Era uma vez um Homem, ou Quasi-Homem, que queria comer o fruto do alto duma árvore. Olhou, calculou a distância, decidiu que queria (ato consciente) comer o fruto e pensou em como fazer-se chegar lá. Começou por uma liana, que se partiu, refletiu sobre o peso, e pensou que podia produzir, com as próprias mãos, uns “degraus”, até que construiu uma escada. E quis ensinar à sua comunidade o que era uma escada, como fazê-la, como usá-la, e, por isso, deu nomes — à corda, à escada e ao ato de ir além, ir mais alto. Os signos complexos e a imaginação em ato: a linguagem e o pensamento. E a (auto)educação. Transmitir o conhecimento. No limite, a cultura letrada. Tudo tem origem no trabalho. Somos trabalho, e só por trabalharmos somos humanos — a linguagem, o pensamento, a cultura (com a mesma raiz de colo/cultus/culturus — fecundação, agricultura, religião, etc.) dizem-nos quem somos. Sem trabalho, não somos nada. É através do trabalho que nos tornámo humanos, com ele, transformamos o mundo e a nós próprios. O Homem que faz (faber), que sabe que sabe (sapiens sapiens) e imagina (imaginosus). O Homem que fez a escada nomeou-a e ensinou-a. O Homem inventou tudo, das guerras às revoluções contra as guerras. O seu e o seu contrário.
“O Homem inventou tudo, das guerras às revoluções contra as guerras. O seu e o seu contrário.”
Quero defender, nesta breve peça, uma ideia-chave: a história social, a história dos de baixo, ou do povo, não é a história de uma parte da população ou de um tema específico, como seria a história das ideias e mentalidades, dos hábitos de alimentação, a história militar ou — aquela que é dominante no nosso seio desde os anos 80, e a entrada no período de declínio acentuado do capitalismo global, o neoliberalismo — a história política e institucional. De reis e senhores, passámos, sob a influência da resistência ao nazi fascismo e das revoluções anticoloniais, a uma difusão da história social nos anos 70. E a uma história, após 1986–1989, de Estados e de estruturas, isto é, as instituições.
“A história do povo é a história como um todo […].”
A história do povo é a história como um todo, é esse o argumento central deste texto. Quando a fazemos, mobilizamos não só como sujeitos quem trabalha, e as dinâmicas sociais, convocamos o âmago daquilo que é central para explicar as sociedades humanas e, mesmo, a humanidade. O que determina toda a vida social — o trabalho. Explico-me: a dita tese da “centralidade do trabalho” não é apenas uma opção de historiadores marxistas, enamorados pelas classes trabalhadoras e os seus épicos, porém, também, trágicos, e contraditórios ditos e feitos. O mistério do trabalho vai da definição de quem somos, tema que apaixona psicanalistas, até às forças tectónicas que levam ao embate entre classes e movimentos sociais, as revoluções sociais. O trabalho é tão importante que é o que define o modo como vivemos em sociedade e o regime que regula as relações sociais. Ellen M. Wood (1942–2006), historiadora marxista canadiana, uma voz de rigor e honestidade intelectual, fez uma defesa fascinante da ideia de que na Grécia Antiga tinha nascido a democracia porque havia autonomia do trabalho — os escravos, claro, não tinham sequer direitos, mas a base da democracia política, e, por isso, da (até hoje fascinante) esplendorosa cultura grega, era a quantidade de homens livres na cidade, Polis, mestres-artesãos, artífices, que, ao terem autonomia no seu próprio trabalho, possibilitaram um resplandecente florescimento das primeiras organizações democráticas no ventre da cidade-estado. Não há democracia sem democracia no local de trabalho.
A história social — que procurámos fazer na História do Povo na Revolução Portuguesa e na Breve História de Portugal — permite-nos subir ao alto da montanha e, daí, enxergar a linha do horizonte. Coloca-nos num lugar que permite compreender as diferentes sociedades não na sua aparência (troca mercantil, forma-dinheiro, “coisas” etc.) ou na sua figuração (partidos, Igreja, direções etc.), mas na sua essência — tudo o que é produzido em sociedade vem do trabalho e só o trabalho é que produz valor. E o trabalho, no capitalismo realmente existente, não é um arranjo contratual assinado entre pessoas livres, essa é só a sua representação jurídica formal, mas uma relação social entre classes sociais distintas: a burguesia e os trabalhadores. Estas classes não são as únicas que existem, mas são, depois de consolidadas no período contemporâneo do capitalismo avançado, as que determinam toda a estrutura social em que trabalhamos e, portanto, todo o modo de pensar, sentir e viver a vida. E assim, chego ao meu segundo ponto, o trabalho. A história do trabalho e o seu mundo não é a história dos trabalhadores, é, na verdade, a história da sociedade como um todo.
