A oportunidade
No século XVI, são poucos os estrangeiros de que há notícia dedicados ao comércio do livro em Portugal — Francisco Caeiro refere os gauleses João de La Coste e Miguel Deslandes (CAEIRO, 1980: 147) —, mas esta realidade vai mudar radicalmente no século seguinte.
D. João V interessava-se pelo progresso científico e pelas artes do livro. No seu reinado, houve desenvolvimentos em várias ciências (matemática, geometria, ciências naturais, química, física, astronomia e medicina) e publicaram-se numerosos livros sobre assuntos científicos, muitos deles traduções de tratados e manuais estrangeiros (PROENÇA, 2015: 445-446).
Ana Luísa Marques refere a visita que o rei fez, em 1707, à tipografia do impressor régio Valentim da Costa Deslandes, manifestando o seu público apoio a esta arte. A Fábrica de Papel da Lousã, criada nos primeiros anos da segunda década do século XVIII, é outro fator fundamental do desenvolvimento que as artes gráficas vão conhecer no nosso país, fornecendo a tipografia do Colégio das Artes e a Academia Real de História. Ainda por iniciativa régia, foi criada a Academia Real da História (1720), que possuía tipografia própria, onde foram impressas várias obras dos academistas, graças à arte dos melhores oficiais e mestres compositores, impressores, fundidores de tipos e gravadores, entre os quais Rochefort, Debrie, Quillard, Michel Le Boteux e Vieira Lusitano (MARQUES, 2004: 21-22 e 25).
As aquisições que D. João V vai ordenar para provimento das várias bibliotecas públicas (Necessidades, Mafra, Coimbra) forneceram um impulso muito importante para o comércio e edição de livros (DOMINGOS, 2000: 61). Mandada edificar em 1717, a Biblioteca da Universidade de Coimbra levou cerca de onze anos a ficar concluída. No seu acervo de mais de trezentos mil volumes, mais de três dezenas de milhares datam do período compreendido entre os séculos XVI e XVIII (MARQUES, 2004: 23).
Uma Provisão Régia de 22 de dezembro de 1735 indicia que o comércio livreiro de estrangeiros em Portugal teria algum significado nessa década e, sobretudo, desimpede-lhe o caminho: embora se reitere a proibição da venda ambulante de livros encadernados pelas ruas e lugares públicos da cidade, “com pena de perdimento dos livros”, estabelece-se que estes só podem ser vendidos nas lojas de livreiros examinados “e por mercador de livros estrangeiro que tenha casa estabelecida nesta Corte” (GUEDES,1998: 64). Impunha-se, na prática, uma importante exceção ao Capítulo 22.º do Regimento do Ofício
de Livreiros, aprovado dois anos antes.
Por outro lado, estava em marcha o progressivo afrancesamento da cultura portuguesa, que irá acentuar-se a partir da segunda metade de setecentos, gerando uma clientela e exigências novas que importava satisfazer (CAEIRO,1980: 147).
Os comerciantes francófonos residentes em Lisboa esta- vam em condições privilegiadas para prover essas novas necessidades: “dispunham no país de origem duma estreita rede de contactos comerciais, ou, pelo menos, esta ligação seria facilmente estabelecida, mercê das interrelações familiares solidárias”, enquanto aos portugueses era naturalmente mais difícil o estabelecimento desses canais (CAEIRO,1980:148).
Uma pequena aldeia nos Altos Alpes franceses entra na História do livro
Partindo dos trabalhos de George Bonnant, Ângela Gama identificou onze mercadores de livros franceses com origem na região de Briançon de um total de dezassete a atuar em Portugal na época, número que Francisco Caeiro elevou para treze num estudo posterior (GAMA, 1967: 8-81; CAEIRO, 1980: 150).
“A Provisão Régia de 22 de dezembro de 1735 indicia que o comércio livreiro de estrangeiros em Portugal teria algum significado e desimpede-lhe o caminho, autorizando a venda de livros ‘por mercador de livros Estrangeiro que tenha casa estabelecida nesta Corte’.”
Na carta que enviou a Malesherbes, em 1754, Grasset, um dos principais livreiros de Lausanne, referia que estes franceses provinham todos “duma aldeia situada num vale do Briançonnais, no Delfinado”. Monestier de Briançon era então o topónimo dessa aldeia, uma povoação de origens muito antigas, hoje chamada Le Monêtier-Les--Bains ou, simplesmente, Monêtier.1
Nos primeiros anos do século XVIII, Monêtier fazia parte do Briançonês, uma importante região do Delfinado, com capital em Briançon, que corresponde, atualmente, ao departamento francês dos Altos Alpes. Com uma longa história de estabilidade territorial e política, governo municipal autónomo e liberdades que remontavam ao século XIV, eram comunidades muito unidas e religiosas.
Destacavam-se pela elevada taxa de alfabetização, impulsionada por fatores religiosos (ler a Bíblia) e políticos (todos os chefes de família com mais de 20 anos participavam na administração municipal): estima-se que, em meados de setecentos, seria de 90% entre os homens e, praticamente, 100% entre as crianças. Os filhos das famílias mais favorecidas tinham oportunidade de prosseguir os estudos nas escolas secundárias de Embrum, sede do bispado, a poucas dezenas de quilómetros de Briançon, e, depois, nas universidades lombardas ou na universidade de Paris (GUEDES, 1998: 43).
Esta região viu-se desmembrada pelo Tratado de Utreque, de 1713, quando a França cedeu ao Piemonte os territórios transalpinos correspondentes a 32 das 51 comunidades que então compunham o território briançonês, o que teve grandes repercussões políticas e económicas “toda a economia, já tradicionalmente pobre, da região se ressente e a emigração aparece cada vez mais como única solução a um número sempre crescente de jovens e adultos” (GUEDES, 1998:37-40; 50).
Imagem reproduzida por Fernando GUEDES, 2012: 30
1 Denominava-se Stabatio sob a dominação romana, mas a fundação de um priorado, no século IX, pelo abade Eldrade (mais tarde, Santo Eldrade) terá provocado, com o passar do tempo, a mudança do nome para «Monasterium» e daí para Monestier e, finalmente, Monêtier (GUEDES, 1998: 33-34). A carta enviada por Grasset a Malesherbes (Directeur de la Librairie, desde 1750) foi revelada por George Bonnant num estudo publicado, em 1960, no Arquivo de Bibliografia Portuguesa, precedido de um outro, de 1956. O próprio Malesherbes também aborda o tema, na quarta das suas Memóires sur la librairie, que começou a escrever em 1759, a partir do camarote privilegiado das suas funções públicas. Refletindo sobre os desafios colocados pelos mercadores ambulantes (ou colporteurs) oriundos da região de Briançon, defende que estes deveriam poder vender livros somente “nas vilas onde não há livreiros e nas regiões rurais” e desde que munidos de uma licença administrativa para o efeito (MALESHERBES, 1809: 107ss; 155-158).
Leia a versão integral da Revista Somos Livros Edição Comemorativa aqui (página 26).