Em 2019, o australiano Gerald Murnane (nascido em 1939, em Coburg, Melbourne) completou 80 anos e achou que não ia escrever mais romances. Acontece frequentemente.
Cansado de perguntas sobre a “arte do romance”, António Lobo Antunes declarou que não escrevia romances há algum tempo — escrevia aqueles livros, uma ligação vaga e indeterminada entre poesia e prosa narrativa, mas continuou a ser questionado sobre “o romance” e “a arte do romance”, apesar de nem uma coisa nem outra o interessarem bastante ao ponto de ter uma teoria acerca disso. No seu espólio, encontro uma velha edição americana de O Som e a Fúria, de William Faulkner, que o acompanhou na escrita dos derradeiros livros como um monumento inspirador; na margem das suas páginas, há todo o género de anotações sobre a dificuldade de escrever, sobre os becos sem saída de uma história a contar — e sobre “o último livro”, além de pequenos rabiscos sem sentido, perguntas, comentários, desenhos, traços sem sentido aparente.
O “último livro” é uma obsessão de quase todos os escritores. Julian Barnes escreveu Partida aos 80 anos. Na verdade, é uma das obsessões de Gerald Murnane que, também aos 80, anunciou que não ia escrever mais romances, e publicou Territórios de Fronteira, a história de um homem que se fixa numa pequena cidade depois de viver entre o ruído do mundo — o seu trabalho é o de, naquele novo cenário, recordar a vida que passou. “Não estou a escrever uma obra de ficção, mas um relato de assuntos aparentemente ficcionais.” Ah, as formas de que a literatura se serve para poder recomeçar.
Esse homem que decide retirar-se para uma pequena cidade é provavelmente Gerald Murnane, que vive há bastante tempo em Goroke, um lugar de 300 habitantes, onde se instalou num minúsculo quarto em casa do filho e armazena os seus três densos e enormes arquivos pessoais: o arquivo cronológico, “que é a história da minha vida”; o “arquivo literário”, destinado essencialmente ao “ódio pelos críticos literários” e a certas formas moderadas de maledicência; e o “arquivo antípoda”, consagrado a corridas de cavalos imaginárias — mapas das cidades, mapas das pistas de corrida, informações sobre os jóqueis, os treinadores e os cavalos.
Não vê televisão. Nunca andou de avião. Nunca saiu da Austrália. Não vê cinema. Escreve à mão e usa uma velha máquina de escrever Monarch com mais de 60 anos.
Juntamente com as corridas de cavalos, a paixão pelo golfe. Em 2018, um jornalista do The New York Times visitou-o em Goroke. Antes da entrevista, Murnane tinha três perguntas para fazer ao entrevistador, como uma espécie de teste: qual era o seu interesse pelo golfe, se se interessava por corridas de cavalos e, finalmente, o que se propunha cozinhar para o almoço. Golfe, corridas de cavalos e mesa de almoço. Interesses pessoais numa vida em que fez bastantes coisas diferentes e desprezíveis para a generalidade dos escritores, se retirarmos as aulas de escrita criativa. Nelas, de qualquer modo, Murnane divertia-se a mostrar aos seus alunos como grande parte dos escritores mais populares eram frequentemente medíocres e escreviam mal. Murnane tem uma obsessão pela gramática. Como confessou uma vez, trata-se de uma “devoção franca e meticulosa à gramática” — à arte de escrever bem, de conseguir uma frase que já não queria alterar. Numa conversa, citada pela Sydney Review of Books, dizia que, nos anos 1980, “quando visitava livrarias, gostava de escolher uma página de um ou outro romancista australiano famoso e ler até encontrar uma frase mal escrita; então, suspirava, satisfeito, e fechava o livro”.
Gerald Murnane observa uma pista de corridas em miniatura que construiu no solo castanho sob a árvore de lilás em Bendigo, Vitória.
Estava a recriar um acontecimento da sua infância em Bendigo para o filme Words and Silk, de Philip Tyndall.
Fotografia de David Petersen.
Quando dava aulas de “escrita criativa” (nos anos 1990), Murnane decidiu que precisava de outro tipo de trabalho — qualquer coisa que o pusesse em contacto não só com “pessoas reais”, mas também com alguma forma de trabalho manual. Manteve durante algum tempo um emprego num quiosque de jornais. Levantava-se às duas e meia da manhã e embalava jornais para entrega. Depois, ia para casa escrever, ou ia dar aulas, ou alimentava os seus arquivos — e beber cerveja durante a tarde. Era a boa piada do The New York Times: ele seria o autor que tomaria conhecimento da atribuição do Nobel enquanto embrulhava jornais numa cidade de província.
