Maria Clara Rey: trinta e quatro anos ao leme da Bertrand | Somos Livros Edição Comemorativa

Por: Elísio Borges Maia a 2022-08-23 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Desbaratar uma herança ou, por incúria ou desatenção, deixá-la desbaratar-se é mais do que renunciar a uma memória
de quem somos devedores — é deixar quebrar uma cadeia que em muito nos antecede, que muito tempo nos havia de suceder, e da qual nos devíamos orgulhar de ser somente um elo, já que um só elo pode, por fraqueza, deitá-la completamente a perder, ou, por força, permitir-lhe continuar.



(Miguel Esteves CARDOSO, A causa das coisas, Bertrand, Lisboa, 2021)

 

 

A Bertrand de Maria Clara Rey: uma casa que “sabe muito bem o que quer”

No longo período da gerência de Maria Clara Rey (1778-1812), a sociedade Viúva Bertrand e filhos, designação comercial que se irá manter durante aproximadamente um século, vai robustecer o seu património e desenvolver o catálogo da livraria, por meio de compras e de diversos empreendimentos editoriais. Por escritura de 11 de março de 1784, Maria Clara e os seus filhos João e Jorge Bertrand adquirem a quota do sócio de Jorge Rey (Jacques Bovet), na Fábrica de Atanados de Odemira, pelo “preço de sete contos e duzentos mil reis” (escritura reproduzida em DOMINGOS, 2000: 189-190). Em setembro de 1788, Maria Clara adquire, por 752 000 réis, uma parcela de terreno contígua à propriedade na Rua Direita das Portas de Santa Catarina, junto da igreja dos Már- tires, onde residia a família e funcionava a livraria, “para continuar o edifício pelo lado sul […] e pelo lado norte”. Obrigava-se a construir no prazo de um ano, conforme as normas em vigor e os planos de reconstrução aprovados para a zona (DOMINGOS, 2002: 42). A Bertrand do Chiado começa aí a ganhar a fisionomia que mais de dois séculos volvidos ainda lhe conhecemos.

Quanto à atividade comercial, vários anúncios à loja da “Viúva Bertrand” na Gazeta de Lisboa (jornal que retomara a publicação depois de um interregno de 16 anos) documentam a sua atividade no período imediatamente poste- rior à morte de João José (27 de novembro e 25 de dezem- bro de 1778 e 1 de janeiro de 1779).

Outra fonte valiosa são as encomendas à Société Typographique de Neuchâtel (STN), cuja produção se notabilizou entre 1769 e 1789 — uma circular de 1769 da STN revela relações comerciais com cerca de duzentas das mais famosas livrarias europeias (LOUREIRO, 2017: 190). Olímpia Loureiro estudou a correspondência remetida por esta sociedade a vários mercadores de livros estabelecidos em Portugal entre 1773 e 1787 e encontrou catorze cartas remetidas à Bertrand entre as vinte e uma enviadas durante esse período: quatro foram endereçadas a João José e dez a Viúva Bertrand e Filhos. Por seu turno, a Bertrand enviou quinze cartas à STN neste período, cinco no tempo de João José (1772 a 1775) e as restantes sob a firma Viúva Bertrand e Filhos (1778 a 1788) — a primeira sob esta nova denominação comercial, datada de 26 de maio de 1778, transmitia a triste notícia da morte de João José. Estas cartas revelam uma casa Bertrand, conduzida por Maria Clara Rey, que “sabe muito bem o que quer”, na expressão de Olímpia Loureiro que a ilustra com vários exemplos (LOUREIRO, 2017: 190-192):

  • Se a encomenda fica muito tempo em viagem reivindicam um prazo de pagamento mais dilatado;
  • Dão indicações quanto ao trajeto mais económico (a viagem por Amesterdão é muito cara, pelo que sugerem a via de Génova e de França, por Lyon);
  • Fazem propostas de preços partindo de condições diferenciadas — sendo a edição da STN ou da própria Bertrand;
  • Mostram-se ao corrente da diminuição dos impostos e “como que exigem que o comércio de livraria se apresente mais livre”;
  • Discorrem, com detalhe, sobre os casos em que consideram elevados os preços apresentados, cuja redução não se inibem de solicitar, ao mesmo tempo que asseguram prontidão no respetivo pagamento;
  • A gestão das encomendas revela muita organização (preenchem coleções com tomos em falta), cuidado na renovação da oferta (pedem exempla- res de cada nova obra publicada), eficiência (pedem prontidão na entrega dos artigos que estiverem disponíveis logo que perfaçam um fardo razoável) e diligência (atuando de imediato, quando tomam conhecimento de pacotes perdidos, mostrando impaciência pelo tempo de espera).


Na correspondência trocada entre mercadores e editores estabelecidos em Portugal, figuram, ainda, os nossos já conhecidos João Baptista Reycend e Jorge Rey, além de Ramuz, Valentim Lagier e Jean Joseph Dubeux, todos com casa em Lisboa (LOUREIRO, 2017: 190-191).

 

“Podemos, assim, admitir que estas casas mais bem-sucedidas importavam e compravam impressões além-fronteiras para seu próprio consumo, mas também funcionariam como distribuidoras de outras livrarias existentes no país.”

