Vivemos num tempo em que comunicar nunca foi tão fácil e tão acessível. Entre telefonemas, emails ou mensagens curtas e o fluir vertiginoso das redes sociais podemos estar sempre ligados. Isso não significa que estejamos, de facto, a comunicar uns com os outros. Na realidade, comunicar verdadeiramente tornou-se mais difícil. Preferimos mensagens assíncronas a conversas profundas e um silêncio partilhado é motivo de embaraço. Evitamos falar do que sentimos e perdemos a prática de interpretar o outro para além das palavras — seja através do olhar, de um gesto ou do seu silêncio.
Na abertura desta edição, O meu namorado é IA, assinado por Raquel Fonseca, mergulha no inquietante mundo dos relacionamentos virtuais e outras ilusões humanas, deixando uma pista para reencontrarmos o rumo: "se queremos uma tecnologia diferente, devemos olhar, em primeiro lugar, para nós mesmos".
Tânia Ganho, entrevistada por Maria João Costa, põe, sem eufemismos, os dedos em algumas feridas do nosso tempo: a onda de censura e intolerância, a rejeição de qualquer opinião diferente da nossa, o empobrecimento da língua ou a normalização que alguns livros fazem — com preocupante sucesso entre leitores muito jovens — de comportamentos violentos. Os mais novos são também o foco de Ivone Patrão, especialista em ciberpsicologia, que salienta como pode ser diferente o impacto da tecnologia nas crianças e jovens quando inseridas em famílias que estão presentes e atentas ao seu desenvolvimento. Este mundo digital é também o objeto do trabalho da psicóloga Sophie Soromenho, que o relaciona com o fenómeno da ansiedade social e o receio do olhar do outro.
Numa outra entrevista, conduzida por Marta Martins Silva, o Professor Alexandre Castro Caldas parte do seu profundo conhecimento sobre a Inteligência Artificial para nos falar de "inteligência vital", consciência, empatia e da importância de estarmos em grupo e conversarmos uns com os outros: "há sempre qualquer coisa que se junta e que se ganha". Parece simples, mas ainda o saberemos fazer?
A literatura pode ajudar-nos a reaprender e ocupa, como sempre, o papel central desta edição da Somos Livros. Paulo Nóbrega Serra e Ricardo Duarte apresentam-nos alguns livros, recém-publicados, que abordam, de uma forma ou outra, as relações humanas e os processos de comunicação que as sustentam — no fundo, a disponibilidade para ouvir os outros, através das diferenças que nos se- param. A escritora Ana Margarida Carvalho oferece-nos O coro das cegonhas, um conto inédito, muito belo, e uma janela por onde vai querer saltar de cabeça para a sua obra literária.
Neste contexto em que a tecnologia passou a mediar grande parte das nossas interações, a comunicação humana tornou-se um bem precioso. Quando acontece e abrimos espaço para ouvir, sentir e sermos ouvidos, algo muda. Recuperamos ligações (entre nós e dentro de nós) e criamos proximidade. Revelamos a força da comunicação entre as pessoas: imperfeita, mas capaz de curar feridas, encurtar distâncias, sanar diferenças. Mesmo as mais profundas.
Na Bertrand, esta ideia é um pilar do que somos. As livrarias — o "terceiro lugar" sobre o qual Marta Pais Oliveira reflete nestas páginas — são espaços de encontro e comunidade, onde leitores e autores, livreiros e editores são atraídos por uma força magnética comum: os livros. Os nossos livreiros são o eixo desta engrenagem: sabem escutar, compreender e procurar o livro certo — mas também a palavra certa — para cada pessoa. As suas histórias diárias — e partilhamos aqui algumas — são prova do valor intangível e insubstituível da comunicação entre pessoas. Esta edição da Somos Livros e o nosso filme de Natal, que pode ver nos meios habituais, são uma justa homenagem a este papel do livreiro e, em geral, às pequenas histórias (umas reais, outras ficcionais) que nos habitam, num moto perpétuo, graças ao seu poder profundamente transformador.
Clique aqui para ler a Revista Somos Livros nº 41 — Natal 2025.
Feliz Natal.