Se me encontrares dás-me um abraço?

Por: Luís Osório a 2023-11-14 // Coordenação Editorial: Elísio Borges Maia

Posso falar contigo? Peço desculpa pela informalidade, espero que não me leves a mal. Quando escrevo “senhor” ou “senhora”, quando tento um “você” soa-me a falso; talvez a escrita tenha em mim essa particularidade, a de acreditar que te conheço, que podemos falar um com o outro neste silêncio que desejo cúmplice. 

A revista que tens na mão tem o peso de muitas memórias, de muitos natais. E não há estação mais literária do que o Natal, o que não deixa de ser curioso pois a literatura vive das sombras e não da luz que nos vendem no Polo Norte. 

O Natal é sempre melancólico. Por um lado, as crianças e a expectativa. Por outro, o que de nós morreu quando os que amamos começaram a partir. Faz parte, não é? Esta manhã quase jurei ter voltado a sentir o cheiro das algas da Praia da Parede, a única praia onde fui com a minha mãe. Ficávamos nas pocinhas entre as rochas e a mãe apanhava banhos de sol que lhe faziam bem aos ossos. Impossível esquecer as viagens de comboio entre Alcântara e a Parede, as marmitas com o nosso almoço, o túnel que dava para a praia, uma promessa de felicidade e conforto que acreditava poder durar para sempre. 

Acontece-te a ti também, aposto isso e dir-me-ás nos teus pensamentos se acertei. Somos o que somos agora, mais o que carregamos do que fomos um dia, dos que nos amaram e dos outros também. Aproxima-se mais um Natal que me fará regressar ao primeiro de que me lembro, a noite em que recebi mais do que uma prenda. Não sabia como as abrir, estava sempre a dizer obrigado à minha mãe que, com as lágrimas nos olhos, me pedia para não agradecer. Na manhã de 25, ainda com todos a dormir, fui ver o Jogo da Glória, o Monopólio, um camião-cisterna e um Forte Apache com índios e cowboys. Lembro-me muito bem da pequena Árvore de Natal a piscar e de um vislumbre de felicidade que eu não sabia que existia. 

 

"Do que nos lembramos da infância? Do que era feliz no nosso passado ou de que em nós agora é infeliz? Inflacionamos as memórias positivas para nos compensar? Procuramos o que já não temos ou perdemos pelo caminho? Do que te lembras quando te lembras? Se te pedir um pensamento, um único, o que te vem imediatamente à cabeça? Coisas boas, más?

 

Do que nos lembramos da infância? Do que era feliz no nosso passado ou de que em nós agora é infeliz? Inflacionamos as memórias positivas para nos compensar? Procuramos o que já não temos ou perdemos pelo caminho? Do que te lembras quando te lembras? Se te pedir um pensamento, um único, o que te vem imediatamente à cabeça? Coisas boas, más?

Faço o mesmo exercício. Torno à última prenda da mãe, uma carteira que tive de guardar numa caixa que nunca mais abrirei. O livro que lhe dediquei terminava aliás com a carteira de pele que me dera no nosso último Natal. Já não era possível continuar, a pele desfizera-se e não lhe fazia justiça, as moedas caiam, os cartões engalfinhavam-se uns nos outros, as pessoas com quem reunia ou almoçava olhavam de lado para os seus destroços. Comprei uma carteira nova e deitei fora a que ela me deu. E hoje, uns largos meses depois, já não me consigo lembrar de como era quando estava destruída, apenas me recordo de como era quando ma ofereceu, a mais bonita de todas as carteiras. 

É uma coisa que aprendemos no “ofício de viver”. Não o do livro de Pavese, mas o de cada uma das nossas vidas, da tua também, da minha sem dúvida. Esquecemo-nos do que achávamos ser impossível e lembramo-nos algumas vezes daquilo a que acreditávamos não poder sobreviver. Os meus divórcios, só para te dar um exemplo, são já uma memória distante. Cada um de nós construiu uma outra vida ou abriu outros caminhos, por vezes de pedras. Não me consigo lembrar de quase nada, por vezes é como se não tivesse acontecido, como se a vida que tenho fosse a que sempre existiu, não sei explicar melhor. Mas há momentos impossíveis de apagar nas separações. A casa vazia de móveis e os meus dois filhos mais velhos sem a noção de que nunca mais iriam estar com a mãe e o pai num espaço comum. Ainda bem que nos separámos e continuámos amigos, foi o melhor que poderia ser feito, mas mesmo quando as coisas têm de acontecer ficam sempre pequenos ou grandes vincos. 

