Como qualquer outra arte, a literatura é subjetiva. O que é celebrado por uns, é rejeitado por outros. E o que foi criticado ontem pode ser aclamado amanhã. Nem os autores mais consagrados ou as obras mais populares escaparam à crítica, e estes cinco clássicos da literatura não são exceção. Consegue adivinhar quais são pelas críticas que receberam após o seu lançamento? Quem sabe se entre eles está um dos seus favoritos!
1. "Pode dizer-se que é demasiado longo porque o seu conteúdo — as peripécias e misérias de um esquadrão de bombardeiros americanos estacionado em Itália no final da Segunda Guerra Mundial – é repetitivo e monótono. Ou pode dizer-se que é demasiado curto porque nenhuma das suas várias personagens e ações é suficiente para se tornar verdadeiramente interessante."
Se a descrição lhe fez lembrar o enredo de Catch-22, acertou. Escrita por Richard G. Stern, esta crítica de 1961, o mesmo ano em que o livro foi publicado, acrescenta ainda: “O seu autor, Joseph Heller, é como um pintor brilhante que decide lançar todas as ideias dos seus cadernos de esboços numa tela, confiando no seu encanto e impacto para compensar a falta de conceção”. Apesar da receção negativa, é atualmente reconhecida como uma das obras mais notáveis da literatura americana do século XX.
2. “Ainda assim, mesmo quando tento, à luz destas páginas pálidas e lúgubres, levar a sério a Maioria Moral, não sinto nenhum arrepio de reconhecimento. Simplesmente não consigo ver a intolerância da extrema-direita, atualmente dirigida não só às clínicas de aborto e aos homossexuais, mas também às bibliotecas das escolas secundárias e aos professores das pequenas cidades, a conduzir a um puritanismo super-bíblico, através do qual se insistirá na procriação e se proibirá qualquer tipo de leitura.”
Não podemos ter a certeza, mas é possível que nos dias de hoje Mary McCarthy reconsiderasse esta sua crítica de A História de Uma Serva. A popular distopia de Margaret Atwood tornou-se não só um clássico da literatura mas um verdadeiro símbolo da luta pelos direitos das mulheres e, especialmente, dos seus direitos reprodutivos — atualmente, sob ameaça nos EUA e em várias partes do mundo, tal como Atwood previu.
3. "(...) Este livro é demasiado longo. Torna-se um pouco monótono. E ele [o autor] devia ter cortado um monte de coisas sobre estes idiotas e tudo o mais naquela escola esfarrapada. Eles deprimem-me. Deprimem mesmo."
Apesar das críticas e de ter sido banido em escolas e bibliotecas pela sua linguagem ofensiva, À Espera no Centeio, de J. D. Salinger, tornou-se um clássico e bestseller imediato. Para James Stern, o autor desta crítica, o seu protagonista, Holden Caulfield, podia ser apenas um idiota, mas ficou para a História como o mais conhecido fugitivo literário da América desde Huckleberry Finn.
4. "O autor quis, sem dúvida, que ela fosse estranha, mas ela é simplesmente estranha demais. Tinha apenas 11 anos quando chegou à casa na Ilha do Príncipe Eduardo que viria a ser o seu lar, mas, apesar da sua tenra idade, e apesar do facto de, à exceção de quatro meses passados no asilo, ter passado toda a sua vida com pessoas analfabetas e não ter tido quase nenhuma escolaridade, falou com o agricultor e a sua irmã como se tivesse tomado emprestado o vocabulário de Bernard Shaw, o sentimentalismo de Alfred Austin e os poderes de raciocínio de um juiz do Supremo Tribunal."
É seguro dizer que este crítico da Book Review de 1908 não ficou fã de Anne das Empenas Verdes, de Lucy Maud Montgomery. Mas isso não impediu que esta história se tornasse um clássico da literatura infantojuvenil, tendo inspirado várias sequelas e adaptações. Além disso, a Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, que serve de cenário para as aventuras de Anne, transformou-se num ponto turístico de interesse para leitores de todo o mundo.
5. "Não é tanto um romance como uma longa e afetuosa brincadeira inspirada na chamada geração 'beat', e um exemplo do grau em que alguns dos trabalhos mais originais que estão a ser feitos neste país passaram a depender do bizarro e do excêntrico para o seu estímulo criativo."
Embora não fosse totalmente negativa, esta crítica de David Dempsey, de 1957, é um bom exemplo de como a obra seminal de Jack Kerouac, Pela Estrada Fora, foi recebida. Inicialmente apelidado de “bizarro” e “excêntrico”, é atualmente considerado um dos melhores romances do século XX, frequentemente citado como um dos livros favoritos de personalidades como Kurt Cobain ou Bob Dylan.
Fonte: NY Times