Um dia destes, cruzei-me com a entrevista de um autor que tinha dado conta de que as escolhas políticas pejadas de ressentimento de muitos milhares de eleitores assentavam em não terem tempo para alguma autoconsciência sobre o que estavam a escolher para o seu país. Sem tempo para pensar nas implicações de um voto zangado, acabavam por votar contra si próprios, sem que disso dessem conta. Isto fez-me compreender todas as ramificações que o nosso estilo de vida tem em tantas áreas da nossa existência, das mais óbvias às mais insuspeitas. A zanga com o mundo, mas também o sentimento de incapacidade de lidar com o que nos é constantemente solicitado e a sensação de que não somos capazes de tanta coisa ao mesmo tempo em vários lugares, eis apenas algumas ilustrações do que é viver neste século.
Não terei sido eu o primeiro a chamar-lhe era da pressa, mas creio que é o nome mais astuto e que melhor define esta época: a sensação de que tudo corre, de que tudo é feito sem grande sentido crítico, e que, em menos de nada, estamos novamente na cama para dormir qualquer coisinha, antes de repetir tudo mais uma vez, só mais uma vez, ao sair da cama na madrugada seguinte. É difícil desenhar a cronologia completa do caminho que nos fez chegar aqui, contudo, o passado tem pistas fundamentais, tanto para compreendermos o que nos obriga a viver desta forma, como, principalmente, para sabermos como se regressa ao que é central para o nosso bem-estar. Convém salientar que não quero romantizar uma época em que o saneamento básico era ficção científica e os dentistas eram também sapateiros, mas devemos salientar o ritmo circadiano daqueles que viveram na monumental fatia da História da Humanidade que antecedeu a Revolução Industrial: acordavam conforme o sol mandava (os despertadores estavam por inventar), comiam conforme o corpo mandava (e as colheitas permitiam), abrandavam conforme a escuridão comandava. Não tinham de correr, não tinham de acordar a mando de terceiros, não tinham luz artificial a afetar o sono, o cortisol praticamente só aparecia no organismo quando era fundamental à sobrevivência da espécie (ou do indivíduo). Com a Revolução Industrial, e tendo particular incidência nos centros urbanos, que se foram agigantando ao longo dos últimos séculos, a espécie foi obrigada a habituar-se a um modus operandi completamente antinatura. Hábitos forjados aos poucos, em nome do progresso e do bem-estar financeiro: acordar à hora certa, enfrentar magotes de outros humanos, estar no mesmo lugar durante oito ou dez ou mais horas seguidas, superar conflitos artificiais e falsamente urgentes, regressar a casa e adiar a hora de descanso com recurso a luzes inventadas, disfarçar o cansaço com entretenimento que desfaz a prioridade do sono, viver com ruído em permanência.
Tudo isto tem consequências, tudo isto nos esgota.
E nada disto é novidade: a Ciência tem-nos mostrado, cada vez com maior pertinência, que temos hábitos contraproducentes, tanto para a nossa saúde e bem-estar, como também para a própria produtividade corporativa. De Onde Vem Este Cansaço? é um livro que nasce dessa inquietação: como nos deixámos cair em todas as dimensões da vida acelerada que nos deixa exaustos e, mais importante ainda, como conseguiremos contrariar as imposições do quotidiano?
De Onde Vem Este Cansaço? — Um manifesto de combate à era da pressa não é "mais" um livro sobre como abrandar a vida exigente que nos leva, a tantos de nós à exaustão. É o livro que nos convida a olhar para os dias e a repensar a forma como vivemos
Para resolver um sarilho, há que o identificar. Não é uma tarefa simples, especialmente quando tudo nos esmaga aos poucos. Eis uma proposta: escreva o seu quotidiano, ao detalhe. Do instante em que acorda até ao instante em que cede, provavelmente, contra a sua vontade, ao sono. Há o despertador aos gritos (uma violência, diga-se), há a espreitadela marota ao telemóvel para ver emails madrugadores ou notícias surpreendentes, há a correria contra o relógio, há o pequeno-almoço dos miúdos, há a fúria contra o trânsito, há o mau génio do chefe, há a comida descuidada no tupperware, há mais trabalho e urgências falsas, há o trânsito do regresso, há a fruição infantil dos hobbies dos filhos, há a chegada a casa diretamente para a cozinha, há a refeição corrida em família, há os putos na cama e há seis minutos no sofá antes da derrota contra o cansaço. Provavelmente, a sua lista não será muito diferente deste cenário, partilhado por milhões de pessoas nas sociedades ocidentalizadas. Impõe-se, assim, a pergunta: o que fazer? Como resistir a este mundo avassalador?
