Muito mais que um passatempo, os livros-jogo levam a leitura para um novo patamar de interatividade, e a sua história faz parte da cultura pop do século XX. Também conhecidos como livros gamificados, estes livros assumem as mais variadas formas: há os que nos levam em aventuras audaciosas por mundos fantásticos, cheios de perigo e magia; há aqueles para os fãs de um bom mistério, pondo à prova as capacidades de dedução lógica e a apetência para puzzles; e há, por fim, também algo para os recém-iniciados na arte da leitura e no mundo de diversão proporcionado por um bom jogo.
Se já está com vontade de jogar, temos muitas sugestões para si... vai aceitar o desafio?
Escolhe o teu caminho: livros ao estilo RPG
Esta série clássica, originalmente lançada na década de 80 no Reino Unido e em Portugal, com o nome Aventuras Fantásticas, ganhou um novo fôlego com as reedições pela Porto Editora. Estas têm recuperado, desde maio de 2025, os livros originais, assim como novos volumes assinados por autores que decidiram juntar-se a esta saga.
Criada originalmente por Steve Jackson e Ian Livingstone, designers de jogos e fundadores da Games Workshop (célebre pelo franchise Warhammer), esta coleção inova pela conjugação da lógica dos “role-playing games”, frequentemente abreviados para jogos RPG — com o formato do livro. Estes livros, primorosamente ilustrados, lêem-se (e jogam-se) com dados e lápis na mão: o leitor assume uma verdadeira personagem, contando com atributos como a agilidade, força ou perícia, um inventário de objetos e um sistema de sorte a limitar as suas escolhas e a moldar o desenrolar da história.
Curiosidade: Esta série foi originalmente encomendada pela Penguin, que decidiu apostar neste formato depois de um editor observar cerca de 5 mil pessoas a jogar o RPG Dungeons & Dragons em simultâneo num evento de jogo, em 1980. Inicialmente pediram um guia prático sobre o jogo, mas os autores propuseram antes um livro interativo para o público juvenil. A primeira tiragem esgotou rapidamente, e a série chegou aos 59 livros, percorrendo a fantasia, a ficção científica e o terror. Hoje, esta é uma coleção com estatuto de culto, gerando um novo fenómeno — desde os fãs originais até aos mais jovens, que descobrem pela primeira vez o encanto retro desta série icónica.
A edição em Portugal da coleção intemporal Goosebumps, de R. L. Stine, fez furor em 2010, marcando a infância de muitos leitores e abrindo caminho para série como Five Nights at Freddy's. Esta coleção dos anos 90, que apresenta o género do terror ao público juvenil, foi adaptada a séries televisivas (em 1995 e 2023), a uma série de videojogos e a duas longa-metragens protagonizadas por Jack Black (2015 e 2018).
Esta é uma das coleção oficiais do franchise Dungeons & Dragons, da autoria de Rose Estes, uma das pioneiras deste género literário. Enquanto trabalhadora da empresa americana Tactical Studies Rules, detentora do império D&D, Rose desenvolveu os primeiros nove livros da coleção, que foram bestsellers entre 1982 e 1983, tendo também assinado as suas séries independentes de ficção científica.
Talvez a coleção mais histórica, que iniciou e deu nome ao género dos livros-jogo. Publicada inicialmente em 1976 pela Bantam Books, a partir do conceito e narrativas criadas por Edward Packard, é uma série que perdura até hoje, com edições adaptadas aos mais variados universos, desde histórias de unicónios a tramas de espionagem com Josephine Baker. A única edição no mercado português é de 2024, editada pela Booksmile e com tradução de Elga Fontes, e mergulha no universo da série Stranger Things.
Puzzles e enigmas: o prazer de pensar como um detetive
Torquemada é o pseudónimo de Edward Powys Mathers, tradutor e poeta inglês nascido em 1892, e autor de A Mandíbula de Caim, um autêntico objeto de culto. Este livro é extremamente particular: as suas 100 páginas estão desordenadas, paginadas por uma ordem errada, definida pelo autor. O objetivo? Encontrar a ordem correta — e acredite, não é fácil.
