Isabela Figueiredo: “Eu tenho muito treino de vulnerabilidade ao longo da vida”

Por: Bertrand Livreiros a 2023-10-04

Isabela Figueiredo

Isabela Figueiredo

Isabela Figueiredo Nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, hoje Maputo, em 1963, filha de portugueses oriundos da zona Centro-Oeste de Portugal. Após a independência de Moçambique, em 1975, rumou a Portugal. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Especializou-se em Estudos sobre as Mulheres na Universidade Aberta. Trabalhou como jornalista no Diário de Notícias entre 1988 e 1994, onde foi também coordenadora do suplemento DN Jovem. Foi professora de português no ensino secundário. Escreveu Conto É Como Quem Diz, novela que recebeu o primeiro prémio da Mostra Portuguesa de Artes e Ideias, Caderno de Memórias Coloniais, cuja edição francesa foi finalista do Prémio Femina Estrangeiro, e A Gorda, obra que recebeu o Prémio Literário Urbano Tavares Rodrigues. Estas duas obras alcançaram grande êxito junto do público e da crítica, especialmente em Portugal e no Brasil, sendo constantemente reimpressas. Escreve regularmente para o seu blogue Novo Mundo (http://novomundoperfeito.blogspot.com).

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Isabela Figueiredo é a vencedora do Prémio Livreiros Bertrand para Autores Lusófonos, anunciado esta terça-feira, dia 3 de outubro  afirma não ficar muito surpreendida porque considera os livreiros “amigos”, que a leem e recomendam. Desde 2009, publicou três livros (Caderno de Memórias Coloniais, A Gorda e Um Cão no Meio do Caminho) e quer terminar o quarto no próximo ano. Não gosta de se ler da mesma forma que não gosta de se ver. Não porque se acha feia, mas porque está sempre lá dentro, a observar-se sem precisar de imagens. Escreve para sarar feridas  nesta entrevista, percebeu que o singular pode chegar  e não tem medo da vulnerabilidade de as mostrar. Sobre Um Cão no Meio do Caminho diz: “não acho que seja perfeito, mas acho que é importante para me lançar para outros livros”.


É a vencedora do Prémio Livreiros Bertrand para Autores Lusófonos. Disse numa entrevista que não esperava prémios. Qual é a sensação de ser distinguida para este?

Bom, um prémio de livreiros é sempre diferente de um prémio de um júri da academia. Eu sei que eles são os meus grandes divulgadores, devo muito aos livreiros em Portugal e em todo o mundo, porque gostam dos meus livros, recomendam-nos aos leitores. Não me surpreende que os meus amigos livreiros me tenham atribuído este prémio. A academia penso que tem alguma dificuldade em digerir a minha literatura, que é uma literatura de fusão, é uma coisa entre a autobiografia, a ficção, o ensaio, a poesia. No nosso sistema canónico ainda é pouco valorizada, por isso é que eu digo que os prémios com júri da academia dificilmente vêm cá parar. Não é impossível, mas é a minha impressão presente, vamos ver o que é que o futuro traz.


Este prémio distingue-a entre nomes como Ricardo Araújo Pereira, Lídia Jorge, Adília Lopes, José Luís Peixoto, entre outros. O que é que acha que este Um Cão no Meio do Caminho tem de especial para criar esta receção tão positiva?

Tem personagens muito disfóricas
— um homem que anda ao lixo, uma acumuladora — pelas quais normalmente as pessoas não sentem empatia. E foi daí que partiu o meu interesse por estas pessoas. É porque ninguém sente empatia por elas que me interessa desenvolvê-las, porque eu acho que as pessoas pelas quais não sentimos empatia são tão valiosas como aqueles por quem a sentimos. E são estas questões que me movem quando eu começo a escrever. Quem é o outro? O que é o outro? E como é que é a minha relação com o outro? Porque eu também escrevo muito para resolver as minhas questões existenciais. E acho que isso no livro interessa ao leitor. E depois, por outro lado, o facto de eu procurar que as minhas narrativas sejam narrativas com muitos acontecimentos, e não procuro que elas sejam narrativas com muitos acontecimentos para entreter. Todos os dias na minha vida acontecem pequenas coisas que, sendo pequenas são significativas. Eu escrevo um diário e apercebo-me que essas pequenas coisas que aconteceram são saltos, são acidentes, são movimento. Tudo está em movimento. E nos meus livros isso também acontece, há muito movimento, há muita ação e acho que isso agrada um leitor de ficção.

