Há uma exaustão natural, que não tem bem origem no esforço físico ou no excesso de trabalho, mas, sim, no ritmo a que tudo acontece, na quantidade de estímulos que nos atravessam a todas as horas e na constante sensação de que o momento seguinte “É que vai ser!". É uma condição relativamente recente, na medida em que não tem um paralelo muito claro com nenhuma outra época da história. Mas também é, na sua essência, um fenómeno profundamente humano.
Somos seres construídos para ter atenção profunda, forçados a viver num mundo que, constantemente, luta pela nossa atenção e nos obriga a funcionar em dispersão contínua. Ler não é natural; ao contrário da fala, que o ser humano adquire de forma quase espontânea, a leitura é uma competência construída sobre circuitos neurológicos que existiam para outros fins e que foram reconvertidos, ao longo da infância, para decifrar símbolos. É um ato de engenharia que o cérebro realiza. E, como tudo o que se constrói, pode desfazer-se.
A neurocientista Maryanne Wolf, especialista em leitura e autora de Reader, Come Home, documentou o que acontece ao cérebro de um leitor que abandona o hábito: os circuitos responsáveis pela leitura profunda, os que sustentam a concentração longa, a dedução, a empatia cognitiva, o pensamento crítico, enfraquecem por falta de uso. Assim, um leitor que regresse aos livros depois de um longo intervalo, está, na verdade, a tentar ativar circuitos que foram parcialmente substituídos pelo consumo rápido de informação e da atenção fragmentada que a vida cada vez mais digital foi normalizando. A transformação não é irreversível.
É um diagnóstico que diz muito do momento em que vivemos. Não apenas sobre a leitura, mas sobre aquilo em que nos estamos a tornar: seres com uma capacidade de atenção cada vez mais limitada, cada vez menos capazes de firmar um pensamento até ao fim sem sermos interrompidos por algo que vem de fora, ou até de dentro.
É contra esta ideia de fundo que chegam, com uma pertinência que não é coincidência, livros que propõem, cada um à sua maneira, uma outra relação com o tempo e com a palavra.
Não é porque se tem tempo que se lê, é porque se lê que se recupera a relação com o tempo.
A escritora sul-coreana Hwang Bo-reum compreendeu isto de uma forma que poucas pessoas conseguiram articular com tanta clareza, e fê-lo através da ficção. Em Bem-vindos à Livraria Hyunam-Dong, publicado pela Presença em 2024, a protagonista Yeongju abandona uma carreira que a esgota para abrir uma livraria num bairro tranquilo de Seul. O que Hwang Bo-reum descreve não é uma fuga ao mundo real, mas uma tentativa corajosa de reconstruir uma relação com o tempo: o tempo de conversar com alguém, sem pressa, de recomendar um livro com atenção genuína, de estar inteiramente no sítio em que se está. Bem-vindos à Livraria Hyunam-Dong tornou-se num fenómeno editorial na Coreia do Sul, onde vendeu mais de 250 mil exemplares no primeiro ano, traduzido em mais de 20 idiomas. Essa repercussão não é acidental: toca num desejo coletivo, numa sede partilhada por muita gente e em muitos lugares diferentes, de encontrar práticas e de atividades que resistam à aceleração.
No ensaio Every Day I Read, ainda sem tradução portuguesa, a autora aprofunda essa filosofia num registo assumidamente pessoal. Com 53 ensaios curtos, Hwang Bo-reum propõe a leitura não como caminho para o sucesso nem como uma ferramenta de produtividade, mas, sim, como prática de manutenção interior, no mesmo sentido em que falamos de meditação ou da prática de exercício físico: algo que fazemos todos os dias, não para atingir um objetivo externo, mas porque o ato de o fazer nos transforma, lentamente e de forma quase impercetível. É uma visão da leitura que contraria diretamente a lógica dominante da nossa época: a de que todo o nosso tempo deve estar orientado para um resultado específico.
Com uma urgência diferente e uma dimensão mais histórica, como lhe é próprio, o Manifesto pela Leitura, da filósofa e escritora espanhola Irene Vallejo, coloca a mesma questão noutros termos. O texto, nascido de um pedido da Federación de Gremios de Editores de España para apoiar um pacto político em defesa do livro, rapidamente se tornou noutra coisa: uma meditação sobre o que se perde quando se abandona a leitura profunda, e sobre o que essa perda significa não apenas para o indivíduo, mas para a capacidade coletiva de pensar com complexidade e de resistir à generalização.
Em Portugal, chegou às mãos dos leitores gratuitamente na Feira do Livro de Lisboa de 2021, no âmbito da campanha Ler é Essencial, da Bertrand Editora, e foi lido pela autora no Teatro São Luiz, no dia em que José Saramago completaria 99 anos. Vallejo, que também é filóloga, vê na leitura uma das poucas práticas humanas que atravessou milénios sem precisar de se reinventar, porque a sua função permanece a mesma: criar espaço dentro de nós para que um pensamento se desenvolva até ao fim, sem interrupções.
O que estas vozes partilham, apesar das suas diferenças na forma e no contexto, é a recusa de tratar a leitura como um luxo, reservado apenas a quem tem tempo livre. O argumento que usam é precisamente o contrário: não é porque se tem tempo que se lê, é porque se lê que se recupera a relação com o tempo.
Ler não deve ser um luxo que o tempo nos permite ter; um livro ajuda a criar tempo nas nossas rotinas, que, de outra forma, não existiria. E a regularidade importa mais do que a duração: 15 minutos de leitura todos os dias constroem algo que duas horas esporádicas ao fim de semana não constroem. O que está em causa é a criação de um tempo recorrente de presença e de atenção; um tempo em que o nosso cérebro se exercita. Aberta uma exceção à igualdade, nunca saberemos quem será o próximo a precisar de proteção.
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