O autor foi um dos pioneiros das palavras cruzadas crípticas (puzzles em que cada pista é ela própria um jogo de palavras), que concebia para o jornal The Observer desde 1926 até a sua morte, sob o mesmo pseudónimo com que assinou este livro único. Esta experiência foi certamente crucial no desenvolvimento deste puzzle literário, um dos mais originais murder mysteries alguma vez concebidos. Apesar do seu desaparecimento após a publicação original em 1934, a reedição de 2019 pela Unbound é hoje um sucesso de vendas, fenómeno precipitado pelos vídeos de Sarah Scannell no TikTok a documentar o seu moroso progresso a resolver o livro.
Curiosidade: Quando este enigma foi inicialmente divulgado, foi prometido um prémio de £25 ao primeiro leitor capaz de reordenar as páginas e dar um esclarecimento completo sobre as seis personagens assassinadas no livro, e a identidade dos seus assassinos. Duas pessoas conseguiram resolve o puzzle em 1935, ganhando ambos a totalidade do prémio monetário. Aquando da reedição de 2019, a editora decidiu recriar a competição mais uma vez, com um prémio de £1,000 (mais ou menos equivalente ao valor de £25 nos anos 30), e em 2020 foi anunciado que o comediante e especialista em palavras cruzadas John Finnemore tinha conseguido resolver o puzzle, num período de 6 meses durante o confinamento do Covid-19.
Sobre este sucesso, Finnemore disse:
"A primeira vez que olhei para aquilo, pensei logo: 'Isto é impossível.' A única forma de eu sequer ter uma hipótese seria se, por algum motivo bizarro, ficasse preso na minha própria casa durante meses a fio, sem ter para onde ir nem ninguém para ver. Infelizmente, o universo ouviu-me."
A fórmula Murdle, criada pelo norte-americano G. T. Karber, tornou-se um dos maiores fenómenos editoriais dos últimos tempos, e Portugal não escapou ao contágio. Cada volume convida o leitor a vestir a pele do personagem Dedutivo Lógico, cruzando as pistas de cada puzzle numa grelha que combina três variáveis: suspeitos, armas e locais. O sucesso abriu caminho a um universo de spin-offs, tais como o Murdoku, que junta o espírito dedutivo ao rigor do sudoku, e o Miaudle, no qual os temíveis criminosos são na verdade um bando de gatos mal-comportados.
De Dr. Gareth Moore, em parceria com Laura Jayne Ayres, esta coleção aposta na narrativa: em vez de casos isolados, acompanha os cinco detetives amadores da aldeia fictícia de Wobberly End ao longo de mistérios sucessivos, com mais de 70 enigmas por volume. O resultado está a meio caminho entre o puzzle e o romance de aventura pelo qual o leitor só avança se resolver os desafios pelo caminho. Do mesmo autor, vale também explorar o Escape Room, que troca a vila inglesa por uma sala de escape simulada no papel.
Assinado pelo Dr. Vasco Catarino Soares, psicólogo clínico e neuropsicólogo especializado em estimulação cognitiva, Criminalia traz uma interpretação nacional ao universo dos livros-puzzle. O leitor assiste o Inspector Manuel Massada — um polícia à beira da reforma, mordaz e sem paciência para o trabalho — ficando encarregue de resolver os 40 casos que o inspetor já não consegue ou não quer investigar. Mais do que um livro de enigmas, é proposto como um exercício de treino mental disfarçado de jogo, aliando ciência cognitiva e entretenimento.
Livros-jogo para os mais pequenos
Da Porto Editora, esta coleção infantil, para crianças a partir dos 4 anos, leva o conceito de livro interativo ao público mais novo, com a complexidade da narrativa simplificada em dilemas simples e divertidos. Em Ter um Irmão Tubarão ou uma Irmã Raia?, por exemplo, a criança vai decidindo entre opções absurdas e imaginativas, sem nunca haver resposta certa ou errada, descobrindo pelo caminho curiosidades reais sobre os animais ou temas em causa. É uma excelente oportunidade de trazer os livros para a hora de brincar, oferecendo uma introdução lúdica e acessível à mecânica da escolha que está na base de todo este género.
Inserida no universo da série infantojuvenil francesa Miraculous, esta coleção de livros-jogo aplica a lógica das escolhas narrativas ao público mais novo: o leitor decide os rumos das histórias vividas pelas jovens personagens Ladybug e Chat Noir.
Esta coleção, que conta já com três títulos, propõe adaptar a fórmula Murdle para os mais novos. Com enigmas mais simples, acessíveis e com conteúdo apropriado para a idade, foi pensada para iniciar as crianças no fascínio de brincar aos detetives.