A arte, nas suas várias vertentes, permanece um veículo privilegiado de intervenção política, expansiva e utópica como nada mais. Se temos uma vanguarda, é na arte que se encontra, antes dos comícios, das assembleias e das mesas de votos, e antes até da revolução: já existia, engenhosamente codificada na música de intervenção, e era visível também na obra e vida do artista José Dias Coelho, assassinado em 1961 pela PIDE, tragédia denunciada em “A morte saiu à rua”, de José Afonso.
Depois do 25 de abril, esta voz ganha volume: a 8 de maio, é constituído o Movimento Democrático dos Artistas Plásticos, um grupo de antifascistas que iniciam o processo de lustração do meio artístico herdado. É o grupo responsável pela invasão do Palácio Foz, antiga sede da Secretaria de Estado de Informação e Turismo, por uma centena de artistas que tapam a estátua de Salazar, seguindo o lema de Marcelino Vespeira: “A arte fascista faz mal à vista”.
A militância assertiva destes artistas — e daqueles que temos a sorte de nos acompanharem no momento presente — é a primeira fronteira contra o espectro do fascismo. Nos versos, imagens e objetos que criam, está uma vigilância que não podemos tomar por garantida. Para que as suas vozes tenham sempre lugar, pedimos à poeta Filipa Leal e à ilustradora e autora Catarina Sobral os seus depoimentos sobre as suas expectativas quanto ao futuro da democracia.
A nossa Constituição foi escrita pelo povo. E o seu preâmbulo por poetas. Este resume, ainda, aquilo que desejo para o nosso país: que se abra «caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português». Esta frase encerra dois desejos: o de uma organização social orientada para o florescimento de todos os seres humanos, e não para a acumulação do capital de uma minoria, a ser construída com a vontade do povo.
A vontade de um futuro sem escassez, em que o trabalho não é alienado de quem o produz, mas se torne o destino das nossas capacidades de cooperação e experimentação para que se realize todo o nosso potencial enquanto seres sociais e criativos. Em que a habitação não é um activo de investimento, mas um espaço para viver. Em que a paz, o pão, a saúde e a educação sejam garantias, e não mercadorias.
A Constituição não precisa de ser revista, mas cumprida, nesse projecto partilhado de prosperidade da vida humana, dentro dos limites do nosso planeta.
— Catarina Sobral (ilustradora)
Escrever “O FUTURO” é impossível sem que antes alguém tenha escrito “O FUTURO”. Dizer “O FUTURO” é impossível sem que antes alguém tenha pronunciado “O FUTURO”. Penso, naturalmente, no poder das palavras. Participei recentemente num debate sobre “o poder da palavra”, na galeria Zet, em Braga. E pensei muito no poder da palavra “PALAVRA”. Pensei no tio Manel, pai de uma querida amiga, que, no fim da festa em que se celebravam os seus 100 anos, quando lhe pediram “umas palavrinhas”, o tio Manel, com a sabedoria de quem passou um século atento a tudo isto, respondeu: “Em momentos assim, não há palavrinhas. Há palavras”. Pensei que não nos ocorre, de facto, falar do “poder das palavrinhas”. Ainda bem. A Constituição é um livro cheio de palavras com futuro. É um livro contra as palavrinhas. Somos, ou não somos, pessoas “de palavra”. Damos, ou não damos, “a nossa palavra” – que cumprimos, ou não. E quando “passamos a palavra” a alguém (ou quando alguém nos “passa a palavra”), isso tem um peso: do diálogo, da escuta, e do direito de se concordar ou não com a palavra anterior. A Constituição garante que todos “tenhamos a palavra” seguinte, a do futuro. Sem que ganhem o mundo as “pessoas de palavrinha”.
— Filipa Leal (poeta e jornalista)