 

Como salienta Olímpia Loureiro, é surpreendente que não surjam nessa correspondência mercadores de livros de outros pontos do país. Cita o caso de Francisco Clamopin Durand, como a omissão mais difícil de explicar, com loja no Porto e cuja atividade não passava despercebida à censura portuguesa (Durand teve uma sociedade com Cláu- dio Groteau La Boissière entre 1767 e 1772, tendo nesta data assumido o negócio por inteiro — LEÃO, 1999: 68-69). Podemos acrescentar outros exemplos: Francisco Mallen, natural de Briançon, que se terá estabelecido em Coimbra ainda na década de 60 do século XVIII (tendo acolhido Pedro Borel em 1778) e também em Lisboa na década seguinte (FARIA-FERREIRA, 2020: 107); ou João Pedro Aillaud, natural de Monêtier, que se estabeleceu em Coimbra em 1772 (DOMINGOS, 2000: 209).

A seguinte hipótese de explicação para esta concentração da correspondência (e das encomendas) nos livreiros de Lisboa parece bastante plausível: “A rede estender-se-ia interinamente? Isto é, os livreiros de Lisboa fariam a ponte com o mercado estrangeiro, tratando a posteriori da difusão com os seus congéneres estabelecidos em Portugal?” (LOUREIRO, 2017: 191). De resto, Francisco Gama Caeiro, no estudo que fez do livro das contas-correntes de Francisco Rolland, também salientou a rede de recíprocas relações estabelecidas entre os membros do grupo francês estabelecidos em Lisboa, Coimbra e Porto (CAEIRO, 1980: 17). Pode- mos, assim, admitir que estas casas mais bem-sucedidas importavam e compravam impressões além-fronteiras para seu próprio consumo, mas também funcionariam como distribuidoras de outras livrarias existentes no país.


António Pereira de Figueiredo e a Bíblia Sagrada

É neste período que a casa Bertrand imprime um catálogo de pequeno formato com as obras disponíveis que “mandáraõ imprimir por sua conta, ou dos quaes compraraõ as impressões inteiras”. Embora este não se encontre datado, é possível situar a sua publicação em 1782.1

Trata-se de um documento extremamente valioso para compreendermos os empreendimentos editoriais da Bertrand. Dele constam obras custeadas no período de João José e novas edições a partir de 1778.

O astro do catálogo das edições Bertrand é, sem dúvida, António Pereira de Figueiredo, cuja biografia e primeiros anos de colaboração com a Bertrand analisámos na Segunda Memória. O catálogo está organizado por ordem alfabética do título das obras, mas Figueiredo (ainda com o nome, encurtado do período como oratoriano, de António Pereira) é o único a merecer simultaneamente uma entrada própria no catálogo, com os dez títulos impressos pela Bertrand (quinze volumes) aí listados em conjunto (VIÚVA BERTRAND E FILHOS, [1782]: 7, inum.).

 

VIÚVA BERTRAND E FILHOS, Catalogo [1782]
 

Apesar de nunca ter cursado os estudos universitários, António Pereira de Figueiredo “é havido por um dos maiores latinistas da Europa” no século XVIII, “célebre pelos seus escriptos theologicos e por sua incontestável e profunda erudição” (SILVA, I, 1858: 224). Em 1800, foi impresso na Oficina de Simão Tadeu Ferreira um Catálogo das suas obras — anónimo, mas cuja autoria Inocêncio Francisco Silva atribui a Francisco Manuel Trigoso (SILVA, II, 1859: 458-459), que inclui um prefácio e um Índice Cronológico da sua vida. A enumeração das suas obras e manuscritos, organizada por temas (a última secção é o catálogo das suas obras de música), estende-se por cerca de cinquenta páginas! ([TRIGOSO], 1800: 21-74)

Na sequência das decisões de Bento XIV (1740-1758) relativas à autorização da leitura da Bíblia em língua vulgar desde que aprovadas pela Santa Sé, Figueiredo dedicou-se ao projeto de tradução a partir da Vulgata (a tradução latina das Escrituras hebraica e grega feita no final do século IV por São Jerónimo), a primeira a ser realizada por um católico para a língua portuguesa (LEITE, 2017: 23-24). Precedia-a uma única tradução da Bíblia para português, da autoria de João Ferreira de Almeida, ministro pregador da Igreja Reformada Holandesa nas Índias Orientais, (1628-1691), apenas possível porque este fugiu de Portugal e abjurou o catolicismo (LOURENÇO, I, 2018: 19). Almeida terá par- tido dos originais grego e hebraico e não conseguiu concluir a tradução antes da sua morte em 16912.

Assim chamada por se ter feito comum no Ocidente pelo menos desde o pontificado de S. Gregório, a Vulgata fora declarada como a versão “autêntica” entre as demais versões latinas pelo Concílio de Trento (FIGUEIREDO, 1778, I: quarta página, inum.). Figueiredo encetou o herculano trabalho com a tradução dos quatro evangelhos do Novo Testamento, cuja primeira impressão em seis volumes de pequeno formato (in-12º), devidamente autorizada pela autoridade eclesiástica, teve lugar entre 1778 e 1781 ([TRIGOSO], 1800: 59-60). No primeiro Tomo, oferece um copioso prefácio aos leitores, que conclui justificando a tradução a partir da versão latina e reconhecendo que não era obra acabada: “não faltará ainda assim na presente Versão que notar, e que emendar: porque as dificuldades que neste genero se encontrão, são quasi insuperaveis ás limitadas forças do entendimento humano.” (FIGUEIREDO, 1778, I: LIX-LX).

Na dedicatória a D. João Cardeal da Cunha, Arcebispo Metropolitano de Évora, percebemos que houve dificuldades e demora: “Não foi culpa minha, foi infelicidade, demorar-se por tanto tempo a sua publicação” (FIGUEIREDO, 1778, I: segunda página, inum.). Rui Tavares, que considera o projeto “um dos grandes sucessos do Iluminismo Católico português”, salienta como a autorização de publicação era incerta: “A tradução da Bíblia tinha sido considerada antes uma empresa arriscada, eventualmente até herética. O facto de os protestantes serem os primeiros a fazê-la [...] não ajudava” (TAVARES, 2018: 250-251).