“Estamos sempre iguais na solidão, sempre os mesmos, e é por isso que ignoramos os sucessos e nos concentramos no telejornal, como se não houvesse louça para lavar na bancada. E depois lavamo-la. De manhã. Ou à tarde. Depois.”
A Gorda


A primeira frase do Um Cão no Meio do Caminho, parece de certa forma um seguimento da última frase d’A Gorda. Porquê unir duas histórias sobre personagens diferentes?

Vou ver porque juro, juro que não me lembro [das frases]. A última frase d’A Gorda é: “E ouço no meu cérebro a voz nítida e total da mamã, és tão torta, tão teimosa, como é que vais viver sem mim, menina?”. E agora a primeira do Um Cão no Meio do Caminho. Ah, que giro. “O futuro não está escrito, não venham ler-me nas cartas”. Juro-lhe, juro-lhe que não sabia. Juro-lhe, juro-lhe que estou a ver isto agora. Estou a ver isto agora, não sabia. Estou surpreendida, não fazia a menor ideia. Obrigada por esta revelação. É uma resposta, sim, é uma resposta. É engraçado porque, não, não sabia. Há um lado muito inconsciente na forma como nós trabalhamos. É incrível. Andamos ali a escavar no mesmo buraco, a tentar tratar a mesma ferida. Já viu? Não sabia.


Quanto tempo passou entre escrever a última frase d’A Gorda e a primeira do Um Cão No Meio do Caminho?

Cinco anos! Cinco anos!


Mas aquilo ficou-lhe ali.

Sim, as coisas ficam-nos sempre. O futuro, como é que vai ser? E, aliás, eu vou buscar o Caderno de Memórias Coloniais porque também termina assim. Isto é engraçado. Agora fez-me ver aqui uma coisa. Diz assim: “É a primeira noite que dormes na rua. Que não tens cama. Estás eufórica. Como vai ser a tua primeira noite? A que casa regressarás? Quanto tempo permanecerás sobre a cova onde o teu passado apodrece? Não devias pisar a tua campa. Para onde vais? Para onde vais agora? Para onde vais? Para onde vais agora?”. Tem sempre a ver com o... E agora? 


Pensa muito no futuro?

Sim. Sobretudo porque tenho consciência de que sou mortal. E eu gosto de viver. Eu tenho muito prazer com a vida. Mesmo com os acidentes da vida. Porque eu acho que os acidentes são a parte mais enriquecedora da vida, aquela zona de dificuldade é onde realmente se aprende. E eu gosto mesmo de viver. E eu sei que isto vai acabar
 a certa altura da nossa vida torna-se muito óbvio. E claro que penso no meu futuro e preocupa-me. Preocupa-me a ideia de incapacidade física, não me preocupa morrer, ir para outro lado qualquer. Mas preocupa-me a ideia de incapacidade física, de fragilidade, de solidão. Portanto, claro que penso no futuro, mas não só de forma nostálgica, triste. Penso no futuro de forma positiva. O que é que eu vou fazer para aproveitar isto até ao fim? Como é que eu vou gastar isto? Roer este osso todo bem roidinho.


No início, os seus livros têm sempre playlists. Como é que faz essa curadoria? São músicas que ouviu a escrever o livro, têm alguma ordem especial?

São músicas que ouvi enquanto estava a escrever. E também músicas que eu procurei, para me inspirar. Por exemplo, olhando aqui para esta lista [do Um Cão no Meio do Caminho]. A primeira música, por exemplo, o Cold Little Heart. É uma música que me inspirou para a Matadora. Para criar a personagem da Matadora. Aparece logo no início, porque o livro começa com ela. Há aqui uma evolução das músicas que tem a ver com a própria evolução do livro. A última música é I'm Waiting Here, do David Lynch e Lykke Li. E cada música tem a ver com uma personagem. Por exemplo, sei que há aqui o João e Maria, do Chico Buarque. Tem a ver com a relação entre o José Viriato e a Cátia quando são adolescentes e ele se apaixona por ela e há aquele primeiro amor. A Balada do Louco, do Ney  Matogrosso tem muito a ver com o José Viriato. O Anjinho da Guarda tem muito a ver com a avó e com o José Viriato. Bem, todas as músicas são músicas que eu fui ouvindo e que também fui procurando para me inspirar. Porque a música inspira-me. O som ambiente explica a forma como eu escrevo.


