Afonso Reis Cabral vence Prémio Saramago 2019

Por: Bertrand Livreiros a 2019-10-09 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Afonso Reis Cabral

Afonso Reis Cabral

Afonso Reis Cabral nasceu em 1990. Aos 15 anos publicou o livro de poesia Condensação. É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, fez mestrado na mesma área e tem uma pós-graduação em Escrita de Ficção. Foi duas vezes à Alemanha de camião TIR em busca de uma história, a primeira das quais aos 13 anos. Trabalhou numa vacaria, num escritório de turismo e num alfarrabista. Em 2014, ganhou o Prémio LeYa com o romance O Meu Irmão. No final de 2018, publicou o seu segundo romance, Pão de Açúcar, com forte acolhimento por parte da crítica e vencedor do Prémio Literário José Saramago – Fundação Círculo de Leitores em 2019. Entre abril e maio de 2019, percorreu Portugal a pé ao longo dos 738,5 quilómetros da Estrada Nacional 2, de que resultou o livro Leva-me Contigo – Portugal a pé pela Estrada Nacional 2. As suas obras encontram-se traduzidas em várias línguas. Tem contribuído com dezenas de textos para as mais variadas publicações. É colunista do Jornal de Notícias, semanalmente com a rubrica «Ansiedade Crónica», e participa no programa «Cinco à Quinta», da Antena 1. É presidente da Fundação Eça de Queiroz e trabalha como editor freelancer.

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No dia em que se assinalam exatamente 21 anos sobre o dia em que José Saramago se tornou o primeiro Nobel da Literatura português, foi anunciado o vencedor da vigésima edição do Prémio Saramago, Afonso Reis Cabral . Embora tenha apenas 29 anos, o autor já havia sido reconhecido, em 2014, com o Prémio LeYa, pelo seu romance de estreia O Meu Irmão . Desta vez, deve a homenagem ao seu segundo romance, Pão de Açúcar , obra que António Mega Ferreira , escritor e membro do júri, descreve como “uma das obras ficcionais portuguesas mais arrebatadoras e poderosas dos últimos anos”.

Partindo da história verídica de Gisberta, uma mulher transgénero assassinada no Porto em 2006, Pão de Açúcar entrelaça factos e ficção de forma magistral, resultando num romance vertiginoso e profundamente original. T rineto de  Eça de Queirós , Reis Cabral junta-se agora a outros grandes nomes da literatura, sendo que entre os vencedores das edições anteriores encontram-se autores consagrados como  José Luís Peixoto Gonçalo M. Tavares Valter Hugo Mãe João Tordo  ou  Ondjaki  – o primeiro e, até à data, o único escritor angolano a vencer o prémio. 

 


 

 
 

O Prémio José Saramago,  instituído pela Fundação Círculo de Leitores em 1999, tem um  valor de 25 mil euros e  distingue bianualmente  uma obra literária de língua portuguesa (no domínio da ficção) de  um autor com idade não superior a 35 anos à data da publicação do livro. Desta edição, fizeram parte do júri  a directora editorial do Círculo de Leitores Guilhermina Gomes, a presidente da  Fundação José Saramago, Pilar del Río,  e escritores como Ana Paula Tavares,  António Mega Ferreira Nelida Piñon e Manuel Frias Martins

Sobre esta nobre arte que é a da escrita, declarava Saramago:  “Dificílimo é o ato de escrever, responsabilidade dos maiores”.

 


 

OS TESTEMUNHOS DO JÚRI
 
ANA PAULA TAVARES, POETA E HISTORIADORA

“Narrado na primeira pessoa, Pão de Açúcar lida com o espesso e confuso mundo da memória e retira do esquecimento acontecimentos que os jornais e os relatórios da polícia tinham tratado de forma redutora e parcial com silêncios e omissões que o autor se propõe aqui revelar. Afonso Reis Cabral apresenta um trabalho de linguagem (com a linguagem) que alerta o leitor para o que muda e permanece na escrita do romance e na narrativa dos universos recuperados. O autor mergulha na opacidade dos diferentes mundos da cidade velados pelo silêncio e pelo estranhamento e trabalha novos conceitos de vida, da morte e do amor tal como as leis da violência os alargam e tornam perceptíveis. (…)”

 
ANTÓNIO MEGA FERREIRA, ESCRITOR E JORNALISTA

“(…) Revelando maturidade narrativa e estilística notáveis, fazendo da contenção a arma da progressão do relato, Reis Cabral adota o ponto de vista dos miúdos administrando a construção de um sentimento grupal de medo e ódio (as fronteiras entre um e outro são ténues) que descarrega no seu elo mais fraco a raiva de uma frustração longamente contida. A originalidade da narrativa reside precisamente neste ponto de vista, que faz de Pão de Açúcar uma espécie de romance de (de)formação, um texto que relata a formação de um grupo que se reúne num assassinato, na passagem da infância para a adolescência. (…) O narrador não condena nem atenua as culpas: todos as têm, no tecido esgarçado deste romance, que é uma das obras ficcionais portuguesas mais arrebatadoras e poderosas dos últimos anos .”

 
MANUEL FRIAS MARTINS, ESCRITOR

“(…) Romance compassivo mas nunca sentimental, Pão de Açúcar é de uma parcimónia exemplar no que respeita à linguagem e à imagística, sobretudo face à dramaticidade comovente dos envolvimentos humanos da sua estória. Há uma frescura estilística notável que acaba por equilibrar o próprio potencial trágico da obra, gerando no leitor aquele interesse ou aquele querer saber que nos prende irremediavelmente ao texto que vamos lendo. Este é um livro que nos traz o prazer da literatura pelo mistério de tocar a alma mais pungente da realidade , mantendo-se sabiamente, ao mesmo tempo, dentro das ilusões da ficção. Em suma, este é um grande romance de um jovem autor de quem a literatura portuguesa se pode desde já orgulhar .”

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