Salman Rushdie: "As palavras são as únicas vencedoras"

Por: Bertrand Livreiros a 2023-06-19 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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Onde os livros nos levam

Um dia, há um livro que muda tudo — a nossa perceção da vida, de nós mesmos, do mundo. Entramos num livro de uma forma e saímos invariavelmente de outra. Afonso Cruz descreve esta metamorfose própria da leitura: "Cada vez que lemos, saímos da leitura como um novo indivíduo que resulta da combinação anímica entre o livro e o leitor.". Umas vezes, essa alteração é subtil, quase impercetível, mas sempre presente. Outras, é verdadeiramente transformadora.

Livros curtos e vidas boas

Numa tarde em que estava sentada numa esplanada a beber um café e a ler um livro, fui interpelada por uma antiga colega de trabalho que apareceu sem eu dar conta: disse-me, em tom jocoso, que eu tinha uma boa vida, pois estava ali, sem fazer nada, "a ler um livrinho ao sol". Achei interessante esta ideia de que uma pessoa que está a ler ao ar livre tem uma vida ótima, porque eu estava de rastos nesse dia, exausta, a ter os meus primeiros trinta minutos sozinha depois de ter sido mãe. 

A demora do livro na rapidez dos dias

À ausência de ruído, chamamos silêncio. Permanecem apenas as oportunidades de redescobrir os sons há muito esquecidos. E, perante o sossego, conseguimos escutar. “Às vezes, o vento traz frases inteiras” — quando foi a última vez que ouvimos o que tem para dizer? Ler estas palavras de Carla Louro, com as quais arranca a sua estreia na poesia, Entra-se na casa pelo pátio, é ser recordada de que o silêncio também pode ser ensurdecedor. Mais do que tudo, é desejar voltar a ser atormentada por ele.

"As palavras são as únicas vencedoras": é com esta frase que termina o novo romance de Salman Rushdie, Victory City, a publicar em Portugal em novembro. 

Salman Rushdie sabe do que fala. Vivendo sob a ameaça de uma fatwa emitida em 1989 pelo líder religioso ayatollah Khomenei por causa do livro Versículos Satânicos, o escritor de origem indiana escolheu os Estados Unidos para viver acreditando que a ameaça já estava ultrapassada. Em agosto do ano passado, quando se preparava para falar sobre censura e opressão, um jovem de 24 anos invadiu o palco e desferiu várias facadas deixando-o entre a vida e a morte. O escritor perdeu a visão num olho e os movimentos de uma das mãos, entre outras sequelas graves.



Numa entrevista exclusiva à RTP, o escritor fala do poder das palavras e dos livros, do perdão, da humanidade condenada a construir e a destruir. Se Victory City nos conta a história da ascensão e queda de uma civilização, talvez o poder de Rushdie seja exatamente esse, o de nos fazer olhar para o nosso futuro com o espanto de quem descobre que afinal não há nada de novo.

Assista à entrevista conduzida por Ana Daniela Soares, no programa Todas as Palavras, na RTP3.

Fonte: RTP

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