O Caderno de Memórias Coloniais, de que falava, e A Gorda são, como já disse, livros mais autobiográficos do que este último.  Essa vulnerabilidade assustou-a em algum momento?

Não, não.  Eu percebo que seja estranho dizer isto, mas...


Admirável até.

Sim, eu tenho muito treino de vulnerabilidade ao longo da vida. Muito cedo fui exposta a situações de vulnerabilidade, fragilidade, de ter de sobreviver sem apoio, sem ajuda, sobreviver por mim.  Isso deu-me muita resistência para aguentar a opinião dos outros, para aguentar o que os outros dizem de mim, o que os outros pensam de mim.  Estou a falar de mim com 13, 14 anos.  E habituei-me muito cedo a essa ideia de que o que os outros pensam e dizem é só o que os outros pensam e dizem, não é aquilo que eu sou. Penso que isso me tornou invulnerável  a esse medo da minha fragilidade.

 

“Um desterrado é também uma estátua de culpa. e a culpa, a culpa, a culpa que deixamos crescer e enrolar-se por dentro de nós como uma trepadeira incolor, ata-nos ao silêncio, à solidão, ao insolúvel desterro.”
Caderno de Memórias Coloniais


Depois de dois livros mais autobiográficos, como é que foi debruçar-se sobre este, que tem uma personagem central masculina? O que é que lhe trouxe este exercício de sair de si?

Foi muito importante para mim sair de mim. Era isso que eu queria fazer, fiquei um bocadinho cansada de falar só sobre mim. É muito desgastante. Foi um importante exercício literário criar outras personagens. Para mim é um grande desafio criar personagens masculinas porque eu não sou homem e estou sempre a pensar como é que eles são, como pensam. Foi interessante criar personagens diferentes. Foi muito difícil para mim criar uma personagem que não gostava de cães, como a Matadora. Fiz um esforço muito grande para o fazer, mas tive que o fazer porque eu precisava dessa antagonista. E foi mesmo um exercício que eu fiz, que não foi fácil, mas que foi importante para eu conseguir no futuro criar melhor literatura.  Porque eu não acho que Um Cão no Meio do Caminho seja um livro perfeito. Não acho, mas acho que é um livro importante para eu me lançar para outros livros.


Foi um primeiro exercício para perceber melhor para onde é que queria ir.

Sim, porque eu acho sempre que estou a aprender. Eu acho sempre que cada livro me ensina mais a ser escritora. Eu não tirei um curso disto. Estou a aprender e aprendo fazendo. E este livro foi uma aprendizagem importante, foi uma bela tese de doutoramento.


O que é que aprendeu neste livro sobre a sua escrita, sobre a literatura?

Aprendi que eu não sou só escritora sobre mim, não me inspiro só comigo. Os outros, o mundo, são também a minha fonte de inspiração e permitem-me igualmente escrever com coração e emoção e qualidade. Era importante para mim perceber isso. E do ponto de vista do estilo percebi qual é o meu estilo literário, que se impõe. O estilo é uma maneira, é uma marca. Como Christian Dior tem aquele estilo de roupa. Neste livro, percebi que quando eu escrevo, tenho uma marca de estilo ao qual não consigo escapar ou não quero escapar porque gosto dela. 


E como descreveria essa marca?

Velocidade. Diria que há velocidade na forma como eu escrevo. Há limpeza. Há limpeza e velocidade e também uma certa objetividade. Aquilo é objetivo...  Seco. Escrevo de uma forma seca que não é indiferente, é seca, mas tem emoção.  


Estava a dizer antes que criou o José Viriato e a Matadora como duas personagens antagonistas. Ele é vegan e ela não perceber porquê, nunca pensou nisso e não gosta de animais. Teve medo em algum momento de cair num certo moralismo ao escrever um livro que aborda este tema?