Demos notícia, na Segunda Memória, da importância da obra teológica de Pereira de Figueiredo, a partir da publicação de Tentativa Theologica (1766), mas também da sua produção enquanto Deputado Ordinário da Real Mesa Censória, desde 1768. Este foi o último texto censurado pela Real Mesa Censória na sua configuração pombalina, cabendo a apreciação da obra a Francisco de Sá, que refere “o tempo consideravel” de que necessitou para formar o seu juízo, emitido em fevereiro de 1777. Figueiredo, que não era censor ativo há cinco anos, passou de censor a autor censurado e, sobretudo, viu-se na posição de “ser julgado pelos outros através de uma grelha de ideias que, no fundo, foi ele mesmo que criou” (TAVARES, 2018: 251).

Os exemplares que consultámos dos dois primeiros tomos, ambos produzidos na Imprensa Régia em 1778, não permitem concluir quem terá custeado a sua impressão. O que temos por seguro é que, a partir do terceiro tomo do Novo Testamento, publicado em 1779, a Bíblia Sagrada traduzida por António Pereira de Figueiredo vai ostentar a marca Viúva Bertrand e Filhos, tornando-se uma das edições mais importantes da longa história da Bertrand.

Além de imprimir os tomos III a VI, Maria Clara Rey reeditou, em 1781, o primeiro e segundo tomos com a chancela Bertrand (“segunda impressão mais correcta no texto, e acrescentada nas notas”).

Seguir-se-á a tradução do Antigo Testamento, em dezassete volumes e no mesmo pequeno formato, cuja edição se prolongaria entre 1782 e 1790, incluindo a tradução dos deutero- canónicos, não incluídos na versão de Almeida — esta seria, portanto, a primeira impressão completa do Antigo Testamento em português a conter aqueles livros (LEITE, 2017: 24).

Neste período, foram publicadas outras obras de Pereira de Figueiredo, nomeadamente Elogios dos Reis de Portugal em Latim e em Portuguez, illustrados de Notas Historicas e Críticas (1785). O pequeno Catálogo de 1791 que a Bertrand dedicou aos livros em português mantém em local próprio o conjunto da sua obra: eram agora vinte e quatro títulos e quase cinquenta volumes disponíveis na livraria Bertrand. Merece o mesmo destaque no Catálogo de 1794 (VIÚVA BERTRAND E FILHOS, 1791: 8-9; e 1794: 9-10).
 

 


O Novo Testamento de Jesu Christo, Tomo III, edição da Bertrand, 1778

 

 

“A partir do terceiro tomo do Novo Testamento, publicado em 1779, a Bíblia Sagrada traduzida por António Pereira de Figueiredo vai ostentar a marca Viúva Bertrand e Filhos, tornando-se uma das edições mais importantes da longa história da Bertrand.”


Entretanto, o conflito com os livreiros e editores Borel em torno do dicionário de francês-português marcara os primeiros anos da década de 1780. No seu apaziguamento, terá desempenhado um papel o casamento entre Jorge Bertrand (segundo filho de Maria Clara) e Maria Borel, celebrado em 1784 (SILVESTRE, 2012: 188). Nos termos do acordo obtido, Joaquim José da Costa e Sá (1740-1803) deu continuidade aos dicionários bilingues do padre José Marques (editados entre 1754 e 1764). Os dois volumes do dicionário de francês-português foram impressos em 1784 e 1786, com a chancela Borel, mantendo a coautoria de Manuel de Sousa (SÁ; SOUSA, 1784-1786). O volume de português-francês foi publicado em 1788, com a chancela da Bertrand (SÁ, 1788). É também deste período a impressão de um Diccionario Universal das Moedas Assim Metalicas, como Ficticias, Imaginarias e de Conta que se conhecem na Europa, Asia, Africa e America (1796).

Maria Borel faleceu menos de um ano depois do casamento, sem descendência. Em 1788, Jorge Bertrand desposou Mariana Borel, irmã de Maria e sua cunhada, com quem terá dez filhos (GUEDES, 1987: 35-37).

No final do catálogo de 1791, anunciava-se a reedição para breve da Bíblia Sagrada completa, num formato maior (in quarto): “Esta importante Obra sahirá cada tomo per si, a fim dos Curiosos se poderem utilizar della á proporção que forem sahindo da Impressão” (VIÚVA BERTRAND E FILHOS, 1791: 8-9 e 11).

Antes da publicação dessa modificada edição (que se iniciou em 1794), ainda houve uma segunda edição com o mesmo número de volumes e formato da primeira, que foi publicada entre 1791 e 1805 (o Antigo Testamento entre 1791-1804 e o Novo Testamento entre 1801-1805). Terá sido esta segunda edição completa que Maria Clara Rey e o seu filho Jorge ofereceram ao Regente D. João (futuro D. João VI), uma vez que a terceira edição, in quarto e em sete volumes, apenas ficaria concluída depois da morte de Maria Clara Rey.

A 11 de janeiro de 1796, morreu João Bertrand (primogénito de João José e Maria Clara), deixando dois filhos de tenra idade: João Nepomuceno e Maria Margarida. A sua viúva, Margarida Pierre, voltará a casar em 1801 com o suíço Jorge de Vives (GUEDES, 1987: 36-38). A chancela Viúva Bertrand e Filho na portada das edições posteriores espelha o desaparecimento de João Bertrand, como sucede em Compendio das Epocas e Successos Mais Illustres da Historia Geral, de António Pereira de Figueiredo (FIGUEIREDO, 1800).