Vamos por partes. É comum lermos por aí sobre a importância do chamado work-life balance, que, traduzido à letra, seguiria o trâmite de “equilíbrio entre o trabalho e a vida”, como se a vida não fosse maioritariamente trabalho, e como se muitos de nós não tirassem satisfação do trabalho. A vida não existe sem trabalho, e o trabalho é uma parte integrante (essencial para muitos, até) da vida. Existe, contudo, um fenómeno neurológico associado a este work-life balance que extravasa a tontice do conceito: o cérebro não distingue o que é trabalho e o que é lazer. O cérebro distingue, isso sim, o que causa stresse e o que causa deleite. É por isso que muitos indivíduos trabalham loucamente e nunca entram em burnout: porque adoram o que fazem, e todo o processo tem um cariz lúdico nas suas vidas. Por oposição, também há lazer que pode causar burnout: alguém que tenha uma obsessão por cinema ou séries, e que se sinta assoberbado pela quantidade de coisas que tem acumuladas e ainda por consumir, pode acabar esmagado pelo lazer exagerado de que se sente obrigado a usufruir. O importante é sempre manter à tona esta ideia base: afastar ao máximo as fontes de stresse, dentro do que for possível na circunstância de cada um e acolher tanto quanto possível todas as fontes de prazer. E, igualmente importante, o ser humano evoluiu num ambiente em que os estímulos eram uma raridade, o que permitiu que o cérebro se desenvolvesse com uma elevada dose de tédio, tirando dele grande benefício. Ora, hoje, o tédio é uma faceta da vida em vias de extinção. Ainda assim, sempre que for possível, e mesmo que doa um bocadinho, é benéfico estar sem fazer a ponta de um chavelho.
(...) o ser humano evoluiu num ambiente em que os estímulos eram uma raridade, o que permitiu que o cérebro se desenvolvesse com uma elevada dose de tédio, tirando dele grande benefício. Ora, hoje, o tédio é uma faceta da vida em vias de extinção.
Para a vasta maioria dos indivíduos, a fonte de prazer primária está associada a lazer. É, por isso, fundamental que todos encontremos o nosso terceiro lugar. Este conceito, celebrizado no mundo anglo-saxónico, define-se por um lugar no qual não tenhamos de desempenhar funções socialmente talhadas. Recuperando o que diz o antropólogo Erving Goffman no seu A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, todos protagonizamos um determinado papel conforme as situações em que estamos inseridos. No trabalho, somos uma faceta de nós próprios; com a família, somos outra; por aí fora. Ora, a beleza do terceiro lugar reside em assumirmos um eu mais próximo do que somos verdadeiramente, sem disfarces ou expectativas a cumprir. Isto alivia o cérebro de qualquer espécie de stresse, e faz-nos desligar verdadeiramente das obrigações do mundo. Se, outrora, essas obrigações não eram tão proeminentes, hoje, não é bem assim.
É certo que vivemos num tempo em que a hiperestimulação é rainha. Somos solicitados a toda a hora, até no lazer: vê esta série, vê este vídeo no Instagram, vai ao teu concerto favorito, não percas o novíssimo restaurante da tua cidade, faz mais, vê mais, ouve mais, presta mais atenção, porque, se não o fizeres, não vais viver decentemente e ninguém quer que chegues ao fim da vida com a angústia de não ter aproveitado devidamente. Todo este estímulo, esta criação de falsas necessidades, chega através de uma maquineta que todos trazemos no bolso, na mão, na mala: o telemóvel. A notificação é uma epidemia da qual nos devemos afastar a todo o custo. Os estudos científicos acumulam-se e todos apontam no mesmo sentido: os ecrãs tornam o pensamento raquítico. Quanto mais consumimos tempo de ecrã, menos pensamos, pior pensamos, e mais passivos nos tornamos. Já todos tivemos a experiência empírica de ficar com o raciocínio um pouco nebuloso após alguns minutos, ou até horas, no scroll infinito. Isto, não sendo propriamente trabalho, obriga a uma atenção constante ao zapping intenso. Rapidamente, viciamos o cérebro a estar alerta em permanência, o que o empurra para uma espécie de dormência da qual não é fácil sair. A solução? Afastar os ecrãs a todo o custo, especialmente antes de dormir.