Muito. Eu não queria cair nesse moralismo, não queria levar o leitor a ler um manifesto sobre veganismo, embora defenda essa tese. Mas não queria porque quero ser lida por todos, isso é que é útil. Então, estive sempre consciente disso, do início ao fim. O que é que eu posso fazer?  Eu posso dar umas pinceladas. Uma pinceladinha aqui. Uma pincelada lá, separadas. Umas pinceladas de veganismo, mas bem afastadas e suaves que não dominam de forma alguma a história, mas estão lá, no substrato daquilo tudo. Na personagem do José Viriato e da avó. Fica ali uma semente e pode ser que ela germine.


O que é que surgiu antes neste livro? O tema ou a história?

A primeira coisa que eu disse ao meu editor antes de começar este livro foi: “Eu quero escrever sobre animais”.  E o meu editor disse-me “Ah, pois, isso”
 não ficou muito entusiasmado. Mas contou-me uma história de um cão que ele teve quando era pequeno. E contou-a com tanto entusiasmo que a usei no livro. Quando o pai do José Viriato diz ao miúdo que não pode ter um cão porque os cães sujam a casa e porque os cães são uma responsabilidade, vai marcando discurso com batidas na mesa. E o meu editor, quando falou comigo sobre o cão que teve no passado foi fazendo o mesmo sem se aperceber. E eu fiquei a olhar para ele. Fui para casa e escrevi o primeiro texto do livro. Que é o texto em que o miúdo encontra o cão e o leva para casa e o pai não quer o cão e faz aquele discurso em que bate com os nós dos dedos na mesa. E é a partir daí que o livro começa. Não tinha pensado na Matadora, não tinha pensado na avó, não tinha pensado na mãe, mas foram aparecendo.


Já disse várias vezes que tende a escrever histórias sobre pessoas que vivem à margem da sociedade. Desde sempre esteve atenta a estas histórias?  

Eu estou muito atenta a essas pessoas e a ideia de estar à margem, interpela-me, não consigo ser indiferente a essa questão. Do não ter lugar onde dormir, ou fazer contas às moedas para ir ao supermercado ou outro tipo de marginalidade. E isso interessa-me. Somos todos moldados para ser pessoas perfeitas, corretas, produtivas, para sermos uma quantidade de coisas que servem o sistema, que servem a produção de riqueza. Mas nós somos muitas coisas.  Eu sou muitas coisas. Eu não sou só uma pessoa produtiva e inteligente e correta, também sou o contrário disso. Aliás, filosoficamente não existe nada sem o seu contrário. Portanto, se eu sou inteligente em alguns momentos, isso significa que sou muito burra noutros.  E se sou muito justa em alguns momentos, também significa que sou injusta noutros. E interessa-me muito o que é ser humano. O que é estar aqui? O que é lutar e vencer? Vencer e perder. Às vezes perco e tenho que saber perder e esperar pela oportunidade em que ganho.  Isto é interessante. Tem graça. Bem, então, o estar à parte interessa-me do ponto de vista humano. E se me interessa do ponto de vista humano, interessa-me do ponto de vista literário. 

 

“Claro que há o Ganges, o Amazonas, o Grand Canyon ou o Machu Picchu e belezas singulares onde nunca irei por falta de dinheiro, mas no meu bairro havia uma tigela de água onde os pombos podiam matar a sede, havia a dona Rosa e um desejo de viver que a todos unia inconscientemente.”
Um Cão no Meio do Caminho


No livro, o José Viriato fala muitas vezes sobre a engrenagem. Mudou-se para o Alentejo também para fugir dela?

Não tenho dúvida.


Ou seja, mesmo em personagens que não são autobiográficas, tende a pôr pedaços de si.

Sim, claro, é impossível não pormos. Estou agora a ler o Misericórdia da Lídia Jorge. Ela fala daquela personagem que está no lar, que é uma mãe que está à espera de uma filha. E eu percebo que a forma como a Lídia Jorge, enquanto escritora, cria a personagem da mãe, tem um pouco dela. É impossível que as personagens do Saramago no Memorial do Convento não tivessem um pouco dele, um pouco daquilo que ele era enquanto homem no mundo e daquilo que ele pensava.  Porque é a nossa experiência do mundo que nos permite ter modelos para escrever.

 

Esta entrevista será publicada na Revista Somos Livros (edição Natal 2023).
 

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