 


 


O retorno da disputa pelo comércio dos livros

Numa das poucas reformas que precedeu o Grande Terramoto, o decreto de D. José I, datado de 30 de setembro de 1755, determinou a criação da Junta do Comércio deste Reino e seus Domínios, instituição que vai pôr em causa a organização corporativa dos mesteres, nomeadamente o ofício dos livreiros.

Competia à nova instituição autorizar a abertura de lojas em Lisboa e a habilitação de certos ofícios, até então prerrogativas dos mestres do ofício. Suceder-se-ão os conflitos motivados por decisões e disposições contraditórias emanadas pela Junta e pelo Senado da Câmara, que a autoridade real vai resolver quase sempre a favor da primeira (GUEDES, 1993: 80-81).

Num Parecer da Real Mesa Censória de 1771 sobre os requerimentos dos livreiros e dos cegos, da autoria de Frei Manuel do Cenáculo, encontramos notícia atualizada das querelas entre livreiros, cegos, vendedores ambulantes e mercadores estrangei- ros (reproduzido em DOMINGOS, 2000: 71-74).

Os livreiros, invocando o seu Regimento de 1733 e a Provisão de D. João V de 22 de dezembro de 1735, pretendiam ver efetivamente observada a proibição de venda de livros encaderna- dos fora das lojas de livreiros examinados, contra a qual várias pessoas vinham atentando: “vendendo em lugares publicos livros encadernados de toda a qualidade com grave prejuizo dos suplicantes uteis à Republica, e benemeritos por tollerarem os encargos della”. E também os cegos haviam recorrido à Real Mesa Censória para denunciar a violação dos seus direitos de venda exclusiva pelos vendedores volantes.

Recorde-se que a Provisão Régia de 1735 excecionava os mercadores de livros estrangeiros com “casa estabelecida” no país. Por outro lado, no mesmo parecer, são citadas decisões judiciais que reconheceram a vendedores não pertencentes à corporação dos livreiros o direito de venderem livros publicamente — por exemplo, o caso de Luiz de Moraes, que obteve acórdão favorável do Tribunal da Relação.

Conflito antigo, que descrevemos no Prólogo, é muito bem enquadrado pela pena de Frei Manuel do Cenáculo: “Costumam vender livros nesta cidade de Lisboa os livreiros de logem aberta; os cegos; e os vendedores volantes, havendo disputado entre si muitas vezes sobre a competencia e limites deste comercio, ou simples trafico. Os livreiros pretendem excluir a todos os outros pela natureza do seu officio, a que dizem ser particularmente devido este trafico. Os cegos fundão se em alvará, por que lhes he concedida esta graça. Os livreiros, e os volantes pertendem que os cegos sejam somente licenciados para a venda de papeis soltos. Os volantes em fim dizem ser a venda dos livros hum ramo do comercio, que tanto pode competir a elles, como aos livreiros, porque somente se examinam de encadernar livros, não sendo elles volantes, outra couza mais do que huma especie de adellos uteis, que se permitem, e são favorecidos a respeito de outros generos de fazenda.”

A Real Mesa Censória — baseando-se na disposição legal que lhe conferia jurisdição privativa e exclusividade em tudo o que pertence ao exame, apro- vação e reprovação dos livros e papéis e “de tudo o mais que pertence á estampa, impressão, officinas, venda e comercio dos sobreditos livros e papeis”, bem como nos constrangimentos que estes conflitos colocavam ao comércio dos livros, “que ella deve facilitar ou promover” — declarou-se competente para apreciar a questão. A Resolução real reafirmou, a contento dos livreiros, a proibição de entrada no Reino de livros encadernados e os limites do que cada um podia vender (ibidem).

Em 1778, os livreiros reapresentam a sua reivindicação ao Desembargo do Paço. Denunciam a continuidade das transgressões e requerem a D. Maria I a confirmação da provisão de D. João V. A pretensão é deferida, embora se isente da proibição de venda de livros encadernados os autores e tradutores na venda das respetivas obras (DOMINGOS, 2000: 75-77). No ano seguinte, são os vendedores de livros de Lisboa que se dirigem à Rainha, insurgindo-se contra as prerrogativas dos livreiros (que apenas deveriam ser protegidos no ofício em que são examinados, ou seja a encadernação dos livros) e dos cegos (“classe de homens, que pela sua summa pobreza, e pela mizeria em que os constituio a sua molestia, não tem forças, nem dinheiros para manejarem hum trafico de tanto custo”). Reclamam, em suma, que o “negocio seja cummulativo e franco” (DOMINGOS, 2000: 78-81).

Os conflitos não cessaram. Em 1787, os livreiros requerem a proibição da entrada no Reino de livros encadernados e conseguem que o Administrador Geral da Alfândega de Lisboa suspenda a entrega de livros que vinham encadernados para mercadores franceses, que não se conformam com esta decisão.

