O trabalho de Sara Barros Leitão retira da invisibilidade e do esquecimento as personagens secundárias de que não reza a história – fazendo lembrar a frase de Lídia Jorge “a arte é uma revolta contra a história”, mote para uma conversa de mais de duas horas com uma mulher e artista que traz na voz uma força imensa e não quer menos do que mudar o mundo: este mundo de crescente desigualdade, este país profundamente assimétrico, em que despontam novas formas de censura e se explora a situação precária dos trabalhadores da cultura, esta sociedade em que as mulheres mantêm uma dupla jornada. A sua determinação e uma desarmante simpatia fazem-nos acreditar que tudo isso é possível.
Partilhamos consigo a parte final desta entrevista, publicada em três partes no nosso blogue.
Confessaste, em mais do que uma ocasião, que o palco te causa mais sofrimento do que prazer, o que não te desmobiliza, uma atitude contrastante nesta sociedade que foge a toda a espécie de dor — a sociedade paliativa que o filósofo Byung-Chul Han descreve num livro recentemente publicado. O sentido da tua vida, o que te move, não é a procura da felicidade?
Essa dor e sofrimento, de que falo, são saudáveis e até positivos, porque me mantêm ativa, acordada, fazem-me questionar, provocam-me. Não fujo a eles por vários motivos: primeiro, porque estão intimamente relacionados com este lugar público de fala e de responsabilidade, e da possibilidade de, através da minha voz, se normalizarem algumas coisas que eu posso contribuir para normalizar. Por exemplo, cresci a ouvir artistas, quando confrontados com a questão “Que conselho daria a um jovem artista?”, responderem: “É necessário trabalhar muito”. De facto, é preciso trabalho, mas não me parece que esse seja um bom conselho, porque vai gerar muita frustração. Há pessoas que trabalham muito, a vida toda, e nunca vão ter as oportunidades certas, porque a vida também é sobre o ponto de onde partimos e sobre estar no sítio certo à hora certa. Esse conselho nunca me ajudou e demorei a perceber que não me ajudava. Uma das grandes lutas da minha vida, que está também muito representada no meu trabalho e no tipo de criações que, como artista, quero fazer, é a questão da desmistificação das condições de trabalho. Estamos a caminhar para um sítio que é muito pouco saudável, no que diz respeito às nossas relações laborais.
Num dos textos publicados no teu site, em que evocas grandes escritores e escritoras que te precederam, perguntas: “O que podem as minhas palavras ou a minha voz acrescentar num mundo em que parece que já tudo foi feito? Pergunto isto com o mesmo espanto com que ando espantada de existir, como nas Aventuras do João Sem Medo, do José Gomes Ferreira. (…) E fico tranquila por pensar que também o meu nome poderia ser título de livro As Aventuras de Sara Sem Medo”. Qual é o papel da escrita na vida da Sara Sem Medo?
(risos) Essa pergunta é muito mais bonita do que a resposta que eu possa dar. (silêncio) É difícil responder a isso. São vários os papéis: por um lado, ocupa um papel prático, de sobrevivência. Um dos dias mais importantes da minha vida foi aquele em que percebi que juntando letras formava palavras. As palavras passaram a ter um significado e isso empoderou-me. A escrita tem, por isso, também esse papel de dar significado ao mundo e de me ligar ao futuro e ao passado. Através da escrita, consigo dialogar com Homero e deixar coisas para quem vem a seguir. Isso é poderoso. Voltando à referência “sem medo”, é importante saber que vivo num momento do país em que posso escrever o que quiser, sem filtro, sem ser censurada. Escrevo porque preciso, porque é a melhor forma que tenho de me expressar, de comunicar, e, simultaneamente, escrevo para que fique registado.
"Através da escrita, consigo dialogar com Homero e deixar coisas para quem vem a seguir. Isso é poderoso."
Em 2017, nas Jornadas de Teatro do FITEI, leste “Texto Provocador” sobre o tema Circulação e Acesso às Artes, escrito com os contributos de vários criadores, de diferentes idades e regiões portuguesas, que corresponderam ao teu desafio. Quatro anos depois, ainda temos dois Portugais? Terá ainda razão de ser a frase de João da Ega (“o país está todo entre a Arcada e São Bento”)?
Seria desonesto da minha parte não reconhecer alguns avanços que este governo foi encetando. Há uma série de diplomas em cima da mesa — o da Rede de Cineteatros, a fixação de projetos artísticos no interior, entre outros — que tentam corrigir esse tipo de assimetrias. Nos últimos dez anos não tivemos isso. Não podemos, no entanto, achar que é apenas através da cultura que se vai corrigir as assimetrias brutais com que o país vive se as portagens continuam elevadas, se não há hospitais, se não há emprego... Tem de haver emprego no interior do país, caso contrário, porque quererão as pessoas lá ficar? Podemos criar redes de cineteatros, e ainda bem que as criamos, mas quem irá assistir a esses espetáculos? Para que queremos uma rede de cineteatros? Para que os espetáculos de Lisboa circulem mais pela província? Isto é muito importante, mas, por outro lado, muito perigoso. Existem artistas em todo o país a tentar trabalhar e que, muitas vezes, têm grandes dificuldades em relacionar-se com as autarquias. Há uma série de autarquias no país onde o valor que existe para a cultura é para pagar autocarros para ir a Fátima. Muitos artistas que trabalham nesses locais desunham-se a trabalhar durante dez, quinze anos e nunca chegam a ter o apoio do município, porque não são reconhecidos como essenciais para aquele território. Portanto, sim, existem dois Portugais ou até mais.
