Este ano celebram-se 15 anos da editora Alfaguara em Portugal, no mesmo ano em que a editora celebra 60 anos de publicação em língua espanhola. Quando se instalou deste lado da fronteira em 2009, a Alfaguara já contava com uma identidade e repertório editorial estabelecidos no campo da literatura internacional, sem nunca ter deixado de manter abertura e vontade de crescer com novos autores. Nas palavras de Clara Capitão (Diretora Editorial) “esta ambivalência foi plenamente abraçada e continua a orientar as nossas escolhas, procurando sempre dar a conhecer alguma da melhor literatura internacional, num equilíbrio entre autores já consagrados e autores que importa descobrir.”
O seu catálogo conta não só com autores estabelecidos da literatura estrangeira contemporânea, mas também dá a conhecer aos leitores portugueses o que melhor se publica no panorama internacional emergente. Outra marca do seu catálogo é a recuperação de clássicos contemporâneos, como James Baldwin, Charles Bukowski, Kurt Vonnegut, John Fante e Fleur Jaeggy, trazendo as histórias e o olhar destes escritores para as leituras dos nossos dias. Com um grupo estelar de autores, não faltam na Alfaguara alguns dos mais destacados prémios literários: National Book Award, Pulitzer Prize, Prix Goncourt, entre outros.
A missão da Alfaguara, segundo o seu manifesto, é a de ‘Contribuir, livro a livro, para uma narrativa do mundo.’ Neste aniversário tão especial, celebramos esta editora com 6 sugestões do seu catálogo.
Maus Hábitos, de Alana Portero
Um desafio a corações empedernidos: assim é Maus Hábitos, a história lírica e feroz de uma menina presa num corpo de rapaz, desbravando o caminho rumo à sua identidade, à revelia de tudo e de si mesma.
Este romance leva-nos numa travessia pelo território mais íntimo da natureza humana — uma travessia da qual não saímos incólumes. Pela mão da protagonista, vamos até à sua infância em San Blas — um bairro operário suburbano e dizimado pela heroína nos anos oitenta —, passamos pela adolescência selvagem nas noites clandestinas de Madrid e chegamos ao raiar do milénio, quando a promessa de liberdade é soterrada por um episódio de insuportável violência. Contudo, das cicatrizes mais fundas há de emergir não a redenção, mas a esperança.
A Malnascida, de Beatrice Salvioni
Monza, Itália, 1936. Francesca, de 13 anos, está nas margens do rio Lambro, vergada sob o peso de um homem morto que tentou violá-la. Maddalena, amiga de Francesca, sai da água e ajuda-a a livrar-se do corpo: escondem-no no meio de arbustos. Este momento é um marco inolvidável na relação entre as duas raparigas, que começa um ano antes, quando Francesca se deixa fascinar por aquela a quem todos chamam “a Malnascida”: uma rebelde de origens humildes e com estranhos poderes.
A Malnascida é o elogiado romance de estreia da italiana Beatrice Salvioni, distinguido com o prémio literário Scuola Holden, criado pelo premiado escritor Alessandro Baricco. Uma inesquecível história de amizade e crescimento, sob o pano de fundo da Itália fascista.
Felizes Anos de Castigo, de Fleur Jaeggy
Felizes Anos de Castigo conta a história de uma rapariga à procura de si mesma, num colégio interno suíço, nos anos 1950. Respira-se aqui uma atmosfera densa de cativeiro, sensualidade inconfessada e alienação. A protagonista é uma rapariga incomum, que se deixa fascinar por uma outra, bela, sofisticada e inteligente. Entre elas nasce uma relação ambígua, de luz e sombra. Num estilo límpido mas pleno de frémito, Fleur Jaeggy faz reverberar nesta narrativa a corda secreta de um mundo apartado da realidade, onde se vê, numa voragem, “a vida passar pelas janelas”.
Felizes Anos de Castigo pertence a uma linha do tempo mais indefinida do que a época ou as pessoas que retrata: desenrola-se na memória, essa espécie de século à parte dos outros.
Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut
Kurt Vonnegut escreveu sobre um dos episódios mais atrozes da Segunda Guerra Mundial, fazendo uso de um olhar e de uma técnica inesperados: ao lado do horror, o riso; ao lado do medo, a ternura; ao lado da indiferença, a esperança. Demorou vinte anos a transformar a sua experiência num romance sobre a guerra que fosse diferente de todos os outros. O resultado é uma obra-prima.
Clássico absoluto da literatura do século XX e um dos mais importantes romances antibélicos de sempre, Matadouro Cinco consagra Kurt Vonnegut como uma das grandes vozes da ficção americana.
A Purga, de Sofi Oksanen
Em 1992, com a queda da União Soviética, a Estónia consegue por fim saborear a liberdade e projectar o futuro. Aliide Truu, senhora idosa, vive alheada do mundo na sua casa, numa aldeia despovoada: todos migram para a capital, ninguém quer viver no campo. Esta vida pacata é interrompida pela chegada de Zara, uma jovem mulher que precisa de ajuda e que desfia um novelo de mentiras sobre si.
Abrigadas uma na outra, Aliide e Zara vão confrontar um passado nebuloso — amores, traições, vinganças —, descobrindo assim os inesperados laços que as unem. Elas são o rosto das gerações de mulheres que viveram sob o jugo da ocupação soviética nos países bálticos. A sua história, contada neste romance magistral, é também a história da sociedade europeia das últimas décadas.
Consentimento, de Vanessa Springora
Paris, meados da década de 80: a jovem V. procura nas páginas dos livros algo que preencha o vazio de afecto deixado pelo divórcio dos pais. Com treze anos, conhece G., escritor, figura da elite intelectual parisiense, semblante de monge budista e “olhos de um azul sobrenatural”. Depois de um meticuloso cortejo de algumas semanas, V. entrega-se a G. de corpo e alma. O idílio amoroso chega ao fim quando V. percebe, com uma terrível desilusão, que debaixo da aparência melíflua de homem de letras esconde-se um perigoso predador, enfeitiçado pela juventude das suas vítimas, encoberto por uma sociedade complacente.
Mais de trinta anos volvidos sobre os factos, Vanessa Springora narra, de forma lúcida e fulgurante, esta história de amor e perversão. Uma história individual — a sua história com o escritor Gabriel Matzneff — que espelha tantas outras. Corajoso e comovente, este romance autobiográfico incendiou o meio literário francês e reacendeu o debate sobre o consentimento um pouco por todo o mundo.