde as primeiras discussões de ideias numa residência artística no Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo, até atingir uma dimensão tal que esgotou todos os palcos por onde passou.
Tendo sido reconhecida com o Prémio de Melhor Espectáculo Estrangeiro em França e Itália, esta peça que contou com grandes nomes nacionais no elenco original, como Romeu Costa e Sara Barros Leitão, não perde nenhuma da sua força em papel. Refletindo sobre temas como o paradoxo da tolerância de Karl Popper, a possibilidade de usar a violência como forma de alcançar a paz, colocada por Bertolt Brecht, o problema da violência doméstica levantado pelo caso polémico do juiz Neto Moura, ou o centralismo que relegou o interior do país ao esquecimento, é uma homenagem poderosa a Catarina Eufémia, a ceifeira de Baleizão que perdeu a sua vida às mãos da PIDE, e a todas as Catarinas do mundo que não se calam perante a injustiça.
E, afinal, como é que chegámos a este ponto, em que a vida imita a arte, com a extrema-direita a conquistar terreno? «Com a opiniãozinha. Explorando o medo e o preconceito. Mentindo. Manipulando. Criando a infra-estrutura da impunidade. Os alicerces do edifício fascista. Agora vale tudo. Porquê? Porque nós permitimos que eles continuassem a falar, a falar, a falar. Que nojo. Há anos a ouvi-los. Cada vez mais opiniões.
Cada vez mais vozes fascistas. E nós a ouvi-los. Uma náusea. Uma impotência. Uma vontade de matar. E queres tu que eu o deixe falar? Para fazer um dos seus discursos? As palavras são poderosas, Catarina. Devias saber isso. Os discursos que ele escreveu, agora são leis. Amanhã serão artigos da Constituição. E onde é que começou? Na opiniãozinha. A maldita opiniãozinha que ninguém teve a coragem de matar à nascença.»