Estas notícias encontram-se numa petição que em 1792 seis sociedades francesas dirigem à Rainha — o primeiro signatário é Jorge Bertrand, segundo filho de João José e Maria Clara Rey, seguem-se: Borel, Borel e Ci.ª; Paulo Martin; Dubeaux & Barneoud; Pedro José Rey e Jh. André Dubié (reproduzida em Domingos, 2000: 82-83). Opõem vários argumentos à proibição da entrada no Reino de livros encardernados:

  • Seria impossível aos livreiros encadernarem todos os livros que se imprimem no Reino e ainda os que provêm “de quasi toda a Europa”;
  • Se importam de França alguns livros encadernados é “por não se encontrarem doutro modo”;
  • “Há livros impressos ha muitos annos, que apenas se podem alcançar de livrarias numerosas, e particulares, como são as Biblias, os Expositores, SS. Padres, authores classicos, corpos de historia, edições originaes, etc.”;
  • Seria “privar a nação de todos os livros que ja não se achão em papel, ou que fossem as suas encadernaçoens deslaceradas para de novo serem feitas”, prejudicando o público e o livro: “ao publico, porque fica o livro mais caro [...], ao livro porque sendo encadernados duas vezes são cortadas as suas margens, que he a maior belleza do livro, e fica destruido”.

Em suma, a proibição resultaria “numa notabilissima decadencia na litteratura portugueza e nas artes e sciencias” (ibidem).

Na verdade, continuavam a entrar no Reino livros encadernados. Em dezembro de 1793, os livreiros e suas “não menos de 137 familias” recordam-no, em nova petição, apelando, sobretudo, à piedade da Rainha: “afim de tendo esta numeroza Corporação em que trabalhar, possão subsistir, pois que a mayor parte, se vê reduzida a mendigar as esmollas dos fieis, por não terem em que possão exercitar os seus officios, tudo cauzado, por virem os livros já encadernados, de fóra do Reyno” (documento reproduzido em DOMINGOS, 2000: 84-85).

Quando, em janeiro do ano seguinte, juntam ao processo cópia do seu Regimento “escandalosamente transgredido pellos francezes” é inequívoco que estes são agora o alvo principal das suas denúncias “no tempo prezente [os franceses] vendem por miudo os livros nacionaes, e estrangeiros, sem attenção a quanto prejudicão aos supplicantes portuguezes” (ibidem).

Algumas décadas mais tarde, estes regimes corporativos vão ser abalados pelas reformas liberais, não sem antes os franceses desta história terem de enfrentar uma ameaça muito mais séria: a perseguição que foi movida às suas pessoas e bens nos duros anos das invasões napoleónicas.
 

A vontade de ler o proibido e os seus facilitadores

Sabemos que a oferta dos editores e mercadores briançoneses ia muito além dos autores e obras portuguesas. Os mais bem-sucedidos, como a Bertrand, investiram na importação e impressão de livros no estrangeiro, como evidenciava o copioso catálogo de 1755 dos irmãos Bertrand, dedicado aos livros franceses, que analisámos na Primeira Memória.

Nestas exportações para Portugal nas décadas posteriores ao Terramoto, destacaram-se os grandes fornecedores de Genebra (os De Tournes, os Gosse e os Cramer) e Lausanne (Marc Michel Bousquet e François Grasset), além da já mencionada Société Typographique de Neuchâtel (STN). Em 1763, o livreiro francês Antoine Boudet estimava que entraria em Portugal o impressionante número de 250 000 livros por ano, em grande parte contrafeitos, ignorando os privilégios concedidos pelo rei de França a essas obras: “Essas edições piratas eram oferecidas a preços de competição bastante mais favoráveis, de onde a preferência por elas e, consequentemente, o extraordinário intercâmbio entre os impressores suíços e o grupo de livreiros franceses radicados em Lisboa” (CAEIRO, 1980: 146, nota 8).

Na base do êxito deste contrabando nos finais de setecentos, que (voluntária ou involuntariamente) ajudou a corroer a ordem estabelecida, estão vários fatores, um dos quais mantém toda a sua atualidade: “quanto mais um livro é condenado pelas autoridades, mais ele é procurado pelo público; quanto mais ele é procurado pelo público, mais ele é falsificado” (LOUREIRO, 2017: 200).

A STN destacou-se durante um período de cerca de duas décadas, precisamente por ser capaz de fornecer os livros que não podiam ser produzidos onde a censura estava ativa. Anotámos antes a correspondência remetida pela STN aos mercadores de livros estabelecidos em Portugal entre 1773 e 1787, na qual predominam as cartas de e para a Bertrand. As restantes sete cartas enviadas pela STN nesse período foram endereçadas aos nossos conhecidos João Baptista Reycend (três) e Jorge Rey & C.ª (duas), e também a Ramuz e Valentin Lagier (uma para cada), mercadores igualmente estabelecidos na capital. Entre a correspondência recebida pela STN, encontram-se, além das referidas quinze cartas remetidas pela Bertrand, três cartas de João Baptista Reycend (1780 a 1785), duas de Jorge Rey (1772 a 1774), uma de Valentim Lagier (1784) e outra de Jean Joseph Dubeux (1779) — LOUREIRO, 2017: 190-191.

Através da difusão de obras das figuras e ideias do Iluminismo, os editores e impressores da STN tornaram-se “responsáveis, ainda que involuntariamente, pelas mudanças de pensamento e de programa político que a Europa conheceu no final do Antigo Regime” (LOUREIRO, 2017: 190). Por vezes, pagaram um preço pela sua ousadia.

Justifica-se aqui um breve apontamento sobre o editor e impressor da STN, Jean-Elie Bertrand (1737-1779)3. Tal como o pai, Jean-Elie cursou teologia na Academia de Lausanne e foi nomeado reitor do Collège de Neuchâtel, antes de completar os 20 anos. Professor de belles-letres desde 1759, recusou, cinco anos depois, o convite do monarca da Prússia para assumir a cátedra de história na Academia de Berlim. Em 1769, renunciou às suas funções eclesiásticas e integrou a sociedade tipográfica criada por Frédéric Samuel Ostervald (1713-1795), um dos principais magistrados da vila de Neuchâtel, de quem se tornou genro no ano seguinte. Foi um dos administradores da STN entre 1769 e 1779. Em 1771, o escândalo provocado pela impressão nas prensas da STN de Système de la nature ou des lois  du monde  physique et du monde moral, do barão d’Holdbach (Paul Henri Thiry), obrigou Ostervald a demitir-se de todos os seus cargos públicos e custou a Bertrand a cadeira de belles-letres, bem como outro cargo público que exercia. Nos últimos anos de vida, dedicou-se, sobretudo, aos seus trabalhos editoriais e literários (CANDAUX, 1999).

