A literatura portuguesa também se escreve nas palavras destas mulheres

Por: Marta Ribeiro a 2023-12-05 // Coordenação Editorial: Elísio Borges Maia

Nos últimos anos, cada vez mais nomes de mulheres têm subido as estantes das livrarias. Mas nem sempre foi assim: a história da literatura portuguesa foi edificada com grandes escritores, mas no processo muitas mulheres igualmente cruciais foram esquecidas, ofuscadas e empurradas para o vazio. A memória coletiva encarregou-se do seu destino. Hoje, encontram-se algumas obras que escreveram à venda em alfarrabistas — se tivermos sorte. Estas seis escritoras destacaram-se entre os séculos XIX e XXI e temos de falar delas para não desaparecerem.

 

Isabel da Nóbrega (1925-2021)

Saía todos os dias de casa para ir regar uma árvore que todos julgavam estar morta. Um dia, ressuscitou. Amante de poesia, escritora e figura importantíssima na sociedade do século XX, Isabel da Nóbrega nunca parou de procurar a beleza em tudo. Foi musa de João Gaspar Simões e José Saramago, mas o seu nome acabaria por cair no esquecimento. Foi escritora, jornalista, cronista e uma das fundadoras d’A Capital. Escreveu até aos 50 anos — viveu quase metade da vida sem publicar obra. Foi contada por outros, mas importa ver como se contou. Morreu aos 96 anos e até ao fim manteve o olhar desarmante que atravessava todos.

— Sim. São as pessoas que me interessam. Num romance quereria pegar numa meia dúzia de pessoas e pô-las ante os olhos do leitor carregadas da sua verdade. Por exemplo, em vocês. Mas a minha pretensão seria, para melhor vos expor, iluminar-vos nesta aparente imobilidade.
— Viver Com os Outros

 

Maria Archer (1899-1982)

“Deliberadamente apagada da História”, segundo escreve Maria Teresa Horta. Maria Archer nasceu e morreu em Portugal, mas viveu em Moçambique, Guiné-Bissau, Luanda e Brasil, onde se refugiou durante 24 anos. Viu vários livros que escreveu serem censurados e apreendidos pela PIDE, mas nunca deixou de ser invulgarmente livre. Só tinha a quarta classe — que terminou aos 16 anos por nunca ter parado de acreditar na educação como veículo libertador — mas nunca parou de se formar como autodidata. Não era uma mulher canónica para a época. Numa entrevista em 1956 disse que se exilara no Brasil porque tinha sido “asfixiada” pela ação da censura, que lhe tinha tirado “os meios de vida”.

Eu precisarei de morrer para que a minha obra seja avaliada na altura que eu lhe atribuí quando escrevi — como um documento histórico duma época e da situação da mulher.            

 

Judith Teixeira (1880-1959)

Nasceu em Viseu, morreu em Lisboa e pouco se sabe sobre os últimos anos da sua vida. Era modernista e viu a sua obra apagada e ignorada ao longo da vida. Publicou todos os livros entre 1922 e 1927. A conservadora Liga de Ação dos Estudantes de Lisboa incluía-a num grupo de “artistas decadentes, os poetas de Sodoma, os editores, autores e vendedores de livros imorais” — vários exemplares de Decadência foram queimados, juntamente com obras de Fernando Pessoa, Raul Leal, António Botto, entre outros. Foi atacada pela imprensa conservadora devido à temática lésbica de alguns poemas e foi das mais perseguidas e enxovalhadas poetas modernistas.

Segue-me noite e dia
o teu desejo!...
Oiço a tua voz rúbida
e cantante
Suplicar-me a carícia
do meu beijo,
numa teima exigente
e perturbante!

E o meu corpo vencido, 
dominado ,
vai tombar doloroso, 
inconsciente,
sobre a lembrança morna
do passado
- e fica-se a sonhar... 
perdidamente!

 

Ana de Castro Osório (1872-1935)

É autora do primeiro manifesto feminista em Portugal, foi Presidente do Grupo de Estudos Feministas e fundou a primeira organização sufragista portuguesa. Defendia a igualdade, a aliança entre homens e mulheres que, acreditava, deveriam ter o mesmo acesso a trabalho e educação. Foi a criadora da literatura infantil em Portugal, recolheu histórias, escreveu-as e traduziu obras de outros, nomeadamente dos Irmãos Grimm. Queria trazer livros a um país assolado pelo analfabetismo. Criou manuais esco lares e foi uma grande e reconhecida pedagoga e feminista. Colaborou com diversos jornais e trabalhou com 
o Ministro da Justiça na elaboração da Lei do Divórcio, promulgada após a instauração da República.

O maior erro do homem é, a meu ver, estar convencido de que a mulher nasce e existe só para o seu prazer e encanto. Partindo deste princípio, é claro que não nos encontraremos nunca, visto eu pensar de modo tão contrário.
— Às mulheres portuguesas, 1905

 

Angelina Vidal (1853-1917)

Foi voz sonante nos movimentos progressistas, próxima do operariado, republicana e humanista. Angelina Vidal nasceu em 1853, ficou órfã aos nove anos, casou aos 19 e divorciou-se doze anos depois. A Lei do Divórcio ainda não tinha sido promulgada: perdeu a tutela dos filhos e teve de enfrentar o estigma para trabalhar e sobreviver. Foi jornalista, colaborou com vários meios de comunicação e foi editora da Voz do Operário entre 1897 e 1901. Incentivou, num texto publicado em 1886, as mulheres operárias a lutarem pelas 12 horas de trabalho. Nessa altura, um dia de trabalho tinha 15. Graças à atividade política, a pensão de viuvez só lhe foi atribuída dias antes de morrer, aos 63 anos. O marido tinha morrido em 1894, 23 anos antes.

Entre as várias perfídias com que a burguesia tem envenenado o espírito das massas ignorantes e narcotizado a consciência dos fracos, destaca-se a esmola, fruto venenífero da vaidade e do orgulho das classes privilegiadas. […] Quem concedeu ao homem o direito de dar esmolas ao homem? A distinção de classe.

 

Marquesa de Alorna (1750-1839)

D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre nasceu em Lisboa a 31 de outubro de 1750. Era filha de D. João de Almeida Portugal e D. Leonor de Lorena e Távora. Sabe-se que foi no período em que esteve enclausurada no Mosteiro de Chelas que desenvolveu a sua escrita — escrevia cartas para o pai que estava preso. Teve uma vida atribulada, tinha 5 anos aquando do terramoto de 1755, mas sentiu o maior abalo no dia em que a separaram do pai, preso no seguimento do alegado ataque ao rei D. José I. Começou a perseguição dos Távoras por Marquês de Pombal, D. João de Almeida Portugal não foi decapitado em praça pública, mas foi afastado da família. O Mosteiro de Chelas foi, durante largos anos, o local de clausura de D. Leonor de Almeida, da mãe e dos irmãos. Foram libertados em 1777, depois da morte do rei e do afastamento do Marquês de Pombal. Mudou-se para o Porto, viveu em várias capitais europeias, apaixonou-se pela poesia sentimentalista, conheceu e privou com grandes figuras da literatura europeia, incluindo Madame de Stael, figura incontornável do iluminismo em França. Ficou com o título Marquesa de Alorna quando o irmão faleceu — altura em que regressou a Portugal.

Pára, funesto destino,
Respeita a minha constância;
Pouco vences, se não vences
De minha alma a tolerância.

Este artigo foi publicado na Revista Somos Livros (edição Natal 2023)

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?


O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.