8 Curiosidades sobre Mário de Sá-Carneiro

Por: Cláudia Oliveira a 2026-05-19

Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro

Poeta e ficcionista, com Fernando Pessoa e Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro constitui um dos principais representantes do Modernismo português. Partindo para Paris, em 1912, para cursar Direito, estudos que abandonaria pouco depois, a figura de Mário de Sá-Carneiro assume uma importância basilar para a compreensão do modo como o Modernismo português se foi formando com caracteres próprios na recepção das correntes de vanguarda europeias, processo de que a correspondência que estabeleceu com Fernando Pessoa dá um testemunho documental precioso e que culminaria com a publicação de Orpheu, em 1915. Os poemas que edita no primeiro número de Orpheu, destinados a Indícios de Oiro, são, a este título, significativos da sua adesão às estéticas paúlica e sensacionista, que na correspondência entre os dois grandes poetas fora gerada, glosando, então, em moldes muito devedores do simbolismo-decandentismo, a abjecção de um eu em conflito com um outro, reverso da sua frustração e insatisfação ("Eu não sou eu nem o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro", "7"), ao mesmo tempo que a publicação de "Manucure", no segundo número de Orpheu , revela uma incursão por uma forma poética mais próxima da escrita da vanguarda futurista, no que contém de autonomização do significante. Já antes de Orpheu, a colaboração de Mário de Sá-Carneiro na revista Renascença (1914) - onde Fernando Pessoa publica Impressões de Crepúsculo -, com a publicação de Além (apresentado como uma tradução portuguesa de certo Petrus Ivanovitch Zagoriansky), instituíra a sua experiência poética na charneira entre a herança simbolista e as tentativas paúlicas e interseccionistas. Mário de Sá-Carneiro constitui ainda um paradigma da prosa modernista portuguesa pela publicação das narrativas Céu em Fogo e A Confissão de Lúcio, construídas frequentemente a partir do estranhamento de um narrador insolitamente introduzido em situações onde o erotismo, o onirismo, o fantástico, se associam aos temas obsessivos do desdobramento e autodestruição do eu. O seu suicídio, com 26 anos, parecendo vir selar aquele sentimento de inadaptação à vida, de permanente incompletude, de narcísico auto-aviltamento e, sobretudo, de consciência dolorosa da irremediável cisão do eu, consubstanciada na dramática tensão entre um eu, vil e prosaico, e um outro, seu duplo ideal, que alimentaram tematicamente a obra, nimbou-o para a posteridade de uma aura de poeta maldito, que deixaria um forte ascendente sobre a poesia contemporânea de gerações posteriores à sua. Com efeito, a mensagem poética do autor de Indícios de Oiro ecoa postumamente na literatura presencista da geração de 50 e até surrealista, passando por nomes absolutamente diversos como Sebastião da Gama, Mário de Cesariny ou Alexandre O'Neill, entre muitos outros.

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No dia 19 de maio de 1890, nascia em Lisboa um dos poetas mais intensos da literatura portuguesa. Mário de Sá-Carneiro viveu apenas 25 anos, mas deixou-nos uma obra que continua a desconcertar, a seduzir e a surpreender quem a descobre.

Para celebrar os 136 anos do seu nascimento, aqui ficam dez factos sobre a sua vida e obra.

1. Começou a escrever aos seis anos e teve o seu próprio jornal aos catorze

A aprendizagem poética de Sá-Carneiro começou com cerca de seis ou sete anos de idade e a sua curiosidade pelo teatro foi igualmente precoce. Com nove anos, organizava pequenas peças para as criadas e cozinheiras da Quinta da Vitória, em Camarate, onde foi criado. Em 1904, lançou O Chinó, um "jornal académico com pretensões humorísticas" que pôs à venda no quiosque do liceu. Tinha apenas catorze anos.

