Louisa May Alcott foi escritora de ficção e poesia. No seu longo currículo, constam também a profissão de governanta, costureira, professora e, inclusive, enfermeira. Ficou para sempre conhecida pela obra As Mulherzinhas, publicada em 1869. Com traços autobiográficos, esta obra transporta-nos para o quotidiano das irmãs March, enquanto aguardam pelo retorno do pai, combatente na Guerra Civil Americana (1861-1865). Tal como Josephine (Jo) March, heroína da história, também Alcott foi a segunda de quatro irmãs, revelando a mesma atitude inconformada para com a sociedade e, de uma forma ainda mais notória, perante o papel da mulher na época.
Passados mais de 150 anos desde a sua publicação, As Mulherzinhas mantém-se atual e popular, e foi escolhido, pelos leitores Bertrand, como Melhor reedição de obras essenciais em prosa, no âmbito da 5.ª edição do Prémio Livro do Ano Bertrand. Mas o que torna um romance juvenil, escrito no século XIX, numa obra essencial nos dias de hoje?
A autora escreveu este livro inspirada em pequenos detalhes da sua vida. Enquanto o pai das irmãs March combatia na Guerra Civil Americana, Bronson Alcott era um fanático religioso incapaz de sustentar a família. Por essa razão, Louisa e as três irmãs sobreviviam da caridade de familiares e amigos, acabando por não viver juntas (The Atlantic). À luz dos acontecimentos que marcaram a vida de Louisa May Alcott, As Mulherzinhas transforma-se quase como uma carta de amor à família e, em especial, às irmãs, tomando como ponto de partida a relação especial de Jo, Beth, Amy e Meg.
“Quero fazer qualquer coisa esplêndida antes de ir para o meu castelo, algo heroico ou maravilhoso que não seja esquecido depois da minha morte.” – Josephine March
As Mulherzinhas tornou-se numa obra de referência em todo o mundo. Por um lado, os críticos destacam o lado feminino da história, ao retratar quatro jovens na sua passagem para mulheres adultas. Por outro, é impossível ignorar o heroísmo e protagonismo de Josephine March e as suas semelhanças com a própria autora.
Alcott apoiou o fim da escravatura e foi uma das primeiras feministas e sufragistas nos Estados Unidos da América. A autora nunca aceitou as normas impostas pela sociedade, acabando por não casar e dedicando-se ao seu trabalho enquanto escritora.
Também Jo viveu mediante as suas próprias regras. Dedicada aos livros e à escrita, acabaria por se casar anos mais tarde, diferindo aqui de Louisa May Alcott, mas fazendo-o por escolha própria e não por uma questão de conveniência. De espírito rebelde, com uma personalidade forte e vincada, a segunda irmã March mostra, desde o início da história, do que é realmente feita:
"Nem quero pensar que tenho de crescer, ser uma Menina March, usar vestidos compridos e ser empertigada como uma flor, quando prefiro os jogos dos rapazes, o trabalho e os seus modos descontraídos. Não me conformo com o facto de não ser rapaz, e muito mais agora, que gostava de lutar ao lado do nosso pai e tenho de ficar em casa a tricotar como uma velhinha preguiçosa!" – Josephine March
Edição original de Mulherzinhas, ilustrada pela irmã mais nova da autora.
Uma obra essencial, 150 anos depois
O Prémio Livro do Ano Bertrand distingue, todos os anos, obras literárias em prosa e em poesia. Lançado em 2017 pela Livraria Bertrand, este é o primeiro prémio literário, em Portugal, atribuído por livreiros e leitores de todo o país. Na 5.ª edição deste galardão, foram mais de 76 mil votos os que elegeram as melhores obras de 2020 em cada uma das cinco categorias: Melhor livro de ficção lusófona, Melhor livro de ficção de autores estrangeiros, Melhor reedição de obras essenciais em prosa, Melhor livro de poesia e Melhor reedição de poesia.
Na categoria de Melhor reedição de obras essenciais em prosa, As Mulherzinhas, da editora Relógio D’Água, foi a escolha dos leitores, colocando em segundo lugar o clássico O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (que alcançou o primeiro lugar na escolha dos livreiros).
O representante da editora, Francisco Vale, não escondeu o orgulho e salientou a importância “de um elevado número de leitores da mais antiga livraria do mundo” terem escolhido como vencedoras as obras da Relógio D’Água.