A tarefa dos intermediários não era menos arriscada, além de ser a menos compensadora deste tráfico. O transporte era feito por uma equipa de carregadores, às costas, durante a noite e por atalhos de alta montanha: se fossem bem-sucedidos, recebiam “uma compensação monetária, ainda que de pouca monta; correndo mal,  o que os esperava era a escravidão, os trabalhos forçados” (LOUREIRO, 2017: 198).

Finalmente, para os clientes da STN, a aquisição de livros suprimidos pela censura dos seus países também envolvia riscos elevados — do tipo que podia deitar a perder um negócio. Estes livros, que, compreensivelmente, era impossível encontrar nas estantes, chegavam aos editores e mercadores da Península Ibérica en feuilles (sem encadernação), por meio de um sinuoso e arriscado processo: a STN contratava um contrabandista para passar os livros através da fronteira franco-suíça por determinado valor, que só pagaria quando os clientes os recebessem. O elemento chave era a confiança entre os intervenientes. Por vezes, os livros eram dissimulados sob falsos títulos ou encadernações enganosas, “as edições clandestinas acabavam por passar protegidas por outras” (ARAÚJO, 1990: 114; e LOUREIRO, 2017: 198).

Entre o conjunto das encomendas das casas que se corresponderam com a STN neste período, encontramos livros suprimidos (proibidos) em Portugal, nomeadamente obras de: Bertrand (Elémens de la morale universelle), Busching (Géographie), Brissot de Warville (Bibliothèque du Legislateur, por exemplo), Charles Bonnet (Ouvres), Félice (Leçons de droit de la nature e des gens), Grotius (De jure belli et pacis), M. Sterne (Voyage sentimental), Tissot (L’onanism), Voltaire (Questions sur l’encyclopédie e Théâtre), entre várias outras (LOUREIRO, 2017: 194-196).

Nem todos correm estes riscos. Apenas Jorge Rey, João Baptista Reycend, João José Bertrand e Maria Clara Rey Bertrand — especialmente esta última. As aquisições de Viúva Bertrand e Filhos incorporam o maior número de títulos proibidos; vinte e sete obras, amiúde com mais do que uma encomenda (no período de João José, foram apenas quatro as obras suprimidas encomendadas), e um total de cento e trinta e sete exemplares. Bem longe está o segundo nesta contabilidade — Reycend (com catorze obras e um total de quinze exemplares). Acrescem as edições de livros suprimidos que a própria STN enviou voluntariamente para estas casas, certa da sua aceitação: Ouvres philosophiques et dramatiques, de Diderot, Nouvelle Helöise, de Rousseau, Essai de Montaigne avec des notes de M. Coste, Les nuits champêtres, de Veaux, e Essai philosophique sur le monachisme, de Linguet (LOUREIRO, 2017: 194-197).

Embora haja quem refira que a atuação policial se concentrava, sobretudo, na interceção dos intermediários (LOUREIRO, 2017: 200), há evidência, nos arquivos da Real Mesa Censória, de esta ter visado diretamente os editores e livreiros lisboetas. Em 1772, Pedro Borel (um dos livreiros da Borel & Borel) foi preso por ter livros proibidos na sua loja defronte à Igreja dos Mártires (GUEDES, 1987: 36-37). Faria-Ferreira refere também um outro processo, em julho de 1779, que documenta buscas de livros a lojas, armazéns e casas de alguns briançoneses radicados em Lisboa, onde encontramos os nossos conhecidos Borel, Borel & Companhia, Francisco Rolland, Francisco Mallen, João Baptista Reycend, João José Dubeux, Paul Martin e Viúva Bertrand e Filhos. Estas buscas, que duraram vários dias e ditaram a prisão de dois livreiros, aterrorizaram a comunidade francesa (FARIA-FER- REIRA, 2020: 107-108).

 

Ser francês torna-se um grande problema

Na sequência do ultimato francês de agosto de 1807 e do Tratado de Fontainebleau franco-espanhol de outubro do mesmo ano, um poderoso exército francês comandado pelo general Junot transpôs a fronteira portuguesa em novembro desse ano. Face à desproporção das forças em presença, pôs-se em marcha a retirada da família real para o Brasil, uma frota de 15 navios de guerra e 20 navios mercantes que largou de Belém em finais de novembro, quando Junot estava às portas de Lisboa. Neste período, terão saído de Portugal cerca de 15 mil pessoas. Junot passou a governar o país e, durante este período, “os soldados franceses e espanhóis espalharam-se por todo o país, confiscando, roubando, matando e prendendo a seu bel-prazer” (PROENÇA, 2015: 480).

O descontentamento provocado pela atuação dos exércitos invasores e o levantamento nacional ocorrido em Espanha contra os franceses criaram as condições para a revolta popular, que começou por acontecer no Porto, seguindo-se outras revoltas em várias outras localida- des do Norte e Centro do país (também no Alentejo e Algarve, mas com menor intensidade). Em junho de 1808, o príncipe regente D. João foi aclamado no Norte e estabeleceu-se uma Junta Provisória, presidida pelo Bispo do Porto.

