A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes (...)
– Inquietação (1982), José Mário Branco
Há um ano atrás, na nossa Revista Somos Livros de abril, recordámos a data mais marcante do século XX português: a derrota do regime fascista mais longo da Europa. Este ano recordamos o período de liberdade que se seguiu. Se o fim triunfal do Estado Novo (quase sem sangue e abundante em flores) foi um grito de libertação dito unânime, o seu desfecho desdobra-se numa fragmentação explosiva. Onde antes a união era necessária face ao regime autocrático, agora o espaço abre-se para a pluralidade política. Podemos imaginar uma fricção que rói até fazer faísca, um incêndio, talvez até um fogo-posto – iniciado tanto por agentes internos como pela influência internacional que depressa fez sentir a sua pressão.
Eu nasci em 1995. Mas sinto que também me pertence o calor deste verão que já foi há 50 verões atrás. No entanto, o que sei deve-se ao legado de quem o viveu, e quem o escreveu. A nossa revista abre com um panorama de João Céu e Silva sobre este "sobressalto na democracia", percorrendo os principais momentos desde a esperança do "dia inteiro e limpo" de Sophia, interrompido desde logo pelo golpe spinolista de 11 de março, passando pelas primeiras eleições livres, e desembocando no 25 de novembro – que nas palavras de Irene Flunser Pimentel, "sofre do "efeito Rashomon", nome do filme de 1950 de Akira Kurosawa, que passou a caracterizar a incapacidade de se chegar a uma "verdade única"" (Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975, p. 392-393). E porque o fim do fascismo não foi limitado em causa ou consequência à dita ‘metrópole’ europeia, Rui Bebiano expõe o contestado processo de libertação das nações colonizadas, assim como o estatuto dos retornados.
De seguida, Rui Cardoso escreve sobre a imprensa neste período pós-revolucionário, da "desforra" sobre o quase meio século de mordaças traduzido em tiragens triunfantes por (quase) todos os meios de comunicação, mas também por saneamentos internos. Este é o contexto do PREC, um laboratório de libertação nacional celebrado por uns e criticado por outros, mas dificilmente permitindo a neutralidade. Às questões incisivas de Anabela Mota Ribeiro, o inabalável revolucionário Domingos Abrantes entrega-nos o seu testemunho e posicionamento, claro e sem censura. O desapontamento transparece: para ele, "o Inverno de hoje começou no 25 de Abril", e destaca a derrota do 25 de novembro. Lado a lado com Fernando Rosas, Irene Flunser Pimentel, sobre esta data marcante relembra-nos que "cada um conta com o olhar do local onde esteve."
De volta ao presente, celebramos a obra vencedora da última edição do Prémio Livreiros Bertrand para Autores Lusófonos: A Desobediente, de Patrícia Reis. Maria João Costa entrevista a autora sobre a biografia de Maria Teresa Horta, transportando-nos para uma vida tão presente e essencial no período revolucionário português. A esta celebração viva da literatura, segue-se a reflexão de Marta Martins Silva sobre as campanhas de alfabetização e dinamização cultural, que mudaram para sempre a literacia em Portugal. Manuel Loff conta-nos sobre a reforma agrária, nas suas palavras "a consagração efetiva de um projeto socialista de desmantelamento da economia capitalista." E porque a arte também é um veículo de revolução, José Pedro Sousa recorre ao seu trabalho de investigação para sintetizar a produção de teatro neste período.
De volta aos livros, podemos contar com a análise de Paulo Nóbrega Serra sobre a coletânea de cartas de guerra de Ana Vargas e Joana Pontes, a visão de Rita Caetano sobre o Verão Quente em que "tudo era permitido" de Pedro Prostes da Fonseca, e por fim, Magda Cruz sobre a antologia de entrevistas a José Mário Branco, cujos versos inesquecíveis acompanham este texto. Nesta edição, encaramos a complexidade de um período histórico único – esperamos que o inquiete.
Leia aqui a Revista Somos Livros Mês do Livro 2025