Esse Natal foi terrível, uma solidão enorme, um paradoxo. As luzes de Natal são um veneno para quem fez do tempo uma soma de oportunidades perdidas. Para quem teve uma família e a desbaratou, para quem tombou a um tiro do destino ou para quem parece ter fi cado pelo caminho; uma cantiga de Natal, uma roda de crianças, uma memória que seja, equivale à dor de um cego ao lembrar-se dos seus dias antes da escuridão. 

Não pares de me ler, sei que estou a ser demasiado melancólico, mas já me passa. Tentarei que me passe, fica mais um bocadinho. Falava-te do quê? Do que o Natal pode ser quando não estamos bem, sim. Mas pode ser o contrário, quando estamos bem tudo se amplifica e ganha uma luz que não imaginámos ter. E há pequenos milagres que acontecem. Naqueles dias em que estava em baixo, por uma soma incrível de coincidências (serão mesmo?), liguei a televisão e procurei Glenn Gould no YouTube. A meio da procura, não sei bem a razão, pensei: que se lixe as “Variações Goldberg”, apetece-me ouvir uma canção israelita que ganhou o Festival Eurovisão na década de 1970. Fiz a pesquisa e apareceu-me um nome familiar — Marie Myriam —, um nome que achei conhecer embora não soubesse de onde. A canção israelita estava pronta a ser ouvida, mas (também não sabendo bem a razão), cliquei antes em “L’oiseau et l’enfant”, de Myriam. Ao fim de vinte segun dos não consegui segurar as lágrimas. 

Era a canção que a minha mãe me cantava antes de adormecer, uma das últimas memórias que tenho de nós os dois quando ainda não existia a minha irmã. Nunca mais me tinha lembrado da canção, nunca mais a ouvira, mas elas, mãe e canção, regressaram para me me salvar da tristeza.

 

Era a canção que a minha mãe me cantava antes de adormecer, uma das últimas memórias que tenho de nós os dois quando ainda não existia a minha irmã. Nunca mais me tinha lembrado da canção, nunca mais a ouvira, mas elas, mãe e canção, regressaram para me me salvar da tristeza.

 

Isto do Natal apela à memória e antecipamos também a loiça por lavar, as prendas obrigatórias, os telefonemas, a Mariah Carey e o Coro de Santo Amaro de Oeiras. Um perigo a cada esquina, uma vontade de fugir no final de cada dia. Apaziguei-me quando percebi que descansar do cansaço é tão importante como descansar do descanso. Que fugir à rotina é tão decisivo como fugir à imprevisibilidade diária. Um dia precisamos de amar lento e noutro precisamos da sensação de um coração fora do peito. Ah, que terrível esta sombra sempre a espreitar na luz que desejamos. Ah, que vontade de rezar e de fazer porcaria.

Que vontade de Natal e que o Natal acabe. Que cansaço de tanto paradoxo, que desejo de mais paradoxos. Que fome e sede de tudo. Que vontade de descansar do tanto que se comeu e bebeu. Estamos e daqui a bocadinho não estamos, não é? Que a barca siga caminho… lentamente na sua rapidez, rapidamente na sua lentidão. 

Sempre assim, sempre a navegarmos em mar alto e, tantas e tantas vezes, sem bússola. A repetir erros que sabemos que são erros, mas que nos convencemos que desta vez tudo correrá bem. E depois é como a minha avó Joaquina dizia, isto passa muito depressa. E não é que passa mesmo? Um dia que parta, espero que daqui a muitos anos, viajarei com a ideia de que o comboio, a partir de determinada altura, acelerou demasiado. Em que momento o maquinista perdeu o controlo do tempo e se deixou ir desalvorado? Acontece-te também? Acontece-te que as semanas passam, os meses correm e que, amanhã ou depois, já é Natal outra vez? 

Não há mesmo livro de instruções para a vida. Uma partida que tem mais buracos do que o Jogo da Glória. Podemos achar que temos as coordenadas certas, mas os dados adoram enganar-nos. E até podemos acordar eufóricos e acreditar que somos imortais nesse dia. Só que depois concluímos que uma profunda alegria pode ser tão perigosa como uma escavada tristeza. Os dois estados potenciam decisões precipitadas que se podem pagar caro. A euforia faz-nos acreditar que tudo é possível, mesmo as falsas promessas. E a infelicidade faz-nos acreditar que nada é possível, nem as promessas justas. É como as fotografias que guardamos em caixotes. Quando as voltamos a abrir nem sempre é bom, um caixote de imagens do que fomos está longe de ser um poço de virtudes e boas surpresas. Também lá podem estar as que deixaram de fazer sentido, as que se estragaram de mofo, as recortadas pelo apetite de insetos, as que preferíamos não voltar a ver. O problema das fotografias é que não as podemos rasgar ou queimar sem culpa — pequena ou grande, intensa ou ultrapassada em segundos, o certo é que fica sempre um sabor amargo. 