"Não podemos achar que é apenas através da cultura que se vai corrigir as assimetrias brutais com que o país vive."
A propósito do projeto artístico que concebeste para o Teatro Rivoli, (Des)ocupação, que acabarias por cancelar, por ter sido posta em causa a tua liberdade artística, disseste: “Percebi nesse ano que, às vezes, o que tu não fazes é tão importante como o que tu fazes — ou mais.” Mais de quarenta e cinco anos depois do 25 de Abril, choca-te essa censura?
Sim, choca-me muito. Acreditamos que a história não se repete, mas ela repete-se de outras formas, nunca vem com a mesma roupa. Com este projeto, apercebi-me das novas formas de manipulação e de controlo do discurso dominante. Voltamos ao início da nossa conversa. Aos artistas, exigimos que sejam os agentes de denúncia, pagamos-lhes para que possam pensar naquilo que ainda não tivemos tempo de pensar, exigimos que estejam mais à frente, naquilo que o mundo vai ser, e que nos alertem.
No caso do Porto, o que vivemos hoje não pode ser dissociado do que vivemos no passado. O Porto é hoje uma cidade altamente cosmopolita, com uma programação extraordinária. Há que reconhecer todo o investimento e esforço da direção artística do Teatro Municipal do Porto e da Câmara, mas isso não nos pode impedir de criticar o que consideramos que pode melhorar. Viemos de uma fase de seca profunda, que caraterizou os anos de governação de Rui Rio, que cortou todos os apoios que a Câmara dava à cultura, fechou salas de espetáculos e privatizou um teatro municipal. Isto não nos pode impedir de sentir que pode ser ainda melhor, ou que há coisas que não estão bem, ou, mesmo, de pensar se estaremos a ser manipulados pelo poder municipal. O vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto é, há quatro anos, o presidente da Câmara e isto tem de ser denunciado. Houve, por exemplo, um quiosque aqui que realizava as Worst Tours, visitas guiadas pelos sítios mais complicados da cidade, denunciando aos turistas o pouco investimento feito nessas áreas. Esse quiosque foi demolido pela Câmara sem qualquer explicação! Este tipo de nova censura existe.
"Sentimos que o que temos é melhor do que nada. Esta frase é um perigo enorme."
O projeto (Des)ocupação acabou a partir do momento em que me dizem claramente: “Como é que garantes que as pessoas não vão dizer mal do Rui Moreira?”. Encomendaram-me uma ocupação, pediram-me que desafiasse os poderes institucionais, e eu desafiei, só que julgaram que podiam limitar o desafio aos poderes institucionais. Não se pode institucionalizar todas as vozes opositoras. O Porto está a viver uma fase muito linda da sua história, os turistas estão a ajudar a reabilitar a cidade, há investimentos enormes na cultura, mas isto está a impedir que sejamos vozes opositoras, porque sentimos que o que temos é melhor do que nada. Esta frase é um perigo enorme.
O discurso “Pressa do futuro”, que fizeste durante a campanha da candidata presidencial Marisa Matias, teve um grande impacto em quem o viu. Entre muitas outras coisas dizes: “Dizem-nos que não temos nada por que lutar, que nascemos com tudo garantido. Permitam-me discordar. Fazemos parte de uma geração que nada tem por garantido”. Que futuro é esse aonde tens pressa de chegar?
É um futuro onde todas as pessoas podem ser quem são, esclarecidas na luta contra o medo. Os medos e a falta de informação e de esclarecimento provocam ainda mais medos desinformados e perigosos: o medo do estrangeiro, o medo do outro, o medo do diferente. Isto dá origem a movimentos xenófobos e racistas, que são muito pouco bem-vindos no futuro tolerante que eu quero. É muito importante que esse futuro seja feito de vozes plurais, que não seja uma história única. É nas diferenças que se fazem caminhos. Não quero pessoas que pensem igual a mim, quero pessoas que optem pelo caminho da tolerância e da escuta.
O caminho mais fácil é sempre cavar trincheiras, radicalizar, fraturar. O caminho mais difícil é o que tenho tentado traçar, de diálogo e de escuta, mesmo quando o diálogo possa parecer insuportável. As conquistas, muitas vezes, não são globais, são pequenas conquistas diárias. O Romeu Costa, o ator que faz comigo a peça Catarina e a beleza de matar fascistas, usou uma expressão fantástica: “uma agulha de acupuntura no mundo”. Não dá para abarcar o mundo todo, mas, por vezes, aquela agulha, no sítio certo, faz a diferença. Tento ir deixando agulhas de acupuntura e tento estar permeável a agulhas que espetam em mim.
