UMA BIBLIOTECA FEITA POR AVÓS E NETOS
Há seis anos, Nélson Mateus empenhou a sua energia numa missão: falar da importância da ligação intergeracional entre avós e netos, valorizando os mais velhos e estreitando laços entre gerações. Na altura, não havia qualquer projeto com estas características e Nélson pôs em marcha o plano de entrevistar avós e netos, traçando, com histórias, o fio das memórias afetivas que nos une. Isabel Stilwell descreveu-o como a construção de uma biblioteca de avós e netos e o mentor da ideia revê-se na descrição, que considera perfeita.
Na primeira semana de vida, o Retratos Contados conseguiu entrevistar duas figuras de peso: Ruy de Carvalho e Celeste Rodrigues. “Não tenho nenhuma preferência especial por figuras públicas, mas considero que o peso que estas têm na sociedade pode ajudar a chegar a mais pessoas e alertar a sociedade civil para estas questões”, esclarece Nélson, que cedo se apercebeu de que o projeto rapidamente ganharia contornos muito maiores. O resultado das conversas, inicialmente destinado à publicação de um livro, passou a ser divulgado num site em que podemos viajar pelas memórias de Portugal, através das histórias contadas por avós e netos:
“Falamos da realidade, mas sempre com testemunhos positivos e inspiradores, como é o caso do Ruy de Carvalho, que “só” tem 94 anos, e 80 anos de carreira, e continua extremamente ativo. Com os exemplos de uns, podemos aprender a lidar melhor com as situações de outros.”
Nélson Mateu e Ruy de Carvalho
“PREFIRO HISTÓRIAS SENSACIONAIS A HISTÓRIAS SENSACIONALISTAS.”
Nélson não tem dúvidas quando fala do que o move: “Tenho muita vontade de ouvir as pessoas contarem histórias. Publico-as tal qual elas me são contadas, não as edito e não faço perguntas sensacionalistas ou vou atrás da lágrima. Prefiro histórias sensacionais — porque é com essas que nos identificamos — a histórias sensacionalistas. Não é isso que me move; o que me move é perceber que as avós, há uns anos, vestiam collants pretos e usavam lenços na cabeça; muitas ficavam viúvas aos 40 anos e diziam que era a cruz que tinham de carregar; hoje, falo com avós com 80 anos que estão disponíveis para sair e namorar. Isto é que me interessa”.
Alice Vieira foi uma das entrevistadas. Nasceu naquele momento uma relação de amizade (que apelidam de relação avó-neto) e o desejo de a autora participar no projeto: “Combinámos que passaríamos ambos a fazer as entrevistas. Eu continuaria a transcrever os testemunhos e a Alice escreveria uma crónica. Esta ideia ficou, entretanto, parada por causa da pandemia, mas pretendemos retomá-la agora”. Aproveitando o confinamento, a relação de amizade que foi crescendo entre ambos e a comunicação diária que mantinham, passaram a escrever textos sobre a pandemia, que publicaram, inicialmente, nas redes sociais. O sucesso foi tal que, em agosto, nasceu o Diário de uma Avó e de um Neto Confinados em Casa, um livro que pretende ser uma ponte entre gerações. “Quero muito fazer um tour com o livro, a centros de dia e lares, para partilhar com as pessoas estas memórias de Portugal que estão no livro”, confessa Nélson.
Nos próximos tempos, o Retratos Contados pretende solidificar a itinerância, de norte a sul, das duas exposições que tem patentes neste momento — sobre Ruy de Carvalho e sobre Alice Vieira —; continuar a partilhar testemunhos, de conhecidos e desconhecidos, e a realizar tertúlias, cumprindo incansavelmente a sua missão de valorização dos mais velhos: “Quanto mais pudermos atrasar a morte, melhor. Ainda há muitas pessoas que estão subvalorizadas em casa, à espera de que a morte chegue. Queremos desconstruir o peso da velhice”. Pelo caminho, fica a porta aberta para o estabelecimento de parcerias: “Para que possamos todos, de mão dada, construir um mundo melhor e deixar um legado melhor para os mais novos. A vida passa muito rápido.”
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