No dia do lançamento do último livro de Julian Barnes, o muito antecipado Partida (Quetzal), Francisco José Viegas fala-nos sobre este livro, enquanto editor (e leitor) deste emblemático autor da anglofonia e da literatura a nível global.
Quando, em 2022, Ian McEwan discutiu a ideia de que Lessons poderia ser o seu último romance (entretanto publicou What We Can Know no ano passado), disse uma coisa maravilhosa: “A palavra que mais detesto na língua inglesa é ‘encerramento’ [‘closure’]; só em romances e filmes é que se encontra isso. Na vida, ou se esquece ou simplesmente se incorpora ao resto do fardo que se carrega.” McEwan e Julian Barnes são amigos e o autor de O Papagaio de Flaubert anunciou que em janeiro de 2026, ao cumprir 80 anos, publicaria mesmo o seu último romance, este Partida [Departure(s)], que a Quetzal acaba de lançar.
Refiro O Papagaio de Flaubert (1984) porque é um livro que me tem acompanhado ao longo dos anos como uma espécie de manual sobre literatura, escrita, imaginação literária, biografia e vida em geral – e é uma aventura prodigiosa que, começando por falar de Flaubert (é isso que leva o protagonista do livro a atravessar o canal da Mancha a fim de visitar os lugares da vida do escritor francês, especialmente Rouen, onde estaria o papagaio empalhado que lhe teria servido de modelo para escrever Un Coeur Simple), fala de tudo o que os amantes de literatura sabem que os livros transportam. Ou seja, metade é realidade, metade é ficção, e nunca sabemos em que parte estamos. Isso acontece também em Elizabeth Finch ou Arthur & George e, claro, em O Ruído do Tempo, sobre Dmitri Shostakovich. Mas pode acontecer em O Sentido do Fim (de 2011, que lhe rendeu o Booker), claro. E em O Homem do Casaco Vermelho. E, cá para mim, em A Única História, livro de que gosto tanto. É melhor parar a lista.
Nós, que somos seus leitores, achamos que ele tem o direito de escrever o que quiser. Em literatura não há só ilusão.
Em Partida, por isso, sentimo-nos nessa condição: nunca sabemos em que parte estamos: “Isto não é um romance”, escreve ele. Ou seja, pode não ser uma obra de ficção. Há quem não goste deste atrevimento, mas Barnes fê-lo muito antes da chamada “autoficção” e por isso merece o ralhete de uma personagem, lá a meio: “Essa coisa híbrida que você faz, acho que é um erro. Devia fazer uma coisa ou outra.” Nós, que somos seus leitores, achamos que ele tem o direito de escrever o que quiser. Em literatura não há só ilusão.
Barnes sofre de um tipo particular de cancro, neoplasia mieloproliferativa. “O meu cancro e eu caminharemos juntos, de braços dados, até o dia da minha morte”, diz ele. O assunto não é novo nos livros de Julian Barnes. Família, amigos (como Martin Amis, muito presente aqui), mulher – podem estar nas páginas de Nada a Temer (2008) e Os Níveis da Vida (2013) e estarão certamente em Partida. Barnes visitou muitas vezes estes caminhos, meditando sobre o fim, as despedidas, a sensação do irreparável, sempre com amabilidade e certa irreverência, porque talvez não valha a pena lamentar aquilo que não podemos evitar.
Mas o grande segredo, o grande truque e a grande arte de Julian Barnes é nunca ceder ao lamento, nunca entrar na casa da comiseração, da tristeza ou do drama. Na da melancolia, sim — mas nunca saímos verdadeiramente dela, não é?
Mas a elegância de Julian Barnes é o fio do horizonte de Partida: é isso que lhe permite revisitar todos os ângulos perdidos ou reencontrados da sua biografia: a universidade, o companheirismo, o amor, as namoradas de juventude, as quezílias literárias, as polémicas que nos animaram, a paixão pela literatura francesa (Flaubert, claro, mas também Proust ou Renard), o confronto decisivo entre a beleza e a sensação de fim, de degradação ou de decadência. Mas o grande segredo, o grande truque e a grande arte de Julian Barnes é nunca ceder ao lamento, nunca entrar na casa da comiseração, da tristeza ou do drama. Na da melancolia, sim — mas nunca saímos verdadeiramente dela, não é? As personagens de Partida fazem isso por nós, delicadamente, escondendo a dor que é só sua, mascarando-a mas nunca conseguindo escondê-la. É por isso que Partida não é despedida. Ficam connosco os livros que explicam o seu talento e que fazem de Julian Barnes um dos momentos altos da nossa vida.
P. S. - Para terminar: a nossa capa é tão preciosa que Julian a publicou logo no seu site e foi adotada pela edição grega. Na verdade, ela reproduz o outfit de Barnes quando nos visitou recentemente e esteve na Feira do Livro de Lisboa no verão passado: o fato lindíssimo, de risca fina, totalmente inglês – e aquelas meias vermelhas deliciosas.