©Eduardo Breda.
Disseste “Eu não posso fazer uma coisa na vida e outra no palco”. “Faço coisas a partir das minhas necessidades e as minhas necessidades, neste momento, não são a contemplação ou a abstração, são coisas concretas que mexem comigo.” Que necessidades concretas fizeram nascer o “Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa”, que estás a preparar?
Este monólogo surge com a leitura de Novas Cartas Portuguesas, um livro de cabeceira que me acompanha há muitos anos, que tem um texto chamado “Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa”. Apropriei-me deste título, como tenho feito em grande parte dos espetáculos que crio: os títulos são roubados a outras mulheres, também como forma de homenagem. Esse texto, sobre mulheres silenciadas, mexeu muito comigo e comecei a interessar-me por esta questão do trabalho doméstico.
Na verdade, a ideia para este espetáculo começa, sem eu saber, em 2018, quando fui convidada para fazer uma visita performativa à Casa da Música (antes de saber que a Casa da Música tinha falsos recibos verdes). A ideia era fazer uma visita para a Administração da Casa e para convidados especiais, algo muito elitista. Passei lá uma semana a preparar a visita e resolvi fazer uma visita, não aos locais principais, mas percorrendo todos os trajetos que as empregadas de limpeza da Casa da Música fazem. Contei as histórias das empregadas de limpeza e da forma como elas viam a própria Casa — Elas, que assistem a visitas guiadas de especialistas que falam sobre a arquitetura, que explicam que o edifício tem escadas muito diferentes porque se quis representar a toponímia irregular da cidade do Porto. Elas ouvem as explicações, mas sabem, por experiência própria, que em nenhuma daquelas escadas cabe a rotativa (a máquina que lava as escadas) e que, por isso, todas as escadas da Casa da Música têm de ser lavadas de joelhos. O objetivo foi olhar para a arquitetura do ponto de vista prático de quem habita o espaço e de quem tem de o limpar. Sem eu saber, este espetáculo já estava em mim.
“Não nos chegam as 24 horas de um dia para sermos a mulher que esperam que sejamos”. — in Cuidar de Quem Cuida
Durante a pandemia, comecei também a ler outras coisas que contribuíram para a ideia deste espetáculo. Por exemplo, li que, no Brasil, no início da pandemia, um casal que ficou infetado depois de umas férias em Itália decidiu não avisar a empregada doméstica e exigiu que ela continuasse a ir limpar-lhes a casa todos os dias. Ela acabou infetada e morreu, deixando uma família. Os patrões, porque tinham acesso a cuidados de saúde, recuperaram. Que humanismo é este? Um outro artigo que me impulsionou para este espetáculo referia que o número de trabalhos científicos (papers) entregues por mulheres, durante a pandemia, diminuiu drasticamente — em proporção inversa, aumentou o número de trabalhos entregues por homens. A ministra Ana Mendes Godinho, no início de janeiro, numa conferência de imprensa, referiu que 86% dos pedidos de subsídio para acompanhamento aos filhos, criado nessa altura, foram apresentados por mulheres. As tarefas domésticas até podem ser divididas no sentido prático (quem lava a loiça ou faz o jantar, etc.), mas há uma dupla jornada, de carga mental de planeamento, que é estruturalmente associada às mulheres: quem prepara a mochila para a escola, os lanches, o medicamento que acabou e é preciso comprar, o peixe que tem de ficar a descongelar, as cebolas que acabaram,… Isto faz com que a mulher esteja sempre a trabalhar, até quando está a dormir. Um dos testemunhos que li no livro Cuidar de Quem Cuida diz que: “Não nos chegam as 24 horas de um dia para sermos a mulher que esperam que sejamos”.
Quis fazer um espetáculo sobre trabalho doméstico, que fizesse este paralelo entre o trabalho doméstico remunerado, quando é feito fora de casa, e não remunerado, quando é feito em casa. A profissão de empregada doméstica é uma das mais racializadas em Portugal: a maioria das nossas trabalhadoras são migrantes, negras e altamente desprotegidas. A relação laboral das trabalhadoras domésticas com seus patrões é muito fragilizada: trabalham sozinhas dentro de casa de outras pessoas. É uma relação que temos de tirar da invisibilidade. Há um resquício esclavagista na relação com os nossos empregados e empregadas domésticos. Quero muito falar sobre isso.
Essa vontade de dar voz às personagens secundárias faz lembrar a frase de Lídia Jorge: “A arte é uma revolta contra a História”. A que outros esquecidos queres emprestar o teu megafone num futuro próximo?
Esta questão do trabalho doméstico está a tomar conta de mim e, com esta, vou dar a outras questões, como a da História das mulheres no mundo, em várias áreas, que me apetece reescrever. É talvez aquilo em que me apetece ir trabalhando nos próximos tempos. Há um conjunto de mulheres cujo trabalho foi esquecido, porque eu e nós nos vamos esquecendo delas. É preciso que façamos um esforço para não nos esquecermos.
Por: Marisa Sousa & Elísio Borges Maia
A entrevista integral pode ser lida na edição de verão da revista Somos Livros.