Em agosto chegam a Portugal, por mar, tropas inglesas, comandadas pelo general Arthur Wellesley (mais tarde lorde Wellington), desembarcando na praia de Lavos, a sul da foz do rio Mondego, encontrando-se em Coimbra com as forças da Junta do Porto (PROENÇA, 2015: 482). Seguiram-se duas importantes batalhas que obrigaram os franceses a retirar para Lisboa. Junot, que não dispunha de tropas para derrotar o exército francês nem conseguia obter reforços por causa da insurreição em Espanha, pro- pôs um armistício que foi assinado em Sintra entre ingleses e franceses (Convenção de Sintra), sem qualquer participação portuguesa. Em setembro de 1808, os franceses regressaram a França nos barcos dos ingleses, levando o produto dos seus saques.

Em fevereiro de 1809, depois de derrotar as forças inglesas na Galiza, o exército francês comandado pelo general Soult invade novamente Portugal pela fronteira de Chaves, dirigindo-se ao Porto — a população do Porto tentou fugir atravessando o rio pela Ponte das Barcas, mas as barcas não resistiram ao peso e abateram, levando consigo milhares de pessoas (o “desastre da Ponte das Barcas”).

Os franceses radicados em Portugal ficam numa situação muito difícil. Os livreiros não escapavam à regra — eram considerados agentes libertários, donos de covis de jacobinos (GUEDES, 1998: 78). Os franceses não naturalizados são intimados a sair do país no prazo de oito dias e um Aviso do Ministério do Reino do dia 13 de fevereiro determinava ao Intendente Geral da Polícia que procedesse imediatamente ao sequestro dos respetivos bens.

Ainda nesse mês, Maria Clara Rey e o seu irmão Jorge Rey dirigem um pedido de naturalização ao Desembargador do Paço, José António de Oliveira Leite de Barros, que fora expressamente nomeado para, conjuntamente com o Intendente Geral da Polícia, fazer as averiguações necessárias aos pedidos de naturalização. Invocando os mais de 55 anos de permanência em Lisboa (“vierão para Portugal, ainda vivendo o Sr. Rey Dom João o quinto” e nunca mais voltaram a França), recordam algumas das suas concretizações no nosso país: Maria Clara, então com 77 anos de idade, refere as propriedades adquiridas, os filhos nascidos em Lisboa e os netos que lhe deixaram (“hum delles está empregado no Real Serviço como voluntario”), aludindo, ainda, à oferta dos vinte e três volumes da tradução da Bíblia Sagrada por António Pereira de Figueiredo: “impressa á sua custa” e “que V. Alteza recebeo com real benignidade”.

Por fim, ambos suplicam ao Regente D. João (futuro D. João VI) “a graça de os haver por naturalizados portugueses”. Nesta petição, temos notícia de que os filhos de Maria Clara Rey haviam falecido e que estaria “associada aos seus netos” no negócio editorial e livreiro (reproduzida integralmente em DOMINGOS, 2000: 191-192). Os seus dois filhos, João José e Jorge, haviam integrado a sociedade em 1778, nos termos do testamento do pai. O primogénito morreu em 1796, como vimos antes. Jorge morreu em 1802, de acordo com o referido pela viúva deste (Mariana Borel) num requerimento apresentado, anos mais tarde, ao Desembargo do Paço (DOMINGOS, 2000: 150).

Dois meses depois da apresentação do pedido de naturalização, a decisão régia reconhecia a verificação dos requisitos para a naturalização, mas não o defere “pelas circunstancias actuaes”, decidindo que Jorge Rey e Maria Clara “ficarão com homenagem” na vila de Cascais, ou seja num regime de residência fixa, para sua própria proteção. Tudo indica que antes de dezembro desse ano haviam já regressado a suas casas e retomado os seus negócios (DOMINGOS, 2000: 132-134).

A grande editora e livreira Maria Clara Rey morreu a 8 de fevereiro de 1812 — teria cerca de 80 anos —, mas o nome Viúva Bertrand não desapareceria das portadas das obras (e, supomos, da porta da livraria) até perto do final do século XIX. É a descendência de Jorge Bertrand e Mariana Borel que irá assegurar a gestão da livraria nas décadas seguintes: Maria, Jorge, João José, Maria Carlota, Francisco, André, Sofia, Luísa, Henrique e Teresa (GUEDES, 1987: 38).
 

“A decisão régia reconhecia a verificação dos requisitos para a naturalização, mas não o defere ‘pelas circunstancias actuaes’, decidindo que Jorge Rey e Maria Clara ficariam na vila de Cascais, num regime de residência fixa, para sua própria proteção.”

 

Epílogo: os netos e bisnetos de Maria Clara Rey

Em 1815, João José Bertrand, filho de Jorge Bertrand e Mariana Borel e neto de Maria Clara Rey, pede ao Desembargo do Paço a nomeação de um “ministro experimentado” para proceder ao inventário da loja de livros da sua avó (GUEDES, 1987: 38). A livraria, e também a editora, prosseguiriam a sua atividade.

Xavier da Cunha, numa conhecida obra publicada em 1895, refere ter convivido pessoalmente com três dos dez filhos de Jorge e Mariana, concretamente João José, André e Francisco Xavier: “É dos nossos tempos a loja com aquelles tres respeitaveis e sympaticos velhos. Alli se reuniam antigos litteratos nossos, em convivencia festiva e conversação doutissima; alli costumava fazer pouso habitual o nosso grande Alexandre Herculano (amigo intimo dos donos da casa) quando semanalmente vinha a Lisboa do seu eremiterio da Ajuda” (CUNHA, 1895: 414-415).

