Emílio Rui Vilar — Memórias de Dois Regimes: a edificação democrática contada na primeira pessoa

Por: Marta Ribeiro a 2024-04-03

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Emílio Rui Vilar
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Emílio Rui Vilar — Memórias de Dois Regimes, editado pela Temas & Debates, revisita a vida do homem que empresta o nome ao título. O livro é uma transcrição de entrevistas que os autores (António Araújo, Pedro Magalhães e Maria Inácia Rezola) fizeram, ao longo de vários meses, a Emílio Rui Vilar, e conta com várias notas bibliográficas de mais de duzentas personalidades, fotografias e documentos que o enriquecem.

Em Portugal também temos a nossa versão do clássico “Onde estavas no 11 de Setembro?”, o “Onde estavas no 25 de Abril?” Emílio Rui Vilar ouviu na rádio que todas as pessoas deviam manter-se em casa e por lá ficou, mas só até à hora de almoço. Pensou: “É uma estupidez eu estar aqui fechado em casa” e, com Manuel Ferreira Lima, seu vizinho e futuro ministro dos Transportes e Comunicações do II Governo Provisório, meteu-se no carro para ver o que se passava. Foram barrados no Marquês de Pombal e acabaram por não conseguir chegar perto da Revolução, mas, nesse dia, abriu uma garrafa de champanhe. Cinquenta anos depois, o 25 de Abril vai ser passado de forma diferente: “Espero estar em casa, a ler ou a escrever e, se estiver bom tempo, a tratar do jardim”, contou à Somos Livros.

O agora presidente do Conselho de Fundadores da Fundação de Serralves contou à Somos Livros que aceitou o convite dos autores “depois de alguma reflexão” e por três razões. Primeiro, por serem pessoas de “alta idoneidade científica que asseguravam o contraponto da objetividade e do rigor ao inevitável subjetivismo do exercício”. Depois, porque, admite, a família já há muito o incentivava a registar a sua experiência de vida. E, finalmente, um “quase dever de cidadania”, por ter participado ativamente num período tão efervescente e intenso como foi o final do antigo regime e os primeiros anos de democracia.

 

E, finalmente, um “quase dever de cidadania”, por ter participado ativamente num período tão efervescente e intenso como foi o final do antigo regime e os primeiros anos de democracia.


O livro divide-se em dez partes, organizadas no tempo e no espaço. Começa no Porto, onde se fala da infância e juventude, passa para a vida universitária em Coimbra, depois, para o serviço militar em Angola. A seguir, o regresso à vida civil e a criação da SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social), na altura das eleições de 1969. Finalmente, o 25 de Abril, os três governos provisórios (dos quais fez parte), o 11 de Março, governar em revolução e o que se seguiu. A vida de Emílio Rui Vilar é uma sucessão de cargos nacionais e internacionais. Ainda hoje, aos 84 anos, reúne vários, todos em regime pro bono: desde a presidência da Comissão de Ética do Banco de Portugal até à integração do Conselho Consultivo do Museu das Convergências.

Confessa que a vida lhe deu muitas oportunidades e muitos desafios que não desperdiçou: “Desde os tempos de estudante, em Coimbra, que tive a sorte de ver realizadas iniciativas que empreendi ou tarefas que me foram confiadas, congregando vontades, liderando equipas, definindo objetivos, apontando caminhos e tendo a recompensa de ver a missão cumprida”. É difícil escolher, entre tantos cargos, qual o marcou particularmente, mas destaca dois “pela dimensão institucional”: os de presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) e da Fundação Calouste Gulbenkian. Na CGD, na qual iniciou funções em 1989, destaca “a transformação de uma instituição com privilégios num banco universal e plenamente concorrencial”. Considera que a Fundação Calouste Gulbenkian, na qual atualmente é Senior Advisor, é “ímpar e única na cultura, na ciência, na educação e no desenvolvimento humano”.

A primeira vez que apareceu na televisão foi logo a seguir ao 25 de Abril, enquanto representante da SEDES, fundada em 1969. No dia 30 de abril, foi entrevistado por Fernando Balsinha, a propósito do momento político que se vivia e as comemorações do primeiro 1.º de Maio em liberdade. Conta que na SEDES discutiram muito sobre se desfilariam ou não, mas acabaram por não ir por uma questão prática: não tinham uma bandeira. Ainda assim, Emílio Rui Vilar foi desfilar naquele mítico Dia do Trabalhador, mas como civil. Depois disso, foi secretário de Estado entre maio e julho de 1974, ministro da Economia entre julho de 1974 e março de 1975 e, depois de aprovada a Constituição e das eleições de 1976, ministro dos Transportes e Comunicações do I Governo Constitucional. Em Emílio Rui Vilar — Memórias de Dois Regimes descreve o funcionamento dos governos em tempos em que tudo era novidade e os primeiros passos na edificação democrática.

 

Em Emílio Rui Vilar — Memórias de Dois Regimes descreve o funcionamento dos governos em tempos em que tudo era novidade e os primeiros passos na edificação democrática.


Cinquenta anos depois, ficou alguma coisa por fazer? Emílio Rui Vilar diz que os três D — Democratizar, Descolonizar e Desenvolver — foram “no essencial, cumpridos” e a liberdade e restantes valores democráticos têm sido garantidos, diz. “Vivemos numa democracia com um sistema constitucional que garante a separação de poderes e as nossas eleições asseguram a representatividade, a governabilidade e a proporcionalidade”, garante. Mas deixa uma sugestão para melhorar a representatividade: a criação de círculos uninominais nas eleições.

Quanto à descolonização, “realizou-se da forma possível, nas concretas circunstâncias geopolíticas prevalecentes na época”. Acredita que tudo pode ainda ser aperfeiçoado, até porque o desenvolvimento é, “por natureza, um processo contínuo e evolutivo” e que depende não só dos cidadãos, mas também dos recursos disponíveis e de condicionantes externas.

No ano em que se assinalam os 50 anos do 25 de Abril, o testemunho de Emílio Rui Vilar torna-se ainda mais importante pela escassez de relatos na primeira pessoa desses tempos. Este livro passa a ser um documento histórico de muito valor por conter um relato que respeita escrupulosamente a verdade, com um apurado sentido de rigor, não só por parte do entrevistado, como dos historiadores António Araújo e Maria Inácia Rezola e do cientista político Pedro Magalhães.

 

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