2. Testemunhou o suicídio do seu melhor amigo, nos tempos de escola

Em 1910, em parceria com Tomás Cabreira Júnior, amigo de escola, Sá-Carneiro escreveu a peça de teatro Amizade, "o primeiro trabalho de vulto", como lhe chamou o crítico António Quadros. Tomás Cabreira suicidou-se no ano seguinte, a 9 de janeiro, no pátio do Liceu de S. Domingos, em frente a professores e colegas. Este incidente, que terá sido fruto de um amor impossível, abalou profundamente Sá-Carneiro. Ao suicídar-se, Tomás Cabreira Júnior mandou destruir todos os seus escritos, e só por mero acaso o manuscrito de Amizade não estava consigo, mas sim com Sá-Carneiro. O poema que Sá-Carneiro lhe dedicou, "A um Suicida", é considerado o seu primeiro grande poema.

3. Escreveu o seu primeiro texto sobre suicídio aos dezoito anos

Em novembro de 1908, escreveu Páginas dum Suicida. A personagem, Lourenço Furtado, deixa sobre a secretária um texto sobre a morte como aquilo que resta na modernidade por explorar: "Não há dúvida: a única coisa interessante que existe atualmente na vida, é a morte!... Pois bem, serei eu o primeiro explorador dessa região misteriosa, completamente desconhecida…" Sá-Carneiro tinha dezoito anos quando escreveu isto. Oito anos depois, acabaria por fazer o mesmo caminho que a sua personagem tinha imaginado.

4. Tinha uma má relação com o seu corpo

A relação de Sá-Carneiro com o próprio corpo era de guerra aberta. Nos textos e cartas a Pessoa, usava denominações cruas e cruéis para si mesmo: "o Esfinge Gordo", o "Papa-Açorda", o "balofo". O desdém ao corpo real que o espelho mostrava, tão distante do eu grandioso que sentia por dentro, atravessa toda a sua obra de forma transversal. Em Dispersão, em A Confissão de Lúcio, no conto "Eu Próprio o Outro": por todo o lado há um narrador que não se reconhece no que vê, que não cabe em si mesmo. Este aspeto da biografia de Sá-Carneiro demonstra como a transversalidade deste tema à experiência humana, mesmo antes de termos as palavras para o nomear.

5. Sylvia Plath e Ted Hughes eram fãs

Não deixa de ser curioso o fascínio que Sylvia e Ted desde logo tiveram pelo poeta Mário de Sá-Carneiro. Hughes traduziu para inglês alguns poemas de Sá-Carneiro, nomeadamente 'Caranguejola'. Já Plath interessou-se sobretudo pelo romance A Confissão de Lúcio e as ideias de duplicidade exploradas neste romance. O testemunho é de Helder Macedo, escritor e professor de literatura portuguesa no King's College de Londres, que foi amigo próximo do casal. Duas das vozes mais perturbadoras da poesia do século XX, ambos marcados por tragédias pessoais, encontraram em Sá-Carneiro um espelho de algo que reconheciam em si mesmos.

6. A obra-prima Indícios de Oiro só foi publicada vinte anos depois da sua morte

Sá-Carneiro escreveu Indícios de Oiro, mas este livro não foi publicado até mais de vinte anos após a sua morte, em 1937, na revista Presença. O verso mais citado da literatura portuguesa modernista, "Eu não sou eu nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio", pertence a este livro. Durante décadas, ficou numa gaveta.

7. Morreu vestido de smoking, como se fosse a uma festa

Às oito da noite de 26 de abril de 1916, Sá-Carneiro engoliu cinco frascos de estricnina no seu quarto do Hotel de Nice. O amigo José Araújo encontrou-o já nos derradeiros momentos, impecavelmente vestido de smoking, como se fosse a uma festa de gala. Sobre o fogão do quarto havia algumas cartas de despedida, uma declaração pouco legível de que se envenenara voluntariamente, e algumas moedas, o único dinheiro que possuía, encontradas por um polícia no bolso do colete.

8. O seu túmulo desapareceu

Sá-Carneiro foi enterrado a 29 de abril no cemitério de Pantin, em Paris, numa sepultura alugada por cinco anos renováveis mas, após 1949, o local desapareceu. E não foi só o corpo que se perdeu: no Hotel de Nice ficou uma mala com os seus papéis, usada como penhora até as suas dívidas serem saldadas. Quando o seu pai lá passou em 1928, encontrou apenas roupa velha. Todos os documentos tinham desaparecido, incluindo o manuscrito de um texto em prosa chamado Mundo Interior, do qual não existe qualquer rasto até aos dias de hoje.

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