Por falar em dormir, aí está outra fonte do nosso cansaço. Celebrizou-se, erradamente, a ideia de que podemos dormir quando estivermos mortos, e que quem mais tempo rouba ao sono, mais nobre é. Em sentido oposto, a linguagem esconde expressões idiomáticas que vilanizam o sono: quem muito dorme, pouco aprende; dormir à sombra da bananeira; camarão que dorme, a onda leva. Porém, o que a ciência nos diz é que o sono é uma espécie de poder que todos temos à nossa disposição: o sono existe para reparar o funcionamento dos órgãos, e isso é particularmente notório no funcionamento do cérebro. Quem nunca passou um mau dia de vigília após uma noite mal-dormida que atire a primeira pedra. Ora, se fizermos um processo de descoberta do nosso próprio organismo e formos testando ligeiras alterações que, porventura, possam melhorar o nosso sono, o bem-estar dispara. E falo de coisas tão simples como regular o ambiente do quarto, evitar beber café 12 horas antes de dormir, afastar ao máximo as fontes de luz artificial do quarto (exceção feita à iluminação da divisão, mas convém que se usem luzes baixas e amarelas).
Celebrizou-se, erradamente, a ideia de que podemos dormir quando estivermos mortos, e que quem mais tempo rouba ao sono, mais nobre é.
Por falar em luzes artificiais, ofereço aqui o meu voto de pesar a todos os que têm de viver em cidades: excessivamente iluminadas e monumentalmente ruidosas, são uma pequena praga para o nosso sono, e para o descanso no geral. Não gosto de atirar para cima do indivíduo a responsabilidade total da sua falta de cansaço, porque ninguém domina a maior parte da influência que o ambiente exerce sobre si. É por isso que também é determinante que os agentes políticos estejam cientes do efeito que as decisões que tomam terão sobre os cidadãos que governam. Quem diz agentes políticos diz também líderes de empresas.
Criou-se uma certa ficção de que as pessoas que descansam são pouco trabalhadoras, ou mesmo preguiçosas. Mas há um segredo contraintuitivo que deve ser analisado e praticado por todos os líderes: um trabalhador descansado é um trabalhador mais eficiente. Quanto menos se trabalha, melhor se trabalha. Façamos um exercício: se um futebolista for obrigado a fazer sete jogos por semana, vai jogar bem? E se o mesmo jogador fizer um jogo semanal, qual vai ser o seu rendimento? Somos todos humanos, e o processo é mais ou menos o mesmo: quanto mais descansar, mais lúcido e fresco estará o trabalhador. Como tal, todos os líderes devem ter essa bússola bem presente na sua empresa: como consigo descansar ao máximo a minha força de trabalho para obter melhores resultados? Há experiências interessantes um pouco por todo o mundo. Por exemplo, algumas empresas proíbem a troca de mensagens, emails e reuniões durante a parte da manhã, reservando esse período do dia para que os trabalhadores exerçam as suas funções sem interrupções. A tarde fica então reservada para socialização laboral. Outras empresas têm aplicado turnos adaptados ao ritmo circadiano dos seus trabalhadores: para quem funciona melhor ao fim do dia, é uma violência obrigá-lo a trabalhar às nove da manhã, o que afeta diretamente a sua produtividade; para quem funciona melhor durante a manhã, é uma violência exigir que esteja a produzir até às sete ou oito da noite. Como tal, estas empresas dividem as equipas, ajustando os indivíduos aos períodos horários em que trabalham melhor, satisfazendo todas as partes da melhor forma: os trabalhadores ficam mais agradados com o ajuste ao seu ritmo circadiano, e a empresa obtém melhores resultados.
Criou-se uma certa ficção de que as pessoas que descansam são pouco trabalhadoras, ou mesmo preguiçosas.
Os tempos estão a mudar a alta velocidade, mas nós parecemos ter cristalizado os nossos hábitos, que funcionaram noutras eras. Este cansaço é só um sintoma de que precisamos de ajustar o estilo de vida ao ritmo desenfreado em que estamos habituados a viver. É fundamental que, na medida das possibilidades de cada um, saibamos estabelecer fronteiras inegociáveis, para nosso próprio bem. E, sempre que puder, entedie-se. O cérebro agradece.