O QUE É O IDADISMO
O psiquiatra Robert Neil Butler terá sido o primeiro (ou um dos primeiros) a batizar como ageism (idadismo) a atitude preconceituosa e discriminatória baseada na idade, sobretudo em relação a pessoas idosas. Numa entrevista concedida em 1969 a Carl Bernstein (Washington Post) no âmbito de uma reportagem que o jornalista desenvolveu sobre a contestação suscitada pela decisão de transformar um complexo de apartamentos na pequena vila de Chevy Chase (Maryland) num bairro social para idosos carenciados, nomeadamente afro-americanos, Butler considerou o caso mais uma função de idadismo do que de racismo: “O idadismo irá ombrear com (seria esperança vã dizer antes substituir) o racismo como o grande tema dos próximos 20 ou 30 anos”1.
Butler dedicaria as quatro décadas seguintes da sua vida a combater essa “intolerância da idade”, em especial no âmbito das políticas públicas de saúde, segurança social ou habitação 2 .
Meio século depois, esta atitude continua enraizada na forma como pensamos (estereótipos), sentimos (preconceitos) e agimos (discriminação).
O nosso país não é exceção: no texto da Constituição da República, nos serviços públicos, nas instituições de solidariedade social, nas empresas ou no seio familiar a idade continua a ser um fator de discriminação, por vezes de agressão. A linguagem negativa que utilizamos para falar do envelhecimento — já apelidado de “peste grisalha”, como alguns se recordarão — está igualmente inquinada por esses estereótipos e preconceitos.
Luísa Pinheiro, fundadora e presidente da associação Cabelos Brancos, pôs o dedo na ferida numa ação de formação de magistrados realizada em 2019 — “o idadismo é a última discriminação socialmente aceite”, nesta sociedade que endeusa a juventude: “ser jovem é ser capaz, forte, belo, produtivo, ousado, livre, criativo e feliz. Ser velho é uma falha, doença, declínio, incapacidade, fardo e solidão. Proíbe-se as pessoas de envelhecer” 3.
“SER JOVEM É SER CAPAZ, FORTE, BELO, PRODUTIVO, OUSADO, LIVRE, CRIATIVO E FELIZ. SER VELHO É UMA FALHA, DOENÇA, DECLÍNIO, INCAPACIDADE, FARDO E SOLIDÃO.”
- Luísa Pinheiro
Contra o Idadismo
IDADISMO E COVID-19
As origens do idadismo são imemoráveis — Séneca escreveu, há cerca de dois mil anos, que “a idade avançada é uma doença” 4 —, mas esta discriminação parece ter-se reforçado durante a pandemia de COVID-19.
A débil e lenta reação de vários países à primeira vaga de COVID-19 — nomeadamente dos Estados Unidos da América — foi consequência da ideia (que viria a revelar-se tragicamente errada) de que esta doença só punha em risco os mais idosos. É sintomático, de resto, que quem procurou influenciar os diferentes Governos a levar a pandemia a sério, tomando as medidas necessárias para evitar a sua propagação descontrolada, tenha argumentado, essencialmente, que a COVID-19 era igualmente perigosa para pessoas mais jovens… Como escreveu Nina Kohn num notável artigo publicado em maio de 2020, a sugestão é clara: se a doença dizimasse “apenas” os mais velhos, talvez conseguíssemos viver com isso5.
A pandemia também expôs os lares de idosos como incubadoras de morte. No pico da primeira vaga, o Diretor Regional da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a Europa, Hans Kluge, estimava que cerca de metade das vítimas mortais desta região havia ocorrido nessas instituições6. Ao invés de atuar sobre a origem desse risco — a vivência em instituições com áreas comuns fechadas e muitas vezes exíguas —, vários países, como o foi o caso de Portugal durante o primeiro confinamento, utilizaram a idade cronológica como critério para medidas especiais de proteção ou restrição dos mais velhos, reforçando o preconceito de que, a partir de certa idade, somos mais frágeis, menos autónomos ou menos capazes.
A DÉBIL E LENTA REAÇÃO DE VÁRIOS PAÍSES À PRIMEIRA VAGA DE COVID-19 FOI CONSEQUÊNCIA DA IDEIA DE QUE ESTA DOENÇA SÓ PUNHA EM RISCO OS MAIS IDOSOS.
O TRABALHO DA OMS CONTRA O IDADISMO
Em 2019, a OMS lançou uma campanha de combate ao idadismo. Entre as iniciativas que levou a cabo está um guia de comunicação (Quick Guide to Avoid Ageism in Communication).
A OMS recomenda, por exemplo, que evitemos generalizações (olhar para os grupos etários como um todo homogéneo) ou que rotulemos o envelhecimento como uma “crise” ou “desastre” — na abordagem contemporânea ao envelhecimento demográfico são comuns expressões como “demographic cliff”, “silver tsunami”, “agequake” ou “gray wave”7, o que tem sido determinante para uma visão negativa de uma evolução que radica em importantes conquistas da sociedade, o que não deixa de ser paradoxal. Como nos recorda a demógrafa Maria João Valente Rosa, com quem conversámos nesta edição da Somos Livros: “Uma população não envelhece porque os seus membros estão doentes, mas por conseguir vencer muitas doenças”8.
No excelente Relatório Global sobre o Idadismo divulgado pela OMS em março deste ano, reflete-se sobre a natureza do idadismo: este pode ser institucional, interpessoal ou autodirigido, começa a ser inculcado na infância e frequentemente interseta outras formas de preconceito e discriminação e interage com estas — como a que visa pessoas com deficiência, o sexismo ou o racismo.
A OMS alerta para os que correm mais riscos de sofrer idadismo — por exemplo, na discriminação dos mais jovens, ser mulher aumenta o risco — e oferece recomendações que reduzem o risco de o praticarmos. Além de outras mais centradas nas leis e políticas públicas ou no sistema de ensino, há uma que todos ganharemos em seguir: “o maior contacto intergeracional”.
1. Achenbaum, W. Andrew. “A History of Ageism Since 1969.” Generations: Journal of the American Society on Aging, vol. 39, n.° 3, American Society on Aging, 2015, pp. 10–16, https://www.jstor.org/stable/26556123.
2. A sua obra e o seu notável percurso de vida são objeto do livro do professor W. Andrew Achenbaum, Robert N. Butler, M.D., Visionary of Healthy Aging, Columbia University Press, 2013.
3. V. http://www.cej.mj.pt/cej/recursos/ebooks/outros/eb_DireitoMaisVelhos.pdf, 2019, página 41 e seguintes.
4. Achenbaum, W. Andrew., “A History of Ageism Since 1969.”, cit.
5. Nina A. Kohn, The pandemic exposed a painful truth: America doesn’t care about old people, The Washington Post, 8 de maio de 2020.
6. https://www.euro.who.int/en/media-centre/sections/statements/2020/statement-invest-in-the-overlooked-and-unsung-build-sustainable-people-centred-long-term-care-in-the-wake-of-covid-19.
7. Respetivamente: precipício demográfico, tsunami prateado, terramoto demográfico e onda grisalha.
8. Maria João Valente Rosa, Envelhecimento Demográfico em Fase de COVID-19 (http://hdl.handle.net/10362/102261).