Terão sido estes três irmãos a dedicar-se mais à livraria nas décadas seguintes, destacando-se a atividade editorial neste período, que não iremos desenvolver aqui, mas onde encontramos grandes vultos da literatura oitocentista.

Na correspondência de Alexandre Herculano, encontram-se várias referências aos três irmãos; numa primeira fase, dirigindo-se a João José e André Bertrand, e, a partir de 1857, também, explicitamente, a Francisco Xavier, nomea- damente numa carta de 12 de agosto de 1859, que lhe foi dirigida (DOMINGOS, 1999: 27, nota 35). Em carta datada de 4 de Abril de 1845, confessando ser “um asno tão perfeito em matérias de contas e de dinheiro que me parece que qualquer dia me fazem ministro da Fazenda”, atesta a probidade da Bertrand e o desejo de à mesma casa entregar tudo “quanto publicar”.

No ano seguinte, começa a publicar-se História de Portugal, cujo último volume desta primeira edição é de 1849. Em 1872, três anos antes de se iniciar a publicação da 4.ª edição da obra, que a inesperada morte de Herculano interromperá, garantia, noutra carta, que esta relação de três décadas constituía “uma excelente lição para editores e autores”.

Também Almeida Garrett vai editar alguns dos seus livros na Bertrand, que menciona numa carta enviada ao seu irmão Alexandre, em 9 de setembro de 1839: “Em primeiro lugar fallemos [de] negocios. Bertrands os mais honestos — e talvez infelismente — unicos honestos livreiros de Lisboa são os que recebem, satisfazem e correm em tudo com as assignaturas para a edição que empreenderam” (DOMINGOS, 1999: 15-16).

Tudo indica que houve ainda uma quarta geração da família Bertrand a trabalhar na livraria, por poucos anos, mais concretamente os filhos de Teresa Balbina e de Inácio Augusto Martin (também ele livreiro estabelecido no Chiado): João Augusto Martin, Eduardo, Eugénia, Josefina e Maria Amélia, bisnetos do velho Bertrand. Seria a estes e ao seu tio João (irmão da mãe daqueles) que Herculano se referia numa carta de 4 de fevereiro de 1876 endereçada ao amigo José Fontana: “Entre mim e os meus velhos amigos Bertrand, a quem eu chamava os meus patrões, nunca houve condições. Eles imprimiam os volumes que queriam e davam-me o que entendiam. Só uma vez briguei com o seu tio João, por me parecer que me dava de mais e ele teimar que não. Calei-me por fim, porque ele começava a zangar-se” (citado por GUEDES, 1987: 40).

Terão sido os filhos de Teresa e Inácio Martin a assumir a gerência da empresa aquando da morte do tio Francisco, em 13 de agosto de 1873, e também eles a trespassar o estabelecimento ao livreiro José Fontana, trabalhador da casa e primo direto de Martin e seus irmãos, o qual assume a gerência e logo se associa, como sócio de indústria, ao conselheiro Augusto Saraiva de Carvalho (COSTA, 1899: XIII; GUEDES, 1987: 40).

A sociedade Carvalho e C.ª terá iniciado a sua atividade a 1 de janeiro de 1876. No ano seguinte, o Catálogo de livros ingleses usados e novos à venda nesta livraria continuava a ostentar a referência à grande editora e livreira Viúva Bertrand (ainda que não ao seu nome, como seria de elementar justiça), o que se manteria ainda durante a década seguinte.

 

 

 


1 Em primeiro lugar, este é o ano das obras mais recentes constantes do catálogo. Depois, a primeira das obras cuja publicação se anunciava para breve
— concretamente O Livro dos Salmos ou Salterio, traduzido em português da Vulgata por António Pereira de Figueiredo — foi publicada ainda nesse ano de 1782 (edição disponível no acervo da Biblioteca Nacional). Finalmente, há outras obras datadas de 1783 que constam de um catálogo posterior (publicado em 1791) e ainda não integravam este catálogo mais antigo (p.e. Cathecismo Romano... e Elementos de Chimica, e Farmacia...).

2 Há alguma controvérsia quanto à efetiva utilização dos textos originais. João Ferreira de Almeida traduziu todo o Novo Testamento e parte do Antigo Testamento (até ao capítulo 48 do Livro de Ezequiel). A tradução dos últimos volumes foi finalizada após a sua morte, em 1694, sob a responsabilidade de um seu condiscípulo, Jacobus op den Akker, membro da comunidade portuguesa na região. A publicação da obra, em Amesterdão, foi concluída em 1694. A primeira edição completa da Bíblia de Almeida data apenas de 1819 (LEITE, 2017: 24).

3 Pertencia a uma família huguenote do Delfinado, com origens na povoação de Nyon (a cerca de 190 quilómetros de Briançon), que se refugiou na Suíça por altura da Revogação do Édito de Nantes (que pôs termo à liberdade religiosa que este consagrara, em 1598). O seu pai, Jean Bertrand (1708- 1777), filho de Elie Bertrand e Marie Faure e marido de Marguerite Carrard, foi diácono e depois padre e deão em Orbe (MARTI-WEISSENBACH, 2002). Era também sobrinho de Elie Bertrand, eclesiástico na Igreja Francesa de Berna, que se correspondeu com Voltaire. Desconhecemos se existem laços de parentesco desta família com os Bertrand (ou os Faure) de Briançon, mas Jean-Eli interseta, neste ponto, a nossa história.

 

Leia a versão integral da Revista Somos Livros Edição Comemorativa aqui (página 84).

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