Abandonar uma imagem é queimar uma memória que jamais conseguiremos recuperar, é apagar um ficheiro para sempre, é deixarmos de existir aos bocadinhos. E por vezes, tem de ser. Por vezes, é matar ou morrer. 

Já não tenho muito espaço e tempo. Desconheço o teu nome, o som da tua voz, se és homem ou mulher, se estás triste ou alegre, se tens mais futuro do que passado ou mais passado do que futuro. Parto do princípio de que se chegaste até aqui é porque me acompanharás até ao fim.

 

Abandonar uma imagem é queimar uma memória que jamais conseguiremos recuperar, é apagar um ficheiro para sempre, é deixarmos de existir aos bocadinhos. E, por vezes, tem de ser. Por vezes, é matar ou morrer.

 

Somos quase amigos, sem o ser. Já te fiz confissões, como se fosses um qualquer Deus a quem posso rezar ou pedir amparo. Tenho 52 anos, mas a criança continua viva. Sou capaz de sentir as borbulhas da adolescência, as pessoas a olhar para mim na praia por ser demasiado branco ou encardido, os beijos que não dei, os livros que lia por serem um porto seguro. Se fosse o adolescente mais bonito do liceu trocava os livros que li por tardes perdidas no muro do Pedro Nunes — o lugar onde estavam os que elas gostavam e os que eu invejava. Se fosse bonito, se soubesse dizer as palavras certas, se conseguisse fumar como o Bogart ou beber com estilo, não me teria perdido no neorrealismo marxista ou no existencialismo de Sartre e Camus. Traí-os a ambos (aos neorrealistas e existencialistas), mas mantive-me calado e afastado do muro onde continuam os que ambicionava ser. 

É essa a história da minha vida. Mas já encontrei os que me juraram que trocavam a popularidade dos muros por livros que não foram lidos no momento certo — nunca estamos satisfeitos, nunca estamos verdadeiramente apaziguados. 

Mas olha que é possível atingir a plenitude e o apaziguamento. Dou-te duas provas de que é possível. A primeira aconteceu há tantos anos que não tenho a certeza se é verdade. Era uma criança, mas já sabia ler. Talvez tivesse 8 ou 9 anos, por aí. Tenho quase a certeza de que foi depois do Natal, estava frio. A minha avó Alice, mãe do meu pai, preparou-me uma caminha com um cobertor macio. Cheirava a lavado. E recordo-me, como se fosse hoje, de ter aberto um livro de ficção científica cujo nome nunca mais consegui esquecer: Enfírio. A avó Alice despediu-se e pediu para que eu apagasse a luz. E com esta apagada não se via nada, os estores escondiam toda a luz. Jamais vira a escuridão daquela maneira e nunca sentira que as pernas podiam sentir um prazer tão grande com lençóis de algodão lavados. 

A segunda foi no Natal passado ou no outro antes. Servimo-lo à mesa com todos os filhos. Os meus e os da Ana. Os nossos. Biológicos e de coração. O André, o Miguel, a Leonor, o João, o Afonso e a Benedita. Tivemos bolos, fizemos planos e usámos pijaminhas iguais — coisas que nos envergonham se não acreditássemos no futuro. 

 

E lembra-te da equação: amar o futuro, viver apaixonadamente o presente, não esquecer o passado. Ao escrevê-lo acredito que sim, que é isso. Porque não há amor sem sonho, paixão sem o desejo de comer o dia e a memória sem tudo o que nos fez chegar até aqui. 

 

Desejo-te um bom Natal. Pode ser que nos encontremos e possamos dar um abraço. Não vamos marcar nada, deixemos que aconteça. E lembra-te da equação: amar o futuro, viver apaixonadamente o presente, não esquecer o passado. Ao escrevê-lo acredito que sim, que é isso. Porque não há amor sem sonho, paixão sem o desejo de comer o dia e a memória sem tudo o que nos fez chegar até aqui. 

No entanto, lembra-te de outra equação: celebra o pas sado sem revivalismos. Antecipa o futuro sem pressas. Vive o presente, sempre e intensamente. Porque todos os depressivos e ansiosos que conheci eram dependentes, uns do passado e outros do futuro. Ficou-me para a vida esta equação. 

Desembrulha-a, é para ti.
 

Este artigo foi publicado na Revista Somos Livros (edição Natal 2023)

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