O Direito a Recordar | Somos Livros Edição Comemorativa

Por: Elísio Borges Maia a 2022-08-19 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Ao Fernando

 

“A História repete-se? Ou repete-se apenas como penitência dos que são incapazes de a ouvir? Não existe História muda. Por muito que  a  queimem,  por  muito  que a rasguem, por muito  que  a  desmintam,  a  história humana recusa-se a  calar  a  boca.  O  tempo  que  foi continua a palpitar, vivo, dentro do tempo que é, embora  o  tempo  que  é  não  o  queira  ou  não  o  saiba.”

(Eduardo GALEANO, De Pernas para o ar — A escola do mundo às avessas, Caminho, 2002)


Olga Tokarczuk disse, numa entrevista, em 2020, ao jornal Expresso, que “a história é muitas vezes vista como uma partida de xadrez jogada pelas peças brancas (...), pouco sabemos e pouco aprendemos sobre a história das pessoas comuns.” Não é necessariamente assim. Há trinta e cinco anos, o historia- dor José Mattoso1 propunha um “alargamento da escala às dimensões da humanidade inteira e da totalidade do tempo”, dito doutro modo: “não dar mais valor à queda de um império do que ao nascimento de uma criança, nem mais peso às ações de um rei do que a um suspiro de amor.” Mattoso antecipava “avalanches de objeções”, mas não há dúvida que é a História com todas as peças que encontramos na obra das historiadoras que nos deram a honra de participar nesta edição comemorativa da Somos Livros. Nas conversas desta rubrica (cujo título fica esclarecido), falamos do raiar dos “de baixo” como sujeito político e das suas inclinações contra-revolucionárias (Fátima Sá e Melo Ferreira). Vemos como a Primeira República fracassou por não ter sabido conquistar (ou conservar) o seu apoio (Alice Samara). Recordamos como o Estado Novo procurou doutrinar indivíduos e famílias e como lidou com os milhares de refugiados que fugiram do nazismo e, a partir de setembro de 1939, da Guerra que, como uma mancha de óleo, alastrava na Europa (Irene Flunser Pimentel).


No belíssimo ensaio A impunidade dos caçadores de gente, Eduardo Galeano reivindica o reconhecimento urgente do “direito a recordar”: “não para repetir o passado, mas para evitar que se repita; não para que nós, os vivos, sejamos ventríloquos dos mortos, mas para sermos capazes de falar com vozes não condenadas ao eco perpétuo da estupidez e da desgraça.” Sabemos como os livros são temidos pelos ilusionistas do esquecimento e Galeano lembra-o: “na América Latina queimaram-se cordilheiras de livros, livros culpados de contar a realidade proibida e livros simplesmente culpados de ser livros”. Nestas páginas, visitamos a censurano século XVIII, recordamos o papel dos mercadores franceses (como os Bertrand) no contrabando de livros proibidos em Portugal e a importância dos dicionários bilingues para permitir a sua leitura. Também observamos a censura instituída em 1933 pelo Estado Novo e contamos como, dois anos antes do 25 de Abril, as escritoras Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa e o editor Romeu de Melo foram julgados pela publicação do livro Novas Cartas Portuguesas — a propósito, quem não logrou ver o espantoso Ainda Marianas, de Catarina Rôlo Salgueiro e Leonor Buescu, com Ana Baptista, Rita Cabaço e Teresa Coutinho, manifeste-se pela sua reposição.


A censura também pode vir “de baixo”, como lembrou Ray Bradbury2, pela voz de Beatty, o capitão do corpo de bombeiros que queima livros em Fahrenheit 4512: uma “espécie de pudim pastoso como norma comum” é o destino de uma sociedade que cultiva o esquecimento, que é intolerante com as diferenças e a expressão da individualidade dissonante. Quando o poeta Osip Mandelstam viu os seus poemas e livros serem confiscados durante o regime estalinista, Nadezhda Mandelstam, sua mulher, começou a ensinar a outros, na sua cozinha, os poemas que sabia de cor. Em Fahrenheit 451, a arma contra o esquecimento foi a mesma: milhares de homens, “vagabundos por fora, bibliotecas por dentro” escolheram um livro e memorizaram-no.

Com modéstia (“não passamos de sobrecapas de livros, sem outra particular importância”), mas cientes da sua missão vital: “passaremos os livros aos nossos filhos, boca a orelha, e deixaremos que, por seu turno, os nossos filhos os passem aos outros”. Devemos muito aos que criaram, editaram, difundiram ou, simplesmente, protegeram livros, obras musicais, filmes, fotografias e outros objetos artísticos ou culturais. Estas obras carcomeram os antigos regimes e facilitaram revoluções. São uma profilaxia nas democracias e um vírus poderoso nas ditaduras. Por tudo isso e pela aproximação do terceiro século da Bertrand, decidimos contar a história daqueles que a fundaram, alçaram ou reergueram. Na última edição do Almanaque Bertrand, disponível nas nossas livrarias, fazemos essa viagem de 1727 a 2022 (Ainda mal começámos — Um diário de Bordo da Livraria Bertrand). Na economia desse caderno, não couberam muitas histórias que merecem ser lembradas. Nesta edição, contamos algumas nas Quatro Memórias dedicadas ao primeiro século da Bertrand: a fundação por Pedro Faure; a reconstrução após o Terramoto de 1755; as disputas em torno dos dicionários de francês-português; o crescimento da livraria e da editora até à perseguição aos franceses no longo período de gestão de Maria Clara Rey Bertrand (1778-1812).
 


By Heart, de Tiago Rodrigues © MAGDA BIZARRO


A impunidade é o alvo do citado texto de Eduardo Galeano, a “filha da má memória” e das leis que escolheram a amnésia obrigatória dos crimes em detrimento da justiça. Nada mais certo. Mas o direito a recordar não se esgota nesse antagonismo. Recordar não tem de ter um alvo. Por vezes, é um fim. Quando revemos Ainda não acabámos (despedindo-nos de Jorge Silva Melo); quando aprendemos de cor o Soneto XXX, de Shakespeare, com Tiago Rodrigues, e nos sentimos na cozinha da senhora Mandelstam; quando A morte saiu à rua, de Zeca Afonso, nos impede de esquecer que o pintor morreu (José Dias Coelho, morto pela PIDE em 1961); quando, numa noite de dezembro, partilhamos a comoção dos eternos companheiros de Bernardo Sassetti, escondendo as lágrimas sob uma máscara cirúrgica; ou quando, falhos do talento de Dinis Machado3, escrevemos sobre um amigo cuja morte recusamos aceitar: “O meu amigo Charlot, ninguém o mata. É o matas. Seria matar esta gargalhada que ainda hoje dou, esta fraternidade de estar de pé, para estar de pé. Nisso, sou intransigente.” Se nos perguntarem o que estamos a fazer, diremos, serenamente (como aquele homem que memorizou a República, de
Platão, em Fahrenheit 451):

"Estamos a lembrar-nos. É nisso que reside a vitória a longo prazo. E um dia lembrar-nos-emos de tanta coisa que construiremos a maior máquina escavadora da história e cavaremos o maior buraco de sempre para lá metermos a guerra e a enterrarmos”.
 

1MATTOSO, José (2019), A Escrita da História, Temas e Debates, Lisboa.
2 BRADBURY, Ray (2018 [1953]), Fahrenheit 451, Saída de Emergência, Lisboa.
3 MACHADO, Dinis (2016), Charlot, o que resta [1977], in O Lugar das Fitas, Quetzal, Lisboa

 

Leia a versão integral da Revista Somos Livros Edição Comemorativa aqui (página 1).

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