Daphne du Maurier: a autora que inspirou Hitchcock

Por: Raquel Fonseca a 2026-05-13

Daphne Du Maurier

Daphne Du Maurier

Daphne du Maurier nasceu no seio de uma família proeminentemente artística e literária, em Londres, a 13 de maio de 1907. Publicou os seus primeiros trabalhos na revista Bystander, que resultou num contrato com um agente literário. Em 1931, lançou o romance Apaixonados, o primeiro de mais de duas dezenas que publicaria ao longo da sua carreira. É principalmente reconhecida por duas histórias, Rebecca (1938) e Os Pássaros (1952), ambas adaptadas ao cinema por Alfred Hitchcock. A sua novelística é marcada pela sugestão de elementos sobrenaturais, episódios imbuídos do espírito gótico e raramente com finais felizes. Em 1969, pelo inegável contributo que deu à literatura inglesa, é nomeada dama da Ordem do Império Britânico. Morre em casa, no condado da Cornualha, em 1989.

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Hoje, 13 de maio, seria o aniversário de Daphne du Maurier, uma autora considerada por muitos como a melhor contadora de histórias do século XX. A escritora britânica construiu ao longo da vida uma obra marcada pelo suspense psicológico, pelo gótico e por uma perturbadora exploração das relações humanas.

Nascida em 1907 em Londres, no seio de uma família profundamente ligada às artes — o avô era escritor e cartoonista, a mãe atriz e o pai agente de atores — e com uma infância marcada por uma educação em escolas de elite em Paris, du Maurier cresceu num meio propício ao seu interesse pela escrita. Desde cedo revelou a sua singularidade: nas suas memórias, revela que adotava um alter ego em criança, com o nome “Eric Avon”, um pseudónimo que usou até aos 15 anos, altura em que já assinava contos e outros textos. A sexualidade da autora, em particular os alegados relacionamentos com Ellen Doubleday, a esposa do seu editor, e com a atriz Gertrude Lawrence é abordada no filme da BBC Daphne, de 2007.

Du Maurier sempre resistiu à categorização de ser uma autora de ficção romântica, uma imputação que se relaciona com a sua exploração do universo afetivo das relações humanas de uma forma que centra o o ponto de vista da subjetividade feminina. Na verdade, a vasta obra construída pela autora é caracterizada principalmente pelo suspense psicológico, os enredos trágicos e perturbadores, a sugestão de elementos sobrenaturais e por uma apurada sensibilidade ao gótico e macabro.

Não é surpreendente que os seus livros tenham suscitado afinidade com o realizador Alfred Hitchcock: partilham a linguagem e imagética do sombrio e inquietante, e uma obsessão com as nuances do drama humano. Três dos mais célebres filmes do mestre do suspense, Rebecca (1940), Os Pássaros (1963), e A Pousada da Jamaica (1939) são adaptações, mais ou menos fiéis, de romances de Daphne du Maurier – descubra tudo sobre esta ligação fascinante entre cinema e literatura.

Rebecca

Este primeiro filme realizado por Hitchcock nos EUA, com acesso aos recursos de Hollywood, é considerado uma obra em que a sua voz inconfundível é menos dominante: David Selznick, produtor do filme e conhecido pelas adaptações literárias cheias de drama e grandiosidade, teve uma grande influência na direção artística e, mais tarde, Hitchcock distanciou-se desta película de 1940. Recebido pela crítica como um chick flick, mantém, no entanto, até hoje uma mística que continua a captar novos espectadores e leitores para a história clássica de ciúme, farsa e obsessão de Du Maurier. Este thriller psicológico, que retrata com gélida fatalidade o momento em que a maioria dos romances termina – a vida após o casamento – tem sido alvo de inúmeras adaptações modernas, como a da Netflix, de 2020.

Curiosidade: A promoção original do filme teve um foco especial na conexão literária, com balcões nas salas de cinema onde era possível, em regime de biblioteca, levar o livro para ler em casa.

Os pássaros

Este é talvez o mais emblemático filme do realizador britânico, realizado em 1963, com argumento de Evan Hunter. É uma adaptação liberal do conto homónimo de du Maurier, mantendo apenas o conceito de ataques inexplicáveis de pássaros, mas desenvolvendo um thriller de terror moderno em volta deste mote. O filme resiste à interpretação, com a natureza do fenómeno associado aos pássaros, e o seu violento comportamento, nunca esclarecido. Du Maurier produziu prolificamente contos de terror marcados pelo insólito que quase atravessa para o sobrenatural, sem nunca cair nos clichês que facilmente advêm da explicitação do fantástico. Explorou temas e subjetividades ousadas, como na história The Doll, centrada numa mulher que mantém um boneco masculino em tamanho natural enquanto amante, narrada de forma macabra pelo seu pretendente humano, e invertendo a lógica da objetificação com base no género.

Curiosidade: Hitchcock optou por não incluir qualquer banda sonora musical no filme: o inquietante ambiente sónico do filme inclui apenas os cacarejares e gritos dos pássaros.

A Pousada da Jamaica

Com o título original de Jamaica Inn, este filme de 1939 é a primeira — e provavelmente a mais polémica — adaptação da trilogia de colaboração entre Hitchcock e Daphne du Maurier. O romance foi publicado em 1936 e nasceu de uma experiência real: em novembro de 1930, a escritora pernoitou na estalagem Jamaica Inn, na Cornualha, e foi a atmosfera sinistra deste local, associado com redes de contrabando, que inspirou o livro. Hoje, o local tem até um museu dedicado à autora, mas este filme foi na verdade rejeitado tanto por ela como pelo realizador, apesar do seu enorme sucesso comercial (o filme gerou 3,7 milhões de dólares de lucro). Hitchcock declarou que a ideia era "completamente absurda" mesmo antes de terminar as filmagens e Du Maurier ficou desagradada com o tom leve e jocoso do filme, desprovido da tensão sombria do seu texto, e com o final, aparentemente imposto pelo ator Charles Laughton — chegou até a ponderar não ceder os direitos de Rebecca a Hitchcock por causa desta infeliz adaptação. Talvez, neste caso, seja melhor ficar pelo livro.

Curiosidade: A tensão entre Charles Laughton e Hitchcock passou também pela sua atuação. O ator decidiu que Pengallan, o vilão que retrata no filme, teria uma forma de andar afetada, e para isso seguia o ritmo de uma valsa alemã que “tocava” na sua cabeça – o realizador considerou esta decisão totalmente desadequada.

Outros livros de Daphne du Maurier adaptados ao grande ecrã:

  • Don’t Look Now, adaptado por Nicolas Roeg em 1973
  • My Cousin Rachel, adaptado por Henry Koster em 1952, e com um remake de 2017 por Roger Michell, protagonizado por Rachel Weisz.
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