Cerca de três milhões de pessoas terão estado envolvidas em formas de democracia participativa na vida social e política em Portugal entre 1974 e 1975, “quando o futuro era agora”, na expressão feliz, cunhada por Francisco M. Rodrigues (1927–2008), e que remete para a noção de prefiguração. Mas o que é isto? Que palavra é esta, “prefiguração”? Também se explica pelo trabalho — o trabalho e seus desdobramentos permitem aquilo que nos distingue dos animais e que o fundador da psicologia concreta do homem denominou como funções ou processos psíquicos superiores (atenção dirigida, decidimos dar atenção a, focar em; memória volitiva não é a memória involuntária; abstração conceptual; imaginação criadora). No fundo, o que Liev S. Vigotski (1896–1934) diz é que, pela educação — daí que seja bárbaro assistir à degradação da educação escolar —, é que é pela educação que nós aprendemos a desenvolvermo-nos e sermos senhores das nossas próprias decisões, regulando a nossa própria conduta, entre elas, aprendemos a criar, decidimos criar, escolhemos inventar. Nas revoluções sociais, trata-se da prefiguração política em ato — criamos em coletivo toda uma nova sociedade, em permanência, “fazemos” o que “sabemos”, e, assim, o futuro desejado se afigura na ação. Esse é o significado mais profundo da história do povo na revolução portuguesa, e que só a história social pode analisar, interpretar, descrever, narrar, explicar e compreender: nunca antes tanta gente decidiu tanto em toda a história de Portugal. Nunca antes tanta gente aprendeu tanto a decidir o que e como fazer aquilo que virá a ser.
“[…] nunca antes tanta gente decidiu tanto em toda a história de Portugal.”
Sem esperar pelo Estado, e muitas vezes contra as instituições, tomaram decisões que foram fulcrais para o país e que determinaram um salto de tigre da Idade Média para a modernidade e a contemporaneidade. Mudaram o país e mudaram-se a elas mesmas. A política deixou então de ser, num Portugal com 300 anos de inquisição e 48 de ditadura, uma profissão de poucos e passou a ser a gestão da coisa pública, comum, de muitos, de todos. A guerra colonial terminou, celebrada nas ruas, “nem mais um soldado para as colónias”, no cano das espingardas alçaram-se cravos rubros. Mas só quer tudo quem não teve nada: os professores em cada escola organizaram a gestão destas, com representantes eleitos, debateram pedagogia e didática, conteúdos e currículos, sempre entre pares; os médicos decretaram que nunca mais a transfusão de sangue humano seria comercializada, os hospitais privados seriam então inseridos num Serviço Nacional de Saúde, cujo primeiro esboço é desenhado em 1974 e 1975, com a nacionalização das velhas misericórdias e a abertura de novas urgências, exigidas pelos médicos, para ampliar cuidados à população e, assim, o próprio saber-fazer médico. Nas empresas e nas fábricas, os trabalhadores reuniram-se, pela primeira vez na história do país, de forma inteiramente livre, e impuseram limites ao trabalho noturno, salários acima dos mínimos, direito ao trabalho e direito ao descanso, férias pagas, segurança social; centenas de milhares de pessoas tiveram acesso a uma casa arrendada ou autoconstruída. A liberdade chegou a sério, conquistada e aprimorada: teatros e ballets, onde os artistas debateram o que é a arte, porque é uma necessidade fundamental, atuaram nos locais de trabalho, as mulheres passaram a decidir lado a lado com os homens onde fica a creche, porque as rotas dos autocarros devem servir todos os bairros, mas também passaram a decidir sem os homens, questões essenciais da intimidade, e, até, do sentido da vida — a propriedade privada dos meios fundamentais de produção social encolheu-se, e a liberdade individual de milhões anónimos, libertados do espartilho da escassez brutal, ampliou-se, como nunca antes. O liberalismo português, iniciado em 1820, nem o direito ao voto garantiu, mas a Revolução dos Cravos, o biénio do PREC, não trouxe só o direito ao voto, reunião, associação, e liberdades e garantias individuais e coletivas, trouxe o direito a viver em democracia, sem medo, no local de trabalho e em todas as esferas da vida.
“A Revolução dos Cravos […] trouxe o direito a viver em democracia, sem medo, no local de trabalho e em todas as esferas da vida.”
“O povo é quem mais ordena, dentro de ti, ó cidade!” A revolução portuguesa, que se sucedeu ao 25 de Abril de 1974, e durou sensivelmente quase dois anos a fio, foi o período não só mais extensamente revolucionário, como mais profundamente democrático da história de Portugal. A democracia substancial — muito mais do que a democracia procedimental das urnas eleitorais — ensinou-nos que há outro modo possível de vida e trabalho, em cooperação, solidariedade e liberdade. Esse passado hoje é glosado e temido pelas classes dominantes que querem fazer do PREC (Período Revolucionário em Curso) um tempo de balbúrdia, confusão e caos generalizado, omitindo que esse tempo histórico, esse sonho lindo porque real, foi o tempo em que mais gente, de forma mais livre, responsável e empenhada (re)construiu o país, trazendo-o da guerra colonial, do trabalho forçado e dos salários miseráveis na metrópole, para um lugar onde se entrava numa escola com alegria e desejo de transformação, num hospital para ser acolhido de braços ternos e abertos, e seguros e nos locais de trabalho. À paixão triste do medo, contrapôs-se, com lutas sociais e colectivas, a paixão alegre da esperança. Cinquenta anos depois, devemos celebrar esse tempo para construir o futuro, perceber como podemos, de novo, envolver-nos todos na coisa pública e, assim, ampliar a nossa liberdade individual e coletiva, a nossa própria humanidade, reconhecermos em cada esquina um amigo.