O estilo tardio e descarnado de Murnane não tem enredo, nem personagens, só memórias e reflexões do narrador. E não pretende mostrar o mundo como ele é, mas como ele nos "parece", neste caso, "lhe parece", o mundo através da mediação da mente e da memória.
Em 2009, ficou viúvo de Catherine e decidiu ir viver com um dos seus filhos. Foi então que se mudou para Goroke. Este é o retrato de um homem refugiado no seu próprio tempo: não sabe usar computador; só recentemente (disse-o numa entrevista durante a pandemia de covid) aprendeu a usar um smartphone; não sabia nadar; não gosta da sensação da água a banhar o corpo; conhece todas as estações da linha ferroviária que antigamente passava por Goroke (encerrada em 1986). Não vê televisão. Nunca andou de avião. Nunca saiu da Austrália. Não vê cinema. Escreve à mão e usa uma velha máquina de escrever Monarch com mais de 60 anos. Bebe a sua própria cerveja artesanal, embora goste muito da Coopers Sparkling Ale. Não frequenta festivais literários porque “o mundo dos escritores” o irrita com os disparates que eles dizem sobre o mundo em geral e sobre a literatura em particular. É membro do Goroke Golf Club e gerente dobar. Aprendeu húngaro de forma autodidata. Gosta de Bach e Beethoven. A sua biblioteca é reduzida. Não tem olfato. Faz parte da lista de candidatos ao Nobel desde 2018, depois de ter publicado Territórios de Fronteira. Estas e outras excentricidades vêm, ou depreendem-se, das páginas de um pequeno texto confessional (na verdade, era uma conversa de viva voz) intitulado The Breathing Author, no qual confessa que nunca entrou “voluntariamente em nenhuma galeria de arte, museu ou edifício considerado de interesse histórico”.
Ilustrações de Murnane sobre "a tabela da sua vida", uma espécie de resumo dos principais acontecimentos que viveu.
Publicadas na The Paris Review.
Sim, há referências a Proust, Joyce ou Steinbeck. Mas há, sobretudo, a paixão pelas pradarias. Não pelas montanhas, nem pelas florestas, nem pelo oceano, nem pelo Grande Recife de Coral, nem pelos edifícios modernos de Sydney ou Melbourne — pelas pradarias. Pelas planícies, palavra que dá título ao seu romance de 1982, As Planícies. Há uma passagem de uma entrevista de Murnane que me comove especialmente: via cinema americano, os grandes clássicos do western, não por causa da ação, das suas histórias de limites e tensões à beira da morte — mas por causa das pradarias e do céu sobre as pradarias. Imagino aqueles grandes planos de John Ford, de luz sem penumbra, com um pequeno grupo de velhas árvores ao fundo, ou um registo de nuvens brancas recortadas num céu azul de cartolina. Talvez seja esse o motor de As Planícies, tal como o labor incessante de gramática, sintaxe, memória e isolamento é o motor inicial de Territórios de Fronteira, o testemunho de um homem que se isola para escrever, mas que não é um solitário.
Até 1999, as academias, prémios e círculos literários australianos ignoraram ostensivamente Gerald Murnane. Sim, era bom, excêntrico, um homem devotado à literatura, ao golfe, às corridas de cavalos, à poesia, ao violino e à maledicência. Mas os prémios eram para os outros. Em 1999, ganhou o Patrick White, um dos mais prestigiados, de que nunca havia sido finalista; de 2009 em diante dez anos depois, ganhou todos os prémios mais prestigiados do país, incluindo uma condecoração superlativa, que acabou de lhe ser atribuída no início de junho.
Via cinema americano, os grandes clássicos do western, não por causa da ação, das suas histórias de limites e tensões à beira da morte — mas por causa das pradarias e do céu sobre as pradarias.
Em Something for the Pain: A Memoir of the Turf (o “seu livro de memórias” de 2015), uma autobiografia centrada em recordações de corridas de cavalos para, afinal, darmos com o próprio autor, os 27 capítulos estão todos relacionados com o turf, ou seja, as corridas e o seu prodigioso mundo que não consigo compreender. São uma metáfora do próprio Murnane e não um retrato dos vencedores das corridas — o lugar de destaque é dado a jóqueis, empresários malandros e, muitas vezes, patifes. Pessoas aparentemente insignificantes ou que ficaram na margem da história. Nada melhor para definir Murnane.
Francisco José Viegas
Francisco José Viegas é editor da Quetzal, chancela que, no início deste verão, publica Territórios de Fronteira. No início de 2027, publicará ainda o primeiro romance de Gerald Murnane, Tamarisk Row.