A Liberdade como Ato Inaugural

Por: António de Castro Caeiro a 2026-04-17

António de Castro Caeiro

António de Castro Caeiro

António de Castro Caeiro é especialista em Filosofia Antiga, com ênfase nas tradições filosóficas grega, latina e alemã. É professor de Filosofia Antiga na NOVA FCSH. Foi investigador visitante na Albert Ludwig Universität, na Universidade de São Paulo, na University of South Florida e no Oriel College, Oxford. É membro do Grupo de Investigação de Filosofia Antiga do Culture Lab do IFILNOVA.
As suas contribuições académicas incluem traduções de referência: Odes Píticas, Odes Olímpicas, de Píndaro; Ética a Nicómaco de Aristóteles; e Fragmentos dos Livros Perdidos, Constituições Perdidas e Fragmentos Científicos, de Aristóteles. É também autor de ensaios filosóficos originais, como São Paulo: Apocalipse e Conversão, Um Dia não São Dias e Reflections on Everyday Life. O seu livro mais recente, O Que É a Filosofia?, venceu o Prémio de Ensaio 2024 da Sociedade Portuguesa de Filosofia.

VER +

10%

Assim Falou Zaratustra
27,90€ 25,11€
PORTES GRÁTIS

10%

O Nome das Coisas
13,30€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

O que é a Filosofia?
17,90€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

Sobre os Sentimentos
18,90€ 17,01€
PORTES GRÁTIS

A celebração de meio século de vida constitucional em Portugal constitui um momento privilegiado para uma interrogação que ultrapassa a mera exegese jurídica ou o balanço institucional. Celebrar a Lei Fundamental é, na sua essência mais profunda, interrogar a forma de liberdade que ela institui e protege: uma liberdade que não se esgota em normas, mas que constitui uma radicalização do próprio modo de ser humano no mundo. Na tradição da interrogação filosófica sobre o sentido do ser, apresentaram-se, historicamente, duas respostas dominantes: a produção (poiesis), tal como concebida pelos antigos e levada ao extremo pela modernidade técnica, e a criação, enraizada na tradição teológica cristã que vê o humano como imagem de um Criador transcendente.  

Contudo, o núcleo da experiência política e existencial que hoje comemoramos não reside na mecânica da produção utilitária nem na passividade da criatura perante o criador. Encontra-se, antes, naquele momento auroral, em que o humano assume a responsabilidade absoluta pelo seu próprio ser e se mostra capaz de iniciar algo verdadeiramente novo. Esta capacidade de transformar a existência, de dizer um “não” à opressão ou um “sim” ao compromisso, é o que define a dignidade do sujeito que se empenha de modo decisivo na construção da pólis. A Constituição de 1976 não é apenas um documento; é a formalização desse gesto de coragem ontológica.  

O poder de principiar provoca uma descontinuidade no curso automático das coisas. Hannah Arendt designa este princípio (arche) a liberdade no seu sentido radical. Trata-se do instante fundador em que uma pessoa, por um ato irredutível e imprevisível, institui uma diferença. A diferença é compreendida também como uma alteração qualitativa na realidade. Podemos afirmar, com verdade: “a partir de agora, tudo será diferente”. Para Arendt, a liberdade não é um atributo metafísico transcendente que o ser humano possui na sua interioridade. Ser livre é pôr em prática, fazer o exercício da concretização da possibilidade. A liberdade é a condição de possibilidade de ser livre, isto é, existe de modo extremo durante a performance pública que singulariza cada trajetória humana através da ação (práxis) e do discurso (léxis).  

Ao analisarmos o sentido profundo da liberdade nos 50 anos da nossa democracia, reconhecemos que ela transcende a mera posse de direitos civis abstratos. A liberdade não se reduz à realização formal de direitos e deveres previstos em constituições, embora Arendt reconheça a importância vital do arcabouço constitucional como a "casa" da liberdade. A garantia da vida, da liberdade e da busca da felicidade ("Life, Liberty and the Pursuit of Happiness") constitui, sem dúvida, o solo necessário. O domínio, contudo, da liberdade política é mais amplo: é a possibilidade de instaurar princípios, de romper com a ordem estabelecida e de fazer do próprio percurso humano um campo aberto à significação permanente. É a passagem da "liberação" (o libertar-se de algo) para a "liberdade" (o agir com os outros).   

Em Assim Falava Zaratustra, lemos que “é preciso ainda ter caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante”. Só do confronto pleno com o caos pode emergir o novo. O caos não é apenas desordem. É a potência negativa que exprime a situação de rutura, de repetição exaustiva e de fracasso, em que o sentido parece esgotado e o horizonte se fecha sobre si mesmo.  

É precisamente nesse limiar de asfixia, quando tudo parece interditado por um regime de silêncio, que se pode dar a passagem para uma nova ordem. A criatividade radical consiste na capacidade de transcender essa negação absoluta e instaurar, por um ato inaugural, uma alteridade efetiva. Trata-se de transformar o “não posso” da proibição no “posso ser” da afirmação. Esta travessia, que vai da impotência histórica à potência de agir, não se realiza por um mero voluntarismo abstrato, mas pelo enfrentamento da situação-limite. Assim, o acontecimento de 1974, que a Constituição de 1976 veio selar, corresponde ao ato em que o ser nacional emergiu da negatividade e se afirmou como potência de diferença e criação coletiva.  

A originalidade da liberdade humana universal reside no seu carácter radicalmente pessoal e, ao mesmo tempo, praticamente intransmissível. O ato de aparecer no mundo é constitutivo: permitir o surgimento de algo novo, transformar a inutilidade de uma existência silenciada na utilidade de uma vida partilhada, resistir ao curso adverso da história — tudo isto compõe a experiência positiva da liberdade plena. O desafio existencial, enunciado desde Píndaro — “aprende, ao menos uma vez, a ser como és” (genoio hoios essi mathon) —, não se resolve na constatação passiva de uma identidade estática. Pelo contrário, demanda um processo ativo de aprendizagem e de compreensão do próprio modo de ser.  

Tornar-se quem se é exige a coragem de habitar o mundo com os outros, reconhecendo que a subjetividade se constrói na pluralidade. Ser implica aprender a existir em relação com os outros, inquietando-se, à maneira de Sócrates, com uma vida que não é examinada, pois esta não merece ser vivida. A liberdade humana culmina, assim, como um processo de individuação reflexiva que se conquista no aparecimento público e no empenho de ser, entre os outros, uma voz singular.   

A pergunta que se impõe nesta celebração dirige-se à forma específica e coletiva em que experimentámos o obscurantismo e o adiamento durante décadas — um tempo de curto-circuito absoluto que marcou várias gerações de portugueses. A experiência da opressão não foi apenas um hiato; foi o solo de privação que tornou urgente o momento inaugural da liberdade.   

Ao celebrarmos os 50 anos da Constituição, celebramos a passagem da "noite e do silêncio" para a "substância do tempo", como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen. A liberdade que hoje exercemos é a realização dessa madrugada esperada, na qual a lei não é apenas uma imposição de ordem, mas a salvaguarda da nossa capacidade de continuar a iniciar. A liberdade é um ato inaugural que se renova a cada manhã, exigindo de nós a lucidez de quem sabe que o futuro se decide no modo como habitamos, juntos e livres, o presente. 

Esta é a madrugada que eu esperava, 
o dia inicial inteiro e limpo, 
onde emergimos da noite e do silêncio, 
e livres habitamos a substância do tempo. 

in O Nome das Coisas, Sophia de Mello Breyner Andresen.

António de Castro Caeiro

É professor na NOVA FCSH desde 1990, faz parte do IFILNOVA, é investigador internacional (Oxford, Florida, Freiburg), destacando-se como tradutor de Aristóteles (especialmente, a Ética a Nicómaco) e Píndaro. Autor de ensaios originais sobre fenomenologia e vida quotidiana, venceu o Prémio de Ensaio SPF 2024 com O que é a filosofia? (2023). Tem tido uma forte presença pública em cursos no CCB e em podcasts, tendo publicado em 2026 a sua obra mais recente, Sobre os Sentimentos.

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?

O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.