Vamos comprar um poeta? 5 poetas para descobrir neste Natal

Por: Marta Ribeiro a 2023-12-01 // Coordenação Editorial: Elísio Borges Maia

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O Quarto Rosa
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Alegria para o fim do mundo
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Não Desfazendo
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Uma mulher aparentemente viva
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Sob a forma do silêncio
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Onde os livros nos levam

Um dia, há um livro que muda tudo — a nossa perceção da vida, de nós mesmos, do mundo. Entramos num livro de uma forma e saímos invariavelmente de outra. Afonso Cruz descreve esta metamorfose própria da leitura: "Cada vez que lemos, saímos da leitura como um novo indivíduo que resulta da combinação anímica entre o livro e o leitor.". Umas vezes, essa alteração é subtil, quase impercetível, mas sempre presente. Outras, é verdadeiramente transformadora.

Livros curtos e vidas boas

Numa tarde em que estava sentada numa esplanada a beber um café e a ler um livro, fui interpelada por uma antiga colega de trabalho que apareceu sem eu dar conta: disse-me, em tom jocoso, que eu tinha uma boa vida, pois estava ali, sem fazer nada, "a ler um livrinho ao sol". Achei interessante esta ideia de que uma pessoa que está a ler ao ar livre tem uma vida ótima, porque eu estava de rastos nesse dia, exausta, a ter os meus primeiros trinta minutos sozinha depois de ter sido mãe. 

A demora do livro na rapidez dos dias

À ausência de ruído, chamamos silêncio. Permanecem apenas as oportunidades de redescobrir os sons há muito esquecidos. E, perante o sossego, conseguimos escutar. “Às vezes, o vento traz frases inteiras” — quando foi a última vez que ouvimos o que tem para dizer? Ler estas palavras de Carla Louro, com as quais arranca a sua estreia na poesia, Entra-se na casa pelo pátio, é ser recordada de que o silêncio também pode ser ensurdecedor. Mais do que tudo, é desejar voltar a ser atormentada por ele.

Neste mundo não podemos ter um poeta em vez de um animal de estimação — deixamos isso para a imaginação de Afonso Cruz no livro que empresta o título a este artigo. Mas podemos perder-nos nos seus versos e deles sair transformados. Francisca Camelo, Andreia C. Faria, Rita Taborda Duarte, Cláudia R. Sampaio e Emanuel Madalena são poetas que devem ficar cravados na memória — para voltar a eles sempre que precisar de uma dose da arte que dominam.

 

Francisca Camelo

É uma das vozes contemporâneas a reter. É assumidamente feminista, política e escreve sobre a condição de ser mulher. Nasceu no Porto, passou por Berlim e, não importa onde, gosta de comprar flores sozinha. A poesia é crua e transparente, cria imagens e espaços numa atmosfera intimista que é simples (mas nunca simplista).

Não é todos os dias
que se decide meter
a cabeça no forno
não é todos os dias 
que se escrevem poemas
de prata
não é todos os dias que decido 
quase dizer que
quase te amo
pedindo a conta
a tempo certo de fugir
és como eu um inadaptado
e ver-te assim
tão capaz de sobreviver
ao mistério da solidão
faz com que se sinta
cada vez menos acompanhada

em O Quarto Rosa

Andreia C. Faria

Disse, em entrevista ao Expresso, que “ser poeta é uma jarretice” — considera-se escritora, trabalha com a imaginação. Licenciou-se em Jornalismo mas rapidamente percebeu que não era bem ali que queria estar, interessava-lhe mais a escrita do que a adaptação aos canais multimédia. Já ganhou vários prémios e começou por ser aposta de editoras mais pequenas. Nas palavras de valter hugo mãe: “O trabalho de Andreia C. Faria está entre os mais urgentes, magníficos, da poesia contemporânea.”

Estou entre a Idade de Cristo
e a idade com que Simone Weil morreu,
Tendo, como eles, a ampliar fenómenos,
os mitos ou o próprio mar encabeçado por um touro,
a minha roupa ao fim de um dia de uso
arrastando a areia de um qualquer abismo.
Mas se resisto às tentações é porque não as sinto. 
Não as conto entre os tentáculos do dia,
a registadora máquina, a trituradora de papel

em Alegria para o Fim do Mundo

Rita Taborda Duarte

Escreveu muito para crianças, mas na poesia reinventa-se. Escreve sobre coisas que todos conhecemos: o amor, as pessoas e as paredes do mundo que, diz, são feitas de “palavras de pedra”. Nasceu em 1973, em Lisboa, e 30 anos depois ganhou o Prémio Branquinho da Fonseca. É professora do ensino superior e pertence à Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian. A sua poesia está reunida no livro Não Desfazendo — com direito a inéditos.

Como é agora a vida sem esse homem? 
Melhor, não?
Voltei a dançar descalça
sem medo de ferir a palma dos pés
com o engodo espinhoso do fastio
dançando entre os meus
a música clara e livre dos vitrais.
O peito colado ao coração dos deuses...

em Não Desfazendo

Cláudia R. Sampaio

É poesia no feminino, com uma sensibilidade e humanidade que não deixa nenhum leitor indiferente. É transparente nas palavras sem medo da brutalidade das emoções. Claúdia R. Sampaio é poeta e artista plástica, tem duas gatas e já lançou sete livros de poesia. Nasceu em Lisboa, em 1981, e atualmente é residente no projeto MANICÓMIO. 

Porque a mulher estava farta das coisas visíveis 
e pensava: quero procurar as invisíveis
Normalmente ninguém encontra o que transparece
É preciso acordar da cor de um lírio
e ir contra as coisas, rodando ao contrário
tentando ser mais do que aquilo que se parece
Por isso, a mulher escolheu ser do mundo

em Uma Mulher Aparentemente Viva

Emanuel Madalena

Estreou-se na coleção da Porto Editora coordenada por valter hugo mãe, Elogio da Sombra. Sob a Forma do Silêncio marca a saída de Emanuel Madalena do silêncio da escrita — e fá-lo de forma muito madura. Para além da escrita, é investigador e debruça-se sobre a área da literatura infantil na interseção com questões de identidade de género e LGBTQIA+.

Do meu rio
vê-se a torre,
mas só a dor me vê de volta.
também as palavras me olham:
não sei que esperam de mim

em Sob a Forma do Silêncio

 

Este artigo foi publicado na Revista Somos